A Folha em Branco
Cá estávamos nós, com olhos fixos um no outro. Desconfiados e sem intimidade para dizer coisas realmente verdadeiras, pelo menos não tão verdadeiras quanto eu gostaria de dizer. Aqueles desabafos que não pensamos ou não nos preocupamos com o impacto que poderão causar naquele que ouve ou que finge ouvir. A verdade, todavia, não precisa ser dita. O poeta é um fingidor e não ignoro que você esteja lendo o que eu escrevo. Não acredito nessa espécie peculiar de absolvição: como se, no ato de escrever, eu estivesse expulsando meus demônios eloquentes em um confessionário. Acredito que, talvez inocentemente, aquele que absolve não está acima ou abaixo, mas dentro de nós mesmos. E continuo escrevendo rapidamente palavras em um espaço branco na folha, matando linhas, engolindo parágrafos. O grande problema é que, como no decorrer de nossa vida, quanto mais letras você jogar em uma página, mais espaço sobrará para ser vasculhado. Para alguns, a vida é um folha vazia esperando ansiosamente para ser preenchida com lembranças e memórias. Para outros, ela não passa de um livro imenso que precisa ser devorado palavra por palavra até seu ato final, o epílogo. Para mim, a vida é um caderno de caligrafia: há de se rabiscar inúmeras vezes para que possamos corrigir nossos erros e aprender a lição.










Íncubo 


