Voltei a escrever

E se houvesse alguém a carregar uma flor, só houvesse um alguém e mais ninguém, que na nossa relação durasse mais e que não se magoasse por coisas triviais, que fosse verdadeiro e que a verdade, toda a verdade, apenas a verdade, nada menos que a verdade expusesse sem medo de retroceder. Percorreria a cidade na qual estou sem saber muito bem o porquê, apenas aprendi que certas contingências não são endereçadas e que, a partir de perguntas, não devemos esperar confidências planejadas. E se depois houvesse alguém que dissesse que não estamos preparados, e nos perguntaríamos se estaremos preparados para quê?, preparados para nascer e crescer e morrer?, preparados para viver, penso eu, juntos. E se eu fosse a única da família que teria vontade de caminhar a plenos pulmões, sem a preocupação de talvez escrever um testamento e voltar a escrever um texto coerente que há muito tempo não consigo, não porque não quero, mas porque não me vejo mais carregando uma flor. E se houvesse alguém, quem quer que fosse a segurar o caule sem espinhos e o atirasse cova rasa abaixo, esse não seria eu. Eu já estaria enterrada a sete palmos no chão.
* Fotografia: Lilya Corneli










Íncubo 


