domingo, 25 de abril de 2010

Antropofagia

- Enquanto tu estiveres acordado, ainda posso te ter. - minto.
Deitada na cama, com os braços para trás, deixo-me ser acariciada. Descubro um dos teus segredos inconfessáveis no momento em que tua mão pousa entre os meus seios. Tu escondes tua antropofagia embaixo das unhas roídas e teus impulsos sádicos são guardados entre os teus cabelos compridos. Ao estender a palma da tua mão no lado esquerdo do meu tórax, deixaste claro teu desejo de abrir meu peito ao meio e puxar meu coração pra fora. Sentir o músculo ainda quente pulsar entre teus dedos e fincar teus dentes no tecido frágil está entre tuas fantasias mais excitantes. Passar tua língua na ferida aberta, saciar tua sede no caminho de sangue que escorre de minha pele para ser absorvido pelos lençóis rendados, enquanto nossos corpos nus se encontram escorregadios e manchados de vermelho.
- Enquanto tu estiveres viva, ainda posso te perder. - mentes.

* Fotografia: Lilya Corneli

Retábulo de Santa Joana Carolina

"Reclamava, fazia-lhe censuras, insultava-a, insistia nos males da soberba. Sua resposta, uma vez: 'O senhor não deixa de ter certa sabedoria: fala do que conhece.' Decidi propor-lhe casamento. Não tive boca para dizer-lhe as palavras, nem mesmo quando soube que estava de partida. Tive-lhe ódio, durante alguns anos. Emprenhava as mulheres e detestava os filhos que nasciam porque nenhum era seu. Com o tempo, o ódio foi passando, veio uma espécie de enlevo, talvez de gratidão. Acabei achando que Joana Carolina foi minha transcendência, meu quinhão de espanto numa vida tão pobre de mistério."

"Retábulo de Santa Joana Carolina" de Osman Lins.
Não me recordo muito bem ao certo, dentre tantas citações e leituras rápidas que fiz por livros online - fiz não, faço, eu sempre faço leituras rápidas para aguçar a inspiração -, no entanto, minha memória é traiçoeira. Resumindo, quero ler esse livro inteiro do Osman Lins, "Retábulo de Santa Joana Carolina". Acabou de entrar para a minha extensa, porém seleta, lista de próximas aquisições.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Metaforizar

Preste atenção, amor:
Tu não podes me dizer que vais embora. Não sou folha gasta de caderno juvenil que você rasga ao errar alguns versos. Sou página da Bíblia que tem a lateral dourada e é pecado você sequer criar orelha, quanto mais arrancar. Tens que me ler de perto, usando óculos de grau e passar os dedos no relevo dos meus sermões. Tens que decorar meus parágrafos e gravar meus dizeres.

Ouça-me bem, amor:
Tu não podes me descartar assim da sua vida. Não sou uma trepadeira que se poda quando se está grande demais. Sou erva daninha que se entrelaça entre as frestas da tua muralha, quase impossível de arrancar. E quando notares, estarei enrolada em tuas pernas e braços, costas e curvas. Tens que deixar que eu tome conta de ti para proteger a sua defesa. Tens que me fazer florescer.

Ainda é cedo, amor. Mal começaste a metaforizar.