sábado, 20 de fevereiro de 2010

O Mundo

Um homem da aldeia de Neguá, no litoral da Colômbia, conseguiu subir ao céus. Quando voltou, contou. Disse que tinha contemplado, lá do alto, a vida humana. E disse que somos um mar de fogueirinhas.

- O mundo é isso - revelou.
- Um montão de gente, um mar de fogueirinhas.

Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Não existem duas fogueiras iguais. Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras de todas as cores. Existe gente de fogo sereno que nem percebe o vento e gente de fogo louco que enche o ar de chispas. Alguns fogos, fogos bobos, não iluminam nem queimam; mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar e quem chegar perto pega fogo.

* "Livro dos Abraços" de Eduardo Galeano
** Indicação da Stefani, uma amiga que chegou pra ficar.

Aprendiz de Lisbela

Lisbela - Los Hermanos. Clique e ouça.

O que aconteceu com os romances hollywoodianos? Por que ninguém mais corre atrás dos outros? Ninguém sobe vinte andares de escadarias de um prédio, ninguém vai até o aeroporto atrás de algum vôo perdido, ninguém tem fôlego para serenatas noturnas com violão, ninguém tem pique para escalar sacadas, ninguém abre as portas de uma igreja qualquer e a plenos pulmões sai gritando que se opõe ao casamento. Não, isso não existe mais. É muito cômodo ficar em casa remoendo a situação ao invés de enfrentá-la. Aquela velha questão da discrição, de ser resignado e segurar seus impulsos apaixonados para não quebrar a cara depois. Às vezes eu fico aqui me perguntando se eu lutei o suficiente pelas pessoas que passaram pela minha vida. Eu deveria ter dado mais do meu sangue, do meu suor, das minhas lágrimas. Eu deveria ter dito tudo o que eu tinha guardado. Eu preciso de um atestado de intensidade vivida para entregar na porta do céu ou do inferno quando eu morrer. Eu preciso saber que fiz o possível, saber que valeu a pena. E quanto mais eu penso nisso, mais eu tenho certeza de que não moro em Hollywood e que de nada adiantaria fazer tudo isso. Aliás, agora eu não moro mais em nenhum lugar específico e algumas lutas sempre serão em vão.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Enxágua-me

Heart Of My Own - Basia Bulat. Clique e ouça.

Ela colocou Basia Bulat bem alto enquanto eu colhia toalhas no varal. Cansada de não sonhar, pediu-me que lavasse seus cabelos de noite nublada. Os olhos inchados já não eram mais cachoeira: tornaram-se Saaras à espera da primavera. Sentou-se no chão, cruzou as pernas, largou os abraços perdidos. Índia. A água gelada lavou as dores mundanas e arrepiou suas entranhas. Embrulho seus fios entre meus dedos para arrancar as tristezas. Tento desembaraçar os desgostos com movimentos fortes no meio da espuma. Há momentos em que não precisamos de palavras para parar a tempestade. Vi pequenos seios crescerem numa respiração forçada e angustiada. Li seus pensamentos num sussurro, entre uma música e um exagüe, mas continuei segurando firme sua nuca. Foi ela quem começou a falar:

- Não é lágrima, não, boboneca. É xampu.


* Proseado dos Jardins Vermelhos de uma certa Boboneca.
Leia mais poemas dela aqui.