O Jogo da Amarelinha
"Certa noite, a Maga cravou-lhe os dentes, mordendo-lhe o ombro até sair sangue, pelo simples fato de ele já estar um pouco cansado, um pouco perdido, o que resultou num confuso pacto sem palavras. Para Oliveira era como se Maga esperasse a morte dele, algo nela que não era o seu eu desperto, uma forma obscura reclamando uma destruição, a lenta facada de baixo para cima que rasga as estrelas da noite e devolve o espaço às perguntas e aos terrores. Essa vez, e só essa vez, excitado como um matador mítico para quem matar é devolver o touro ao mar e o mar ao céu, maltratou a Maga numa longa noite da qual pouco falaram mais tarde, fez dela Pasífae, dobrou-a e usou-a como a uma adolescente, conheceu-a e exigiu-lhe as servidões da mais triste puta, magnificou-a em constelação, teve-a entre os braços cheirando a sangue, fez com que bebesse o sêmen que corre pela boca como um desafio ao Logos, chupou-lhe a sombra do ventre e do sexo, erguendo-a depois até o seu rosto, para untá-la de si mesma, à mulher, exasperou-a com pele e pêlo e baba e queixumes, esvaziou-a até o máximo da sua magnífica força, lançou-a contra um travesseiro e um lençol e a sentiu chorar de felicidade contra o seu rosto que um novo cigarro devolvia à noite do quarto e do hotel."* Comprei esse livro há mais de um mês, arrumei um bloco de post-it para anotar as referências do autor, mas ainda não comecei a lê-lo. Fico paquerando o livro, li suas abas, dedilhei suas páginas, abri e fechei pra sentir seu cheiro. Estou adiando o prazer como Tom Cruise em Vanilla Sky. Não quero devorá-lo, decifrá-lo e deixá-lo de lado. Quero que ele seja meu amante secreto para as melhores horas."O Jogo da Amarelinha" de Julio Cortázar.

Comecei esse post em 2009 e ainda não consegui terminar. Não por não saber o que escrever, mas por me sentir repetitiva. Talvez ele nunca tenha um final verdadeiro. Esse ano veio para me mostrar que as coisas não são como deveriam ser. Nada está escrito em pedra, intuições não são definitivas e sonhos são mensagens abertas a interpretação. Sinto como se tivesse vivido décadas em um só ano, do tanto que eu vi, vivi, chorei, senti e sofri. Todavia, posso afirmar com convicção que eu aprendi. Penei, é claro, mas aprendi a lição. 








Íncubo 


