quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Rubra

War Pigs - Cake. Clique e ouça.
Súcubo
"Tudo o que quiser comigo? Sai de cima dessa tua trincheira de timidez e tesão bobo porque eu sei que estou te dando o gosto das rédeas a troco de nada. Só pra te ver com cara de idiota se equilibrando na beirada daquilo que sabe que é incapaz. Só pra me ouvir melar tuas calças com o que vazou da tua esperança. Só pra te sentir nessa infantilidade de me fazer de quatro nas páginas do seu banheiro. Posso montar em você e te pegar pelos cabelos a hora que eu quiser. Posso te fazer experimentar seus próprios lábios e dentes usando só voz e violão. Ao vivo, tenho perfumes mornos e vermelhos como um raio. Sozinha com você, atraio seus olhos perdidos em imaginação débil para fora do seu pântano de pudores. Lá, você é incapaz de domar a si mesmo sem ficar paralisado. No seu colo, você me pega pelos cabelos e some para sempre no papel de possibilidade que nunca chegou a ser nenhum ato nosso." por B.
Íncubo
Tudo o que quiser contigo? Como se fôssemos sobreviver aos campos minados que nós mesmos enterramos no começo da Guerra do Silêncio. Protegida atrás da minha trincheira, eu penso se algum dia você enxergará minha bandeira branca trêmula. Devo, então, invadir o território inimigo, rastejar embaixo do arame farpado e enfrentar batalhões. Devo atravessar tudo e todos para te encontrar. Só para ficar frente a frente com você, sem armas e sem aliados. Só para olhar dentro dos seus olhos e dizer tudo o que eu gostaria de dizer. Só para sentir o seu cheiro, observar seus lábios se mexerem, ouvir a sua voz ecoando. Só para saber que você ainda existe ou se virou somente um fruto da minha imaginação. Todos estão no campo de batalha, mas ninguém sabe porque estão lutando. Soldados só seguem ordens de seus superiores. Tenho certeza de que é impossível conquistar sua terra e hastear minha bandeira. Contudo, quando eu sentar no seu colo e puxar seus cabelos uma última vez, saberei que venci a única luta que valia a pena lutar: a minha.

sábado, 26 de dezembro de 2009

- Ele me pegou no colo.

- Mentira.
- Verdade.
- É o primeiro que consegue essa façanha.
- Acho que foi o primeiro e o último. Não sei como ele conseguiu me segurar sem que eu gritasse, pulasse ou fizesse alguma piada desconcertante. Aliás, me manter em silêncio ali é praticamente um milagre. De algum modo, consegui baixar a guarda por alguns minutos e sucumbi aos carinhos dele.
- Como aconteceu?
- Não sei, acho que ele deve ter alguma espécie de ímã. Quando vi, eu mesma já estava indo sentar no colo dele, não uma, mas inúmeras vezes e em várias situações diferentes. Já estava adestrada e ele nem precisava me chamar. E, por mais que pareça besteira, eu sentia que eu poderia ficar ali pelo tempo que eu quisesse, como se ali fosse o lugar perfeito para eu me aninhar.
- Tem que ser muito macho para conseguir te domar desse jeito.
- Eu parecia uma criança sendo ninada em seus braços. Inacreditável.
- Ele te ama.
- Não, ele não me ama mais.
- Eu também te amo, eu te carreguei no colo aquela vez.
- Aquela vez não conta, eu estava bêbada.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Roncão

Cangote - Céu. Clique e ouça.

Ele ronca. Não há um lugar da casa para ela se esconder e fugir do barulho irritante. Por isso, continua deitada no lado esquerdo da cama observando o sono pesado dele. Eu também estava lá e percebi quando ela transformou o olhar de insônia para homicídio. Olhava para sua vítima num close psicopata. Senta-se. Acompanha o movimento da caixa toráxica dele e percorre o seu corpo com os olhos, desde a ponta dos pés até o topo da cabeça. Começa a estalar os dedos, aposto que planeja asfixiá-lo. Depois alonga os braços e vira o pescoço em um movimento rápido. Suspira profundamente, ela está pronta para o ato assassínio. Puxa o edredon e se aproxima sorrateiramente de sua vítima, apóia as mãos no peito dele, passa as pernas por cima de seu corpo e encaixa a cabeça no seu cangote. Se não pode vencê-lo, deve, pelo menos, unir-se a ele.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Hostess

The Scientist - Coldplay. Clique e ouça.
"Nobody said it was easy..."

A vida, além de compacta, é compartimentada. Como um trem com seus vagões, como uma loja de departamentos, como um navio de luxo cheio de cabines. A minha é um grande hotel com os elevadores especiais, a área para fumantes ou a saída de emergência. Dividir é necessário. A vida nunca suportará todas as pessoas e todos os momentos vividos em um loft com os ambientes integrados. Serão necessários altos andares, espaçoso hall de entrada e um escuro porão para guardar a tristeza. Algumas pessoas você mantém lá em cima, na cobertura, só apreciando a vista. Outras ficam zanzando entre o bar ou salão de festas. Raramente os setores se conectam, determinadas turmas de amigos nunca se conhecerão, alguns são perfeitos para longos papos, outros para a sinuca de jogo rápido. A família não pode conhecer essa ou aquela amizade, você não pode apresentar aquele ex para o namorado e aquele cara do escritório não sai com ninguém. Os setores se separam e cabe a você uni-los de certa maneira. Você não tem uma vida só, você tem várias nas mãos. Haja fôlego para percorrer cada corredor e falar com todo mundo. Você começa a desempenhar mais de um papel, dependendo do dia e da hora. Por isso que você jamais deve se definir, não deve se limitar a isso ou aquilo. Nós somos feitos de vários andares e companhias. Nós somos feitos de muitos. Eu sou a hostess da minha vida, não a dona. É difícil coordenar tudo, administrar a entrada e saída de pessoas, agendar os eventos, evitar os conflitos, trabalhar em tempo integral, resolver os problemas, trocar de roupa, passar a maquiagem, lembrar das falas, sorrir para todos e pular de um quarto pro outro. Todavia, ninguém disse que viver seria uma tarefa fácil.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Sapatos e Cabelos

New Shoes - Paolo Nutini. Clique e ouça.

Todas as criaturas de Deus usam sapatos*. De qualquer Deus ou de algum específico? Eu uso sapatos só por educação. Alguns apertados e altos, outros baixos e espaçosos. Eu poderia andar descalça com os cabelos ao vento para sempre, mas agora não tenho mais cabelo, não tanto quanto eu costumava ter. Eu mesma cortei mais de um terço de cabelo, coloquei para frente as madeixas soltas que iam até o meio das costas e passei a tesoura. Agora meu cabelo não balança ao vento, mas eu continuo caminhando descalça. Passo as mãos para arrumar os fios rebeldes, não uso mais pente ou escova de cabelo. Minha escova de dentes é roxa - como meus hematomas. Meu edredon é cinza - como as minhas lágrimas. Meu café é preto - como meu coração. Minha camiseta preferida é branca e tem um "baby" escrito com letras pretas no centro - para isso não tenho uma explicação plausível. Tenho mania de falar sozinha com o notebook, com a televisão e com os livros. Faço careta pra tudo, tenho um apetite de pedreiro e um sono eterno de cinderela. Meu nariz, minhas mãos e meus pés estão sempre gelados mesmo que eu use meias e sapatos, mas acredite em mim, eu só uso por educação.

* Trecho do livro "Mago e Vidro" - IV Volume da Torre Negra do Stephen King

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Conquiste-me

É Só Saudade - Ludov. Clique e ouça.
"É só saudade, mas dói tanto quanto amor"

Conta a velha lenda que a bela princesa guarani dançou, mais uma vez, na beira da cachoeira, por seu amor. Ao som do vento, remexeu suas tatuagens de urucum e jenipapo delicadamente para a lua, até cansar seus pés. Deitou-se na terra e o rio, que apaixonara-se pela delícia daquele balanço, levou-a para o fundo de seu leito, para vê-la, também, à luz do sol. Quando, enfim, a primavera voltou, trazendo as pétalas aveludadas aos gramados e a brisa pueril aos matagais, a lua entendeu o que era saudade. Chorando estrelas, percebeu o amor por aqueles pequenos traços morenos e minguou, implorando às águas sua amada de volta. As lágrimas incandescentes, no negro oceano, ecoaram a triste verdade que vinha de longe: já era, assim, tarde demais.

* Proseei um poema da querida dos Jardins Vermelhos.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Quais são as minhas opções?

Na maioria das vezes, você não tem escolha. Você acha que sabe o quer da vida, mas no final, é a vida que te escolhe. Aquele sujeito que você amou durante a noite prefere te esquecer durante a manhã. Cada pessoa deve escolher o que quer e não esperar um dia ser escolhida. São tantas as opções. Se você é escolhido, pode ser a qualquer hora e por qualquer um, como um bilhete premiado. A expectativa faz seu coração pulsar mais forte, ela te mantém vivo. Todavia, quando a decisão cai nas suas mãos, você hesita e gagueja, procura pelo melhor e, quase sempre, perde a oportunidade para um próximo. Você se atrapalha, sofre e procura desculpas desnecessárias. São tão poucas as opções. A verdade aparece estampada no lençol ao primeiro sinal de raios solares entre as frestas da janela. Quando a droga, ou a pessoa, ou a vida que você escolheu resolve te dar as costas e te deixar na cama sozinho, penando para descobrir o que fazer daqui pra frente, você pensa em começar de novo, pegar uma borracha e apagar os vestígios, os erros, os enganos. E mais uma vez você percebe que a vida escolheu isso pra você e não o contrário. Então você levanta, abre uma janela, olha para rua e diz em voz alta: esse será meu último cigarro.

* Foto: Candy Cigarrette da Sally Mann