Medium -
Incubus. Clique e ouça.
Íncubo
O íncubo me acorda com um sopro na coluna. Desliza seus dedos de um ombro ao outro, brincando com as pintas das minhas costas. Depois pousa a palma aberta na base de minha nuca e, impiedosamente, fecha a mão na parte de trás do meu pescoço. Segura firme com suas unhas pressionadas em minha pele e, em seguida,
crava seus dentes em minha carne. Sinto o veneno de inúmeros demônios entrando em minha corrente sanguínea, a dor pungente faz com que meu corpo se contraia e repuxe meus músculos. O labirinto de minhas veias é longo demais para o oxigênio percorrê-lo a tempo de me salvar. Um breve estertor sai devagar de meus pulmões quando não encontram mais o ar. Não me mexo mais, ofereço tudo o que tenho e prometo entregar tudo o que tiver no futuro, só quero me virar e enxergar seu semblante. Todavia, o íncubo não quer derramar meu sangue, muito menos quer me ver
morta no primeiro round. Ele assiste meu sofrimento de camarote sem nenhum peso na consciência. Sobrevivo a mais uma noite, acordo assustada, atravesso o dia alerta. Aumento o volume da música, leio mais páginas do meu livro, afasto as cortinas e abro as janelas. Chego em casa, tomo um banho frio, corto os cabelos, tiro a maquiagem, deixo o riso fácil e rôo as unhas. Decido reorganizar meus pensamentos, mas voltar para a cama é um sacrifício. Quando consigo regular minha respiração e acreditar no sono tranquilo, o íncubo assopra minha nuca de novo para mostrar que chegou. Enfrento mais uma noite mergulhada na agonia e no vapor quente do hálito dele. Lá fora, todos os anjos choram de mãos atadas. Um belo dia, quando eu não tiver mais nada a oferecer, ele vai enjoar dessa brincadeira insossa, sim, um dia o íncubo vai se cansar de mim.