sábado, 28 de novembro de 2009

Lingerie

Say It Ain't So - Weezer. Clique e ouça.

- Adivinha a cor da minha lingerie?
- Vermelha.
- Caramba, como foi que você acertou em cheio?
- Você já tinha me contado antes de sairmos de casa.
- Ok, e qual a cor da sua?
- Você já tirou toda a minha roupa.
- Aé, memória fraca.
- Você é uma menina muito má, sabia?
- Não sou, não.
- É daquelas que não ligam no dia seguinte.
- Qual é o seu número mesmo?

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Medium

Medium - Incubus. Clique e ouça.
Íncubo
O íncubo me acorda com um sopro na coluna. Desliza seus dedos de um ombro ao outro, brincando com as pintas das minhas costas. Depois pousa a palma aberta na base de minha nuca e, impiedosamente, fecha a mão na parte de trás do meu pescoço. Segura firme com suas unhas pressionadas em minha pele e, em seguida, crava seus dentes em minha carne. Sinto o veneno de inúmeros demônios entrando em minha corrente sanguínea, a dor pungente faz com que meu corpo se contraia e repuxe meus músculos. O labirinto de minhas veias é longo demais para o oxigênio percorrê-lo a tempo de me salvar. Um breve estertor sai devagar de meus pulmões quando não encontram mais o ar. Não me mexo mais, ofereço tudo o que tenho e prometo entregar tudo o que tiver no futuro, só quero me virar e enxergar seu semblante. Todavia, o íncubo não quer derramar meu sangue, muito menos quer me ver morta no primeiro round. Ele assiste meu sofrimento de camarote sem nenhum peso na consciência. Sobrevivo a mais uma noite, acordo assustada, atravesso o dia alerta. Aumento o volume da música, leio mais páginas do meu livro, afasto as cortinas e abro as janelas. Chego em casa, tomo um banho frio, corto os cabelos, tiro a maquiagem, deixo o riso fácil e rôo as unhas. Decido reorganizar meus pensamentos, mas voltar para a cama é um sacrifício. Quando consigo regular minha respiração e acreditar no sono tranquilo, o íncubo assopra minha nuca de novo para mostrar que chegou. Enfrento mais uma noite mergulhada na agonia e no vapor quente do hálito dele. Lá fora, todos os anjos choram de mãos atadas. Um belo dia, quando eu não tiver mais nada a oferecer, ele vai enjoar dessa brincadeira insossa, sim, um dia o íncubo vai se cansar de mim.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Acostumai

Let's Stay Together - Trinah (Cover do Al Green). Clique e ouça.

Endireitou minha coluna na posição certa, sentou-se de lado no meu colo e estendeu a mão devagar para uma caneta em cima da mesa. Puxou uma folha com as pontas dos dedos e quase perdeu o equilíbrio. Passei minhas mãos ao seu redor e a incentivei com os olhos fixos no papel em branco. Concentrada no preceito que iria compartilhar, ela escreveu em letras de fôrma que viver - e sublinhou com força o verbo - é sofrimento, acostumai. Pousou a caneta no canto da folha, recolheu as mãos discretamente como uma criança arrependida de sua travessura e fitou minha expressão, mordendo o lábio inferior. Ela pareceu incomodada com a ausência de palavras entre nós, mas era orgulhosa o suficiente para não quebrar o silêncio. Apertei suas coxas sob as minhas e a trouxe mais para perto do meu tronco, deixando que jogasse todo o seu peso no meu corpo. Ela encaixou seu queixo perfeitamente na curva do meu pescoço, roçou seu nariz gelado na minha barba como quem sabe muito bem o que está fazendo, apoiou seus braços em meus ombros em um abraço zeloso e acariciou meus cabelos da nuca. Segura de si, ela sabia que estava no controle da situação agora. Pude soltar minhas mãos por um momento e escrever mais uma frase embaixo da sua, mas antes que ela pudesse ler, segurei firme suas costas e levantei suas pernas em um movimento rápido, larguei a folha na sala e a levei para o quarto sem hesitação. Ela só pôde matar a curiosidade quando o dia amanheceu de mansinho e eu finalmente preguei os olhos: vou trazer mais vida ao seu sofrimento e espero que você se acostume com isso.

sábado, 21 de novembro de 2009

November Rain

November Rain - Guns N' Roses. Clique e ouça.
But lovers always come
And lovers always go
An no one's really sure
Who's letting go today walking away
Dizem que chuva boa mesmo é aquela que lava nossa alma. Aquela que penetra em nossos poros, que limpa não somente as impurezas, mas os problemas. Aquela que nos faz esquecer da vida, que nos faz curtir o momento, aquela que, de alguma maneira, relaxa seu corpo. Boa é a tempestade que nos castiga por inteiro. Quando cai forte e gelada com seus pingos grossos, que nos faz parar para pensar nos erros, que nos obriga a enxergar quem é a pessoa em quem nós podemos confiar cegamente: em nós mesmos. Faz parte do aprendizado me acostumar com o tempo ruim. É por isso que venho experimentando vários tipos de chuvas esse mês. Dessas que caem sem saber o porquê, dessas inesperadas que aliviam os músculos, das carinhosas que nos molham da cabeça aos pés, elas sempre nos relembram o quão insignificantes nós humanos somos. Deve ser para isso que a chuva existe: para os seres humanos atrevidos que caem embaixo dela saírem revigorados. Uma segunda chance para começar seu dia, sua semana, seu mês, seu ano, de novo. Tudo de novo.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Sem querer querendo...

* Imagem: I Can Read.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Ausência

Don't Let Me Be Misunderstood - Nina Simone. Clique e ouça.
Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Carlos Drummond de Andrade

sábado, 14 de novembro de 2009

Dois anos, dois minutos

Between Two Lungs - Florence and The Machine. Clique e ouça.

Ela desceu as escadas atrasada, fugiu da chuva e entrou, por coincidência, naquela mesma livraria. Sacudiu os braços para se secar e, chamando a atenção de quase metade do grupo que assistia a uma palestra, ela o viu de relance. Levou apenas um segundo sem os pés no chão e logo sentou a bunda na primeira cadeira que encontrou. Segurou forte o assento para não tombar de susto. "Impossível, faz quanto tempo? Uns dois anos, eu acho. Será que ele me viu? Puta merda. Tanto faz. Foco, Priscila, foco." Levantou o queixo na direção do palco, mas não conseguiu segurar o olhar curioso que procurava o topo da cabeça dele na terceira fileira da direita. Quase dois anos haviam se passado. Lembrava perfeitamente dele. Poderia reproduzir cada tatuagem de seu corpo se tivesse o dom do desenho. Que droga, poderia reproduzir essas tatuagens até com a ponta da língua, se quisesse. "O tempo fez o que tinha que ser feito, não há mais nada que eu possa fazer. Somos pessoas totalmente diferentes agora. Ok?" E aquilo que demorou dois anos para ser afastado foi novamente unido em menos de dois minutos. Adoro esses números cabalísticos.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Dragão

Escape From Dragon House - Dengue Fever. Clique e ouça.

- Você é um dragão.
- Obrigada pelo elogio...
- Não tem nada a ver com a sua beleza e sim com o modo como se domestica um dragão. Deitada aqui no meu colo, você é minha e ponto final. Mas só pode ser minha de verdade se você quiser ser.
- Nesse caso, eu já estou domesticada?
- É aí que está o X da questão. Não existe uma maneira de domar ou amarrar ou submeter um dragão às suas vontades, isso é praticamente impossível. Ele é livre por natureza e assim deve continuar. O que podemos fazer é um acordo pacífico com o animal. Consegue entender a minha linha de pensamento?
- Ok. Então você quer fechar um acordo com qual objetivo, afinal?
- Para montar no dragão, é claro.

Além desse diálogo insone, ando tendo outras conversas noite afora.
Mais papos sobre Olás, sobre a escolha de nossa Direção, sobre nossa Conversa de Botas Batidas e sobre o Moulin Rouge, basta clicar e ler.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Sem Mundo

As coisas mais bonitas são sempre aquelas ditas da boca pra fora. Difícil é esperar que aquilo dito se transforme em verdade absoluta. Não sei mais em quê acreditar, não sei mais nem se devo acreditar. Quem ama, espera? Espera para viver ou vive para esperar? Sei que as coisas tão mais lindas estão sempre onde você está. Onde você está? Onde quer que você esteja. Não tê-las é como enxergar somente a feiúra das pessoas e não poder fazer nada para mudá-la. É como querer abraçar um mundo sem ter braços e escolher ficar sem o mundo, simplesmente para não sofrer a dor de não poder abraçá-lo...