quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Nêmesis

Sin Mi Diablo - Babasónicos. Clique e ouça.
"La verdad es que yo no soy nada sin mi diablo..."
Súcubo
"Acordei sem nunca imaginar que alguém sentiria minha voz desse seu jeito. Quem diria que seria você, estranha como era até se sufocar no pára-quedas com que se aflorou numa das únicas árvores da minha vida. Como pedra mansa em lago de vidro, ela me dá tudo quente e espesso desse jeito. Cintura no batente. Ela e ela. Mãos sobre as mãos. Coisa que não se fala: se faz. Se faz toda de chocolate branco. De chocolate porque é efêmero como ímpeto de homem e impulso de mulher. E branco porque é maldição. Armadilha. A vida é feita disso: de nós. De surpresas e escolhas." por B.
Íncubo
Adormeci sem nunca imaginar que não acordaria mais desse sonho. Inocentemente, fiquei presa na trama onírica e não consegui mais despertar ou quiçá fugir daquelas histórias. Tive que viver uma por uma. Pulei sem pára-quedas do alto de um avião sem medo de me machucar. Mergulhei fundo em um lago congelado pelo inverno só para apaziguar os desejos. Plantei uma semente ao lado da sua árvore para vê-la germinar. Nada deveria me afetar de fato. Puro equívoco. Foi dos sonhos que ele surgiu e é por causa dos mesmos sonhos que ele se vai. Ele e ele. Quem diria que ele seria você.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

De mansinho

E agora ela vem assim, requebrando de mansinho em minha direção*, enquanto seus passos compridos de gazela faceira cessam na posição de lótus ascendente. Antes que seus olhos se perdessem fixos no teto, verga-se para trás e lança suas mãos em seu próprio contorno. Estremece o chão e continua intacta. Há quem pressinta o terremoto repartindo as paredes em rachaduras desiguais e injustas. Há quem queira investigar de onde vem o equilíbrio daquela mulher, quando, na realidade, deveria procurar abrigo imediato. Há quem peça para socorrer aquele corpo frágil com um abraço fraternal. Contudo, toda tentativa de contato é declinada. Todo esforço de consolo é ignorado. E agora ela fica assim, me quebrando de mansinho sem nenhuma precaução, enquanto minha casa perde os alicerces e desmorona ao seu redor. Tijolo por tijolo, tudo fica fora do lugar, menos a silhueta feminina que permanece incólume sob a luz azulada da lua crescente.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Alternativas

Qual a alternativa correta para o seguinte trecho:
Se reencontraram. Então se olharam e foi só o que fizeram por instantes. Foi ele quem desviou os olhos dessa vez, sorrindo e perguntando: "Pronta pras nossas últimas horas juntos?".
Ela sorriu e...

1) ... respondeu: "É, acho que estou pronta, sim." Mas, subitamente, não tinha mais vontade de sorrir, pois sabia que aquelas últimas horas seriam realmente as últimas horas dos dois juntos, uma decisão definitiva que ela odiava saber, e ele não. O sorriso dele cortava seu coração.

2) ... demorou alguns instantes para responder. Pensou em todos os momentos que passaram e mais ainda naqueles que nunca iriam acontecer. Nunca estivera pronta para se despedir. Nunca quisera ficar longe. Aquele gosto, aquela voz, aquele toque. Partida. E então, pediu a ele que olhasse em seus olhos, sem desviar desta vez. E assim ficaram por mais alguns segundos. "Não queria que fossem as últimas. Poderia perder uma vida te olhando, contemplando seu sorriso e sentindo seu gosto. Mesmo que em silêncio." Beijaram-se.

3) ... disse "Não", arrastando-o pra dentro do metrô. De olhos fechados, os dois passearam com os indicadores até encontrar seu destino no mapa dentro do vagão, a despeito das pessoas em volta, que os achavam ridículos. Talvez nunca tivessem realmente estado apaixonados, eles pensaram.

4) ... disfarçadamente secou a lágrima que insistiu em escapar de seu olho. Não, não estava preparada. Puxou-o para bem perto de si, entrelaçou seus braços no pescoço desnudo e, na pontinha dos pés, chegou ao seu ouvido e sussurrou: "Estou apenas preparada para as melhores horas de nossa vida."

5) ... afirmou: "Sim, querido. E o que antes era uma brincadeira rotineira do casal, estava agora para se concretizar. Mal sabia ele que, nas regras do jogo, só ela perguntava. Levantou-se, vestiu suas roupas e saiu do quarto sem responder a mais nenhuma pergunta.

6) ... fechou os olhos por um instante. Em sua mente, passou feito um relâmpago tudo o que aprendeu com ele, todos os planos que construíram juntos, todas as lágrimas derramadas e os doces momentos de prazer que vivera. Abriu os olhos e disse: "Não, ninguém está pronto. Mas seguirei meu caminho com a tranquilidade em meu coração de que esta história teve um ponto final."

7) ... aceitou. Não porque quis abraçar o fim iminente, mas porque ignorava seus temores quanto a isso. Partiu de encontro ao destino, tal qual um soldado que se ergue da trincheira e segue sem medo em direção ao fronte inimigo. E no fundo, talvez o fim seja só uma parte da história, ou um pedaço do começo.

8) ... deu as costas. Não, não estava pronta, nunca estaria. E foi justamente por não estar pronta que jamais o reencontraria novamente. Melhor seguir uam vida inteira sofrendo do que ter algumas horas para colocar um ponto final em algo que jamais deveria terminar.

Respostas intercaladas entre 4 homens e 4 mulheres. Qual a sua?

sábado, 24 de outubro de 2009

Dia do Amor

Floradas de Amor - Duo Moviola. Clique e ouça.

Ninguém precisa de ninguém para ser feliz. A felicidade não é concreta, não acontece todos os dias antes do chá das cinco ou após a novela das oito. Ela é feita de momentos, pequenas doses de alegria que muitas vezes ficam guardadas na memória durante muito tempo, ou para sempre, como preferir. Saiba que amor não é sinônimo de subordinação. Se você precisa estar com uma pessoa e necessita do amor dela para continuar vivendo, você não está amando. Isso é dependência e para isso existe tratamento, acredite. Amar significa que você pode viver muito bem sem a pessoa e continuar sua jornada por seus caminhos e atalhos naturalmente, mas por ter tamanha afeição é que você decide compartilhar uma vida com ela.

É a sua escolha, confie em sua intuição.

Isso também me faz lembrar de uma personagem do filme "O Grande Truque". Ela dizia que, em muitos dias, o seu marido parecia ser outra pessoa e isso fazia com que os dias se alternassem entre aqueles em que ele a amava e aqueles em que ele não sentia absolutamente nada. Quando indagada de seu sentimento a respeito da situação, ela confessa que não se importava com o fato dele ser um poço de inconstância, simplesmente porque os dias em que ele a amava eram os dias mais especiais da semana. Ela espreitava calada ao lado da cama, mal conseguia respirar de ansiedade, observava o semblante recém-desperto de seu amado e torcia para aquele dia ser o dia do amor. Se não fosse, sempre haveriam outros.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Amor a sangre y fuego

Pura Sangre - Jarabe de Palo. Clique e ouça.
No te quiero sino porque te quiero
y de quererte a no quererte llego
y de esperarte cuando no te espero
pasa mi corazón del frío al fuego.

Te quiero sólo porque a ti te quiero,
te odio sin fin, y odiándote te ruego,
y la medida de mi amor viajero
es no verte y amarte como un ciego.

Tal vez consumirá la luz de Enero,
su rayo cruel, mi corazón entero,
robándome la llave del sosiego.

En esta historia sólo yo me muero
y moriré de amor porque te quiero,
porque te quiero, amor, a sangre y fuego.

Pablo Neruda
"Soneto LXVI" Cien sonetos de amor - Tarde (1959)

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Criada-muda

Silent Spring - Massive Attack. Clique e ouça.
Súcubo e Íncubo
O silêncio do telefone é tão estridente que trinca o retrato e o copo. O whisky de anteontem escorre pela gaveta e, dentro dela, lava uma bíblia imunda. Mesmo no escuro, chuto o criado-mudo bem longe para exorcizar a raiva. Mergulho na cama e escondo a saudade do seu gosto costurando minha língua no colchão. Para a minha própria segurança, guardo embaixo do travesseiro a vontade de te morder. Embalo meu corpo no edredon como se fosse um casulo precoce de evolução tardia, uma tentativa frustrada de sufocar meu pensamento de uma vez por todas.

Ali dentro, rastejo e me engrenho em cabelos e pêlos culpados sob minhas roupas ausentes. Elas não estão aqui agora como sequer estiveram na cena do crime, mas justamente por isso, sofrem as conseqüências de nossos atos como cúmplices dolosos ou testemunhas negligentes. Esqueço-me de que ainda é o mesmo colchão e tento me livrar do seu cheiro como um imolado que busca alívio rolando de um lado pro outro nas brasas.

Ah, Camões... O fogo que arde invisível também é a venda que cega o espelho. Primavera taciturna essa que começa. As manchas da maquiagem nunca mais sairão desse maldito travesseiro, esses borrões de blush azul e sombra preta escorrida em lágrimas de fada. Entretanto, deles é que sinto brotarem minhas asas. Atrofiadas e delicadas como gravetos feitos de alma, são brotos de liberdade semeados pelo tesão narcisista. Uma muda. Muda de amor próprio, de respeito. Muda de vontade de voar pra bem longe de mim.

domingo, 18 de outubro de 2009

Amor de Outono

Assim como o amor de verão, o de outono passa a cada três/quatro meses. Não fica nada por se fazer e não há nada que possa ser feito. Seu término é iminente. Deixa lacunas que se renovam a cada mudança de estação, e esperanças de que na próxima tudo seja diferente. Não foi feito para durar e, se fosse, perderia todo o significado de sua sazonalidade. Há de se conformar e aceitar o fato de que passou e ponto final. Lembre-se de que manter souvenir dessa época fará com que você se relembre da efemeridade do amor a cada instante de saudade, mas isso é um risco que vale a pena correr.

* Imagem: I Can Read.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Rua Nantes

Nantes - Beirut. Clique e ouça.

Anoitece na rua recém-asfaltada. O corpo insiste em acender o desejo logo no primeiro lampejo de luz elétrica. Só havia uma saída de emergência para o veículo estacionado ao lado direito. Local perfeito para a apresentação de final de outono. As casas alinhadas são vigiadas pelos cachorros vadios de focinhos cinzentos e pela vegetação agitada à espera do espetáculo. Nenhum deus, dito e repetido por inúmeros nomes, escreve destinos - ou roteiros - assim tão precisos. Não há disfarce nem codinome, a vontade não se engana, muito menos se esconde. Desperta a sentinela interior e haja paciência para saciá-la. Não tem volta. A iluminação fraca e amarelada dos postes da praça dão vida ao picadeiro. A sinfonia dos ventos nas folhas caídas pela estação passada marca o ritmo das palmas para o começo da exibição. Os palhaços, devidamente alongados e aquecidos, começam a diversão ao avesso: despem-se de suas fantasias, tiram a maquiagem e expõem toda a sua ardileza. A platéia de um homem só agradece o número com aplausos fervorosos ao lado da janela embaçada do banco traseiro, e aguarda ansiosamente uma nova visita do circo à travessa da Rua Nantes.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Tempos verbais

Meninos e Meninas - Legião Urbana*. Clique e ouça.

Eu canto em português errado. Acho que o imperfeito não participa do passado. Eu troco as pessoas, troco os pronomes.* E continuo não somente cantando, como também escrevendo errado. E troco as frases, troco de casa, troco de sobrenome. Nunca conheci um pretérito que fosse mais que perfeito, tampouco presente ou futuro. Nunca discuti grego antigo ou aramaico ou qualquer língua morta. E no meu futuro, eu não anseio por nada que venha do pretérito, porque mesmo o mais que perfeito está contaminado pelo impessoal. Preciso aprender a controlar meu imperativo negativo e passar a me colocar no gerúndio do infinitivo. Entrementes, prossigo no equívoco da conjugação. E troco as sentenças, troco de roupa, troco os verbos. Vou trocando até que a sintaxe encaixe, ou alguém encaixe em mim.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Loop

Cryin' - Aerosmith. Clique e ouça.

Chorei até o peito doer, abafei os soluços entre as mãos, gritei em silêncio. Pés descalços, mãos congeladas, músculos retesados. Desgrenhada e incrédula, mirando o nada, lábios ressecados balbuciando estrofes bobas de músicas mais bobas ainda, espasmos incontroláveis percorrendo o corpo. Um grande buraco negro surgiu no meio de mim mesma. Ele não tem predileção e nunca fica satisfeito, vai sugando e tragando tudo o que eu tenho e tudo o que eu já tive de bom. Deixa uma espécie de desesperança clandestina no fundo do meu âmago, aquela dor rasa que sempre lateja para lembrar o porquê do meu sofrimento. Você. Ou a falta que você me faz, ou fez, ou vai fazer. Você. Ou a vontade que eu tenho de você, ou tive, ou vou ter. Você. Ou o loop que minha espera por você criou em meus pensamentos vazios. A lágrima prova que ainda sou tua; o suspiro preso entre os dedos prova que ainda consigo ser; o grito mudo prova que não quero mais ser. E se não for tua, não serei de mais ninguém.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Amputação voluntária

Back to Black - Amy Winehouse. Clique e ouça.

Depois de meses afastado, ele reapareceu na minha vida como quem não quer nada, mas eu tenho certeza de que agora, mais do que nunca, ele quer tudo e mais um pouco. Veio investigar meu presente, ressuscitar meu passado, atordoar meu futuro. Dos momentos que vivemos, ficaram somente as palavras que poderiam ter sido ditas e não foram. Das palavras que reinventamos, nenhuma deve ser novamente repetida. E das repetições absurdas que fizemos, ora, sabemos que insistir no mesmo erro é burrice. Observar suas feições de soslaio e sentir seu corpo tão próximo do meu faz com que minha memória reviva lembranças que eu jurava que já haviam sido apagadas. É como amputar um braço voluntariamente e, ainda assim, senti-lo pulsando ao lado do corpo, como uma continuação de vida inexistente ou como um pedaço eterno de meu eu-lírico fracassado.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Caixeiro viajante

Acabo de chegar. Vim lhe apresentar uma possibilidade de compra única. Trouxe aqui comigo essa oportunidade irrecusável de amar sem ter que esperar e de poder encontrar nas palavras uma cumplicidade sem igual. É tarde, eu sei, mas vim assim que soube que precisavam dos meus produtos por essas bandas. Não me pergunte quem solicitou minha presença, basta saber que aqui estou ao seu dispor. Escondo em minhas mangas alguns truques batidos, mas não sou mágico, muito menos palhaço. Cheguei agora e posso aguardar algum tempo até que você se decida. Não se esqueça de que eu ainda tenho muitos locais para visitar e meu regresso é iminente. Mesmo assim, eu espero por você. Só não me confunda com o Cupido, meus serviços custam um certo preço, podemos negociar a forma de pagamento, mas eu não vendo fiado.

* Foto: Waiting for the Moon Parade do Andrew Pearce

domingo, 4 de outubro de 2009

Tom Jobim

Inútil Paisagem - Tom Jobim & Dorival Caymmi. Clique e ouça.
Mas pra quê?
Pra quê tanto céu?
Pra quê tanto mar? Pra quê?
De que serve esta onda que quebra?
E o vento da tarde? De que serve a tarde?
Inútil paisagem.

Pode ser que não venhas mais.
Que não venhas nunca mais...

De que servem as flores
que nascem pelos caminhos?
Se meu caminho sozinho é nada...

Letra daqui.

sábado, 3 de outubro de 2009

Rodeio

Rodeo Clowns - Jack Johnson. Clique e ouça.

Aprendi, de um jeito ou de outro, que o que conta são os atos e não as palavras. O que as pessoas dizem de nada vale, você tem que reparar nas suas ações, no que elas realmente fazem. Eu ganhei um livro que não tem dedicatória, porque dedicatória não se pede. Temos que estar preparados para as decepções. Amar é como montar em um touro bravo no meio de um rodeio. Não importa quantos touros você montou, mas quantos segundos você conseguiu se equilibrar no lombo deles. Cair é inevitável, você precisa entrar na arena sabendo que você sempre vai cair. O que difere um amor do outro é a maneira como você se ergue do chão, foge da chifrada e limpa a poeira. Foi por causa do amor que ele se calou e assim permaneceu. Não houve nenhuma explicação, mas creio que sentirá a lacuna da ausência diária. O amor faz falta, mas ele também faz calar. Eu ganhei o silêncio de presente de despedida, porque, assim como a dedicatória, silêncio não se pede, muito menos se contesta.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Perdida-da-silva-sauro

Ridiculous Thoughts - The Cranberries. Clique e ouça.

Dos quereres daqueles que (re)apareceram na minha vida em tão curto tempo: um me quer para demarcar o território de predador, o outro me quer para elevar a auto-estima arruinada, aquele me quer para matar uma carência esporádica e, por último, um me quer para reerguer sua espontaneidade há muito adormecida. Quando, na realidade, ninguém me quer de fato. Ninguém quer a pessoa que está aqui dentro, o corpo que anseia por carinho, a mente que procura por exercício, o indivíduo que necessita de companhia, tornei-me descartável. São quereres egoístas os deles e, inclusive, os meus. Sim, chego a acreditar que estou perdida quanto aos meus próprios quereres pessoais e amorosos, logo eu, que estava me acostumando a tomar decisões certeiras, agora me sinto prostrada. Eu já não sei mais o que eu quero, pois eu acreditava que o que queria era o que ele queria. Mas quem disse que ser feliz é algo fácil de se conquistar?