Nêmesis
"La verdad es que yo no soy nada sin mi diablo..."




E agora ela vem assim, requebrando de mansinho em minha direção*, enquanto seus passos compridos de gazela faceira cessam na posição de lótus ascendente. Antes que seus olhos se perdessem fixos no teto, verga-se para trás e lança suas mãos em seu próprio contorno. Estremece o chão e continua intacta. Há quem pressinta o terremoto repartindo as paredes em rachaduras desiguais e injustas. Há quem queira investigar de onde vem o equilíbrio daquela mulher, quando, na realidade, deveria procurar abrigo imediato. Há quem peça para socorrer aquele corpo frágil com um abraço fraternal. Contudo, toda tentativa de contato é declinada. Todo esforço de consolo é ignorado. E agora ela fica assim, me quebrando de mansinho sem nenhuma precaução, enquanto minha casa perde os alicerces e desmorona ao seu redor. Tijolo por tijolo, tudo fica fora do lugar, menos a silhueta feminina que permanece incólume sob a luz azulada da lua crescente.
No te quiero sino porque te quiero
y de quererte a no quererte llego
y de esperarte cuando no te espero
pasa mi corazón del frío al fuego.
Te quiero sólo porque a ti te quiero,
te odio sin fin, y odiándote te ruego,
y la medida de mi amor viajero
es no verte y amarte como un ciego.
Tal vez consumirá la luz de Enero,
su rayo cruel, mi corazón entero,
robándome la llave del sosiego.
En esta historia sólo yo me muero
y moriré de amor porque te quiero,
porque te quiero, amor, a sangre y fuego.
Pablo Neruda
"Soneto LXVI" Cien sonetos de amor - Tarde (1959)
e Íncubo
Assim como o amor de verão, o de outono passa a cada três/quatro meses. Não fica nada por se fazer e não há nada que possa ser feito. Seu término é iminente. Deixa lacunas que se renovam a cada mudança de estação, e esperanças de que na próxima tudo seja diferente. Não foi feito para durar e, se fosse, perderia todo o significado de sua sazonalidade. Há de se conformar e aceitar o fato de que passou e ponto final. Lembre-se de que manter souvenir dessa época fará com que você se relembre da efemeridade do amor a cada instante de saudade, mas isso é um risco que vale a pena correr.
Acabo de chegar. Vim lhe apresentar uma possibilidade de compra única. Trouxe aqui comigo essa oportunidade irrecusável de amar sem ter que esperar e de poder encontrar nas palavras uma cumplicidade sem igual. É tarde, eu sei, mas vim assim que soube que precisavam dos meus produtos por essas bandas. Não me pergunte quem solicitou minha presença, basta saber que aqui estou ao seu dispor. Escondo em minhas mangas alguns truques batidos, mas não sou mágico, muito menos palhaço. Cheguei agora e posso aguardar algum tempo até que você se decida. Não se esqueça de que eu ainda tenho muitos locais para visitar e meu regresso é iminente. Mesmo assim, eu espero por você. Só não me confunda com o Cupido, meus serviços custam um certo preço, podemos negociar a forma de pagamento, mas eu não vendo fiado.
Mas pra quê?
Pra quê tanto céu?
Pra quê tanto mar? Pra quê?
De que serve esta onda que quebra?
E o vento da tarde? De que serve a tarde?
Inútil paisagem.
Pode ser que não venhas mais.
Que não venhas nunca mais...
De que servem as flores
que nascem pelos caminhos?
Se meu caminho sozinho é nada...
Letra daqui.