Tão, tão fraca
Embora eu não lembre muito bem, sim, deve ter havido uma vez, sinto uma vaga lembrança chegando. Um único instante em que nos encontramos, claro que deve ter havido muitos outros momentos como esse, aqueles em que nos esbarramos na rua sem nem imaginar quem é o outro e sorrimos e nos desculpamos e seguimos em frente como se nada tivesse acontecido em nossas vidinhas tão, tão comuns. Todavia, deve ter havido um breve momento antes disso tudo, aquele em que nos encontrávamos tão vulneráveis, tão completamente abertos e receptivos para encontrar alguém.
E posso falar de nossa vulnerabilidade porque sei muito bem que você não me esperava em sua vida, mais ou menos como eu não poderia imaginar que você cairia de pára-quedas na minha. Nós não suspeitávamos do rumo que tudo poderia seguir e eu me lembro desse momento ignorante - santa ignorância - pois todo o tempo que tive sem você, eu lembro, eu consigo me lembrar, tudo antes de você aparecer é muito claro pra mim. Às vezes me pergunto como pudemos nos jogar assim em tudo aquilo que estava acontecendo sem precaução alguma, sem um backup, sem tecla Esc, sem hesitar nem um momento, sem nenhuma tentativa de resistir ao inevitável.
Não porque amar seja uma coisa terrível ou porque esperávamos ficar profundamente apaixonados a ponto de esquecer tudo e todos - Deus me livre! -, mas porque o amor é tão sem sentido e não esperávamos ficar marcados pro resto da vida. O resto, depois que pereci por ti, depois daquela primeira vez e logo após outras e muitas outras, o tempo conseguiu enterrar debaixo de várias camadas as lembranças e tudo começou a ficar confuso e nublado, tudo tão, tão difícil de recordar. Acredito que minha memória acabou se traumatizando, porque foi a primeira vez que a perdi e foi contigo. Por isso que hoje ela é assim tão, tão fraca. Medo de ser perdida novamente.



Sabemos que a energia que existe entre nós é impossível de ser racionada. Está além da nossa compreensão e jamais deve ficar retida. Sabemos que, antes de nós existirmos, não havia a pausa, a hesitação e, muito menos, a restrição de nossas vontades. Sabemos disso tudo, mas saber não é necessário para persistir. Evitamos tocar no assunto, pois não existem respostas para as nossas perguntas. Evitamos entrar em contato um com o outro, afinal, encontramo-nos nas entrelinhas das coincidências. Evitamos falar demais, uma vez que a fala não é necessária para prosseguir.













