segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Meu voyeur

Tu Voyeur - Jorge Drexler. Clique e ouça.

Se você me conta que quer ser meu voyeur, paro para imaginar o sabor que sua boca nunca descobrirá. Consigo sentir o percurso que suas mãos nunca farão em meu corpo, o cafuné carinhoso para me ninar em seus braços que nunca existirá e os beijos nervosos que você nunca me dará. Voyeurismo é, na minha opinião, um tipo de tortura apreciada somente por corajosos e destemidos. Encontrar o objeto de desejo e não poder - ou não querer - possuí-lo é um feito admirável. Há de se crer que o voyeur opta por não ter contato físico, pois seu prazer está em admirar e não tocar, quanta insensibilidade, eu diria. Se a vida é uma sucessão de trocas e colonizações, o que assenhoreia seu corpo e seus pensamentos é o elemento mais recente, ou seja, seu último dever, sua última conquista, sua última dor, seu último amor. Todavia, acredito que o voyeur sabe que sua pele retém todas essas sobreposições antigas e prefere não misturá-las comigo, pelo menos, não por enquanto. Tão logo você vive, tão logo você esquece as memórias que seu corpo guarda. E só lhe resta observar o dos outros e, em especial, o meu.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Ghost Dog

"In the Kamigata area they have a sort of tiered lunchbox they use for a single day when flower viewing. Upon returning, they throw them away, trampling them underfoot. The end is important in all things."

Em Ghost Dog: The Way of the Samurai de Jim Jarmusch (1999), a personagem Pearline lê o livro Hagakure de Yamamoto Tsunetomo que o protagonista (Forest Whitaker) lhe entregou antes de ser assassinado. O final é tão importante para uma boa história quanto o seu começo. Afinal, sem um princípio não há um fim. Não deixe suas histórias pela metade, aprenda a colocar um ponto final naquelas que precisam de um desfecho. Você só poderá começar o rascunho de uma nova história quando a anterior tiver sido finalizada. Mãos à obra.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Síndrome de Polvo

Fools Like Us - Echo & The Bunnymen. Clique e ouça.

- Diga-me alguma coisa que você jamais diria.
- Eu diria que eu não consigo mais te deixar, mesmo estando longe de ti. Imagina quando eu estiver no calor do teu abraço, ou debaixo das tuas cobertas, ou entre as tuas pernas?
- O problema não vai ser me deixar, o problema vai ser conseguir se soltar de todos os meus tentáculos. Eu pareço um ser humano, mas, na realidade, eu sou um polvo.
- Mal vejo a hora de te descobrir.
- E dentre todas as palavras inconfessáveis, o que você me diria?
- Eu diria que...
- Você diria que um dia pode acabar se apaixonando por mim?
- Eu diria que já estou apaixonado.

Além desse diálogo insone, ando tendo ótimas conversas noite afora.
Mais papos sobre Olás, sobre a escolha de nossa Direção, sobre nossa Conversa de Botas Batidas e sobre o Moulin Rouge, basta clicar e ler.

domingo, 23 de agosto de 2009

Sonho de Valsa

Valsinha - Chico Buarque. Clique e ouça.

Certa noite, eu não tinha mais palavras para escapar das perguntas inquisitivas dele e, enquanto buscava alguma saída entre a ardósia que cobria o pátio embriagado pelo luar, ele resolveu encostar em mim. Percebi um avanço sutil e discreto através de seu reflexo no chão recém encerado, afastei-me com um passo tímido para trás e, como em uma valsa, no exato instante em que me distanciei, ele se aproximou com um passo à frente. Hesitei em deixar sua mão quente tocar meu queixo congelado - talvez pelo choque térmico, talvez pela falta de respostas -, mas dentre todos os males daquela noite, o toque dele não seria o pior. Ele levantou meu rosto e meu olhar fugiu, procurando algum canto para se esconder.

Durante minutos intermináveis, nossos olhares custaram a se encontrar numa brincadeira de gato e rato sem fim. Entretanto, acabei paralisada por aquelas duas mãos e, em uma única sacudida, fui obrigada a encará-lo mais uma vez. A distância entre nós, finalmente, desapareceu. Logo, não havia mais minutos para contar, não havia mais frio para sentir, não havia sequer luar para iluminar. Ele já não sentia a ponta de seus dedos e eu não conseguia mais discernir em que ponto meu corpo terminava e o dele começava. Foi naquela noite que deixamos para trás o que pensávamos ser e revelamos quem nós realmente somos. E o dia amanheceu em paz.

Cicatrizes

"(...) Dói no fundo até que a cicatrização esteja completa. E, por fim, dói ainda depois, uma dor que bate na memória. E na minha porta haverá sempre alguém, um ser qualquer, que virá a perguntar como se fosse a coisa mais normal "como foi que você se feriu?", ao ver a minha bela cicatriz. A partir desse instante minha dor é - e será - então, revivida. A verdade ao ser contada para o questionador joga o problema para trás, enquanto a mentira acaba por jogar o problema para frente. É o que diz o ditado. Ou dizia. Está certo, devo contar. Mas como custa lembrar dos detalhes.

Já faz um tempo que não sei - e não consigo adivinhar - de onde vem a força ou como nasce a coragem para isso tudo. A ressaca é inconfundível, por mais coragem que se tenha, talvez faça-se necessária. O mar bravio e a tempestade voraz podem não te engolir ou te matar, mas o deixará em pedaços. E em cada pedacinho haverá uma cicatriz para se recordar. O anseio pela cura requer tempo. Requer, antes de mais nada, silêncio. Por isso, por favor, não me pergunte de onde veio essa cicatriz... (...)"

Daqui: Já Faz Um Tempo
* Imagem: I Can Read.

sábado, 22 de agosto de 2009

Monologue

Monologue - She Wants Revenge. Clique e ouça.
Kissing a strange hand, my city like street lamps fade
On the edge of an answer, you weigh lust beginnings are made
Lover, forgive me, my guilt is my only crime
And I'll carry it round, 'till it breaks me down every time

This is the time of night when the moonlight shines down
And we can reveal who we truly are,
Within the darkest most depraved of joys

If your afraid to say, but you'd like to try
Just give me the safe word and take your hand
And smack me in the mouth, my love

Letra daqui.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Pequeno aprendiz

Toxic - Mark Ronson ft. Ol' Dirty Bastard e Tiggers
(cover Britney Spears).
Clique e ouça.

Leia meus lábios. Você já me conhece há quanto tempo? Uns dois, talvez três meses, eu presumo. Já está na hora de você saber que existem palavras que possuem um significado duvidoso e que, muitas vezes, não podem ser encaixadas em qualquer frase. Muitas delas não têm sentido para algumas pessoas, mas hoje eu decidi apresentá-las por razões óbvias: eu preciso que você entenda certas coisas o mais rápido possível, pois não aguento mais esperar que você aprenda tudo sozinho. Vamos lá, você consegue me dizer quando você vai usar a palavra limítrofe numa viagem? Ou quando você vai chamar alguém de gamela na rua? Quiçá, quando você vai precisar de um trempe em casa? E quem é enxacoco, você pode ensiná-lo? E aquele boubento, você pode curá-lo? E o pobre proxeneta, um dia pode conquistar seu próprio amor? Vou dar o significado de todas essas palavras, menos o do amor. Para explicar o amor, você terá que parar de ler meus lábios e passar a beijá-los. Está entendendo?

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Cántame

Cántame - Mercedes Sosa e Franco de Vita. Clique e ouça.

Quando tu não puderes me encontrar e a insônia sequestrar teu sono indeciso, cante alguns versos para a noite. Sei que ela me entregará tua canção. És tão perfeito quanto tua voz que se perde em tua estranheza de tão única que é, em teu sotaque arrastado, em tuas pausas homéricas. Voz que vira brado numa estrofe agitada dos Ramones e, por vezes, transforma-se em oração quando murmura letras da Charlotte Gainsbourg. E mesmo longe de tua voz, posso imaginá-la intacta daqui, sem ruído algum, exatamente como nas lembranças de tuas ligações. "Canta que é no canto que eu vou chegar." Cante mais alto para eu saber que um dia tu vais chegar. Cante, pois ainda aguardo ansiosa um dia poder te escutar. Sei que tua música ressoa entre as estrelas, mas ainda não pude ouvi-la ao pé do ouvido. Creio que a Lua ficou com ciúmes quando soube para quem tu cantavas com tanto fervor e, infelizmente, decidiu ir embora, carregando a noite consigo. Eu, que fiquei na expectativa frustrada de te encontrar, espero um dia inteiro para que, enfim, a noite possa voltar. E nessa minha espera por ti, só me resta cantar.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

500, meu bem

Esse é o meu post número 500. Eu espero preencher o counter com 30 mil visitas até o final de Agosto e é nesse mês que o Crackpot Ideas completa quatro anos de vida. Eu poderia escrever um post bem bonito sobre minha infância ou algum post bem caliente. Talvez um que enumere as vezes em que eu chorei escrevendo post por aqui, mas seria muito triste para uma comemoração. Então, acho que seria divertido compartilhar os posts que eu escrevi rindo da situação descrita ou aqueles que são comentários deixados por mim em outros blogs. Posso falar sobre posts de amores impossíveis entre sertanejos ou vampiros, posso também mostrar os posts que foram depoimentos e os que foram súplicas. Teve post que eu falava comigo mesma e, em outros, eu simplesmente desejava me desfazer de tudo e todos.

Muitos foram pedidos de outras pessoas e outros foram feitos em conjunto. Já escrevi sobre dois tipos de vício: por bebidas alcóolicas e por um certo alguém. Também postei algo sobre meus medos e minhas convicções. Alguns posts eu pedi para esquecer, outros eu não sabia que nome dar, mas os melhores foram os que eu escrevi pra ele ou sobre ele e, em especial, pra ela. Alguns aconteceram de verdade, mas a maioria foi de mentirinha, (só não sei onde esse post de uma lembrança de vida passada se encaixa). Recapitular nunca faz mal e quando a saudade e a vontade de escrever bate, não faz mal deixar algumas linhas de presente por aqui, afinal, elas nunca serão em vão.
Parabéns a todos!

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Contagem

Espere, por favor, não conte. Deixe-me adivinhar. Vivemos nesse tempo doido repleto de quases que nunca se concluem, num frenesi por esquinas com os por poucos nos seguindo e num revirar de bolsos que transbordam de quem sabes leves como moedas. Nós fingimos que não sentimos o clima gelado tocar nossas peles e trazer à tona os talvezes, não ouvimos o silêncio chegando devagar e preparando um beijo, não enxergamos as luzes serem apagadas para a nossa fuga. A felicidade poderia ter gritado nosso nome milhares de vezes ao vento, mas estávamos ocupados demais roubando o mundo e matando gente. Certos segredos jamais ficarão escondidos para sempre, o pra sempre sempre acaba e até o bambuzal gritou para todos ouvirem que o rei Midas tinha orelhas de burro. Se nosso amor for tão fatal quanto nós mesmos, cabe à fatalidade dar um jeito nisso tudo. Só em ti eu faço sentido, só contigo eu espero encontrar um caminho, só tu podes contar as pintas em minhas costas. Nossos pecados são perdoáveis se forem por uma boa causa, ou não. Quem procura por absolvição, afinal? Se for para contar, conta direito, um por um. Para começar, conte as leis que infringiremos daqui pra frente só para ficarmos juntos. Se não puder, conte-me quem tu és e para onde vais me levar. Espere, por favor, não conte. Eu adivinho.

* Filme: "À bout de souffle" de Jean-Luc Godard

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Faltou isso aqui:

The First Taste - Fiona Apple. Clique e ouça.

- Eu vou embora.
- Não, não vai não.
- Então, eu posso dormir?
- Dorme, não. O mais gostoso de ficar contigo abraçado na cama é ver seus olhos abertos no escuro. Eles tentam enxergar o invisível e adivinhar o formato das sombras no teto. Gosto de observar esses seus cílios compridos quando estão imóveis, quando não estão varrendo seus pensamentos por detrás de suas órbitas. Posso até decifrar o que essas jaboticabas procuram pelos cantos do quarto.
- Pode nada. Não é você que vive parafraseando o Gilberto Gil na minha música favorita e diz que eu sou incompreensível?
- Você é. Suas jaboticabas, não.
- Vou ao banheiro, você me espera?
- Corre lá, vou segurar a respiração aqui enquanto você não volta. Lembre-se da Fiona Apple e da Eva com a maçã: o Paraíso não pode esperar por muito tempo, senão acaba estragando.
- Eu achava que tudo estragava com o tempo.
- Menos nós.
- Quanta pressão psicológica.
- Toma cuidado, vá pelas sombras.
- Certo, eu deixo você sentir saudade, mas não muita.
- Ok.
- Se sentir saudade, guarde-a para me contar como foi.
- Ok.
- Se não sentir, minta.
- Ok.
- Acho que perdi a vontade de ir ao banheiro.
- E eu quase morri de saudade. Faltou isso aqui, acredita?

Ah, esses diálogos tão meus e tão seus.
Mais papos sobre Olás, sobre a escolha de nossa Direção, sobre nossa Conversa de Botas Batidas e sobre o Moulin Rouge, basta clicar e ler.

domingo, 2 de agosto de 2009

Fusão

Closer - Nine Inch Nails. Clique e ouça.
Íncubo
Cada um em seu canto, decidem se encontrar. Afinal, ela era uma só e ele também. Com as mãos entre as grades, ela estava descalça e o esperava agarrada ao portão de casa como uma prisioneira que aguarda ansiosamente sua visita conjugal. Faz uma tarde quente, daquelas que vestir muita roupa é pecado. Ele chega. Eles se transformam em dois e mal se cumprimentam, caminham em direção à copa jogando conversa fora e ficam em silêncio, um tentando decifrar o outro ou ouvir a batida acelerada dos corações. Ele puxa uma cadeira e ela se senta sobre a mesa de madeira rústica. De um salto, o vestido curto
levanta sem querer, olhos atentos miram o que não deviam ver, mãos inquietas vão de encontro ao desejo latente.

É na mesa que o apetite está e é lá que deve ser saciado. É na mesa que se dá a fome das carnes e na mesa a refeição é feita. Ali na copa, urgem os sentidos e os dois se embriagam em suores e salivas. Seus lábios úmidos sussurram indecências, as mãos escorregam e se apóiam na superfície lisa. As unhas arranham e os dedos carimbam a pele, os pêlos se eriçam ao pressentir a voz do outro ao pé do ouvido, os corpos se contorcem num ritmo frenético que fica cada vez maior. Logo, aqueles que antes estavam solitários, um em cada canto da cidade e que há pouco se tornaram dois - a companhia que deixa de ser singular e passa a ser plural - agora se fundem em um.