Meu voyeur
Se você me conta que quer ser meu voyeur, paro para imaginar o sabor que sua boca nunca descobrirá. Consigo sentir o percurso que suas mãos nunca farão em meu corpo, o cafuné carinhoso para me ninar em seus braços que nunca existirá e os beijos nervosos que você nunca me dará. Voyeurismo é, na minha opinião, um tipo de tortura apreciada somente por corajosos e destemidos. Encontrar o objeto de desejo e não poder - ou não querer - possuí-lo é um feito admirável. Há de se crer que o voyeur opta por não ter contato físico, pois seu prazer está em admirar e não tocar, quanta insensibilidade, eu diria. Se a vida é uma sucessão de trocas e colonizações, o que assenhoreia seu corpo e seus pensamentos é o elemento mais recente, ou seja, seu último dever, sua última conquista, sua última dor, seu último amor. Todavia, acredito que o voyeur sabe que sua pele retém todas essas sobreposições antigas e prefere não misturá-las comigo, pelo menos, não por enquanto. Tão logo você vive, tão logo você esquece as memórias que seu corpo guarda. E só lhe resta observar o dos outros e, em especial, o meu.

















