Diga-me:
Diga que eu estou errada. Diga que eu tenho mais suspiros que a padaria da esquina. Diga que eu não sei o que eu digo, que eu sou jovem demais, boba demais, absurda demais. Diga que eu tenho um mundo pela frente, que eu mereço coisa melhor, que eu tenho que ser responsável. Diga que eu tenho que parar com essa visão romanceada da vida, que eu preciso de um rumo, que eu preciso pentear o cabelo. Diga que amanhã vai fazer sol, que hoje o dia foi longo e que ontem você queria ter dormido comigo. Diga que meu gosto musical é duvidoso, que eu me visto mal, que eu tenho erros de ortografia. Diga que eu não vou encontrar você nos meus livros, que nenhum casal dos filmes é real, que meu bolo murchou por falta de carinho. Diga que as flores são para outra mulher, que os bombons estão envenenados, que o urso de pelúcia é anti-alérgico. Diga que eu ando ansiosa demais, insegura demais, apressada demais. Diga que eu pirei na batatinha, que eu não falo coisa com coisa, que eu estou completamente louca. Diga que você não me quer, que eu sou feia, que eu sou burra, que eu tenho mau hálito. Mas, por favor, não me venha dizer que acabou, porque não teve tempo nem para começar.

A cada amanhecer, antes mesmo de abrir os olhos e encarar o dia que nasce através das persianas, ela desenha seu rosto pela primeira vez em sua imaginação. Vira-se de lado e se surpreende com a beleza da sua presença na cama. Com o rosto amassado - não tanto quanto os lençóis da cama - ele abraça o travesseiro e confessa que a fragância dela impregnou o apartamento. Ela brinca dizendo que não usa perfume, mas cheira a própria camiseta para ter certeza. A rotina é a mesma: 










Íncubo 


