terça-feira, 28 de julho de 2009

Diga-me:

Call Me Irresponsable - Frank Sinatra.Clique e ouça.

Diga que eu estou errada. Diga que eu tenho mais suspiros que a padaria da esquina. Diga que eu não sei o que eu digo, que eu sou jovem demais, boba demais, absurda demais. Diga que eu tenho um mundo pela frente, que eu mereço coisa melhor, que eu tenho que ser responsável. Diga que eu tenho que parar com essa visão romanceada da vida, que eu preciso de um rumo, que eu preciso pentear o cabelo. Diga que amanhã vai fazer sol, que hoje o dia foi longo e que ontem você queria ter dormido comigo. Diga que meu gosto musical é duvidoso, que eu me visto mal, que eu tenho erros de ortografia. Diga que eu não vou encontrar você nos meus livros, que nenhum casal dos filmes é real, que meu bolo murchou por falta de carinho. Diga que as flores são para outra mulher, que os bombons estão envenenados, que o urso de pelúcia é anti-alérgico. Diga que eu ando ansiosa demais, insegura demais, apressada demais. Diga que eu pirei na batatinha, que eu não falo coisa com coisa, que eu estou completamente louca. Diga que você não me quer, que eu sou feia, que eu sou burra, que eu tenho mau hálito. Mas, por favor, não me venha dizer que acabou, porque não teve tempo nem para começar.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Quando

When I Close My Eyes - Natacha Atlas.Clique e ouça.

Quando a chuva cai, mesmo que seja por poucos segundos antes, há de se sentir seu aroma, quiçá um vento característico de precipitação. Quando haverá uma explosão vulcânica, há de se sentir o chão tremer e de se admirar a fumaça produzida pelas labaredas loucas para se soltarem das profundezas. Quando a lua sobe, quando o sol desce, quando a maré muda, quando o outono chega, para tudo isso há de se prever, há de se sentir, há de se esperar, pois a natureza soube manter seus planos, suas idéias, suas formas e seus valores, por mais corrompida que tenha sido pelo homem.

Quando digo que te espero ou que te quero, tu não podes confiar na organização e na responsabilidade sistemática da natureza. Ora, pois pessoas não seguem direções únicas ou princípios e ideologias práticas. Talvez me faça de vítima por não acreditar que seja possível ser tão inconstante a ponto de não confiar na própria decisão - ou na própria sombra, alguns dizem. Bate-se de súbito aquela vontade inesperada e tão natural de inquietude e formigamento dos músculos. Um chamado de longe, um desejo contido.

Quando há de se apaixonar sem se saber o porquê, não tem como adivinhar, não está no noticiário das oito, não é nada previsível. Acontece de repente, como uma situação trivial como espirrar ou dar risada de um tombo na rua - talvez a sensação seja a mesma. De repente o lado pessoal é ultrapassado pelas forças internas do ser humano, não há natureza que segure, não há ciência que preveja, não há barreira que impeça de acontecer quando tudo acontece de repente, não mais que de repente.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Mais ou Menos

More And More Of Your Amour - Nat King Cole ft. Bitter-Sweet.
Clique e ouça.

Pensei agora nessa busca desenfreada pelo Mais. Porque o Mais virou a palavra do século XXI, afinal. Quando será que as pessoas mergulharam nesse objetivo frenético? Esse desejo ávido de ter Mais bens, Mais férias, Mais tempo. Se você tem dinheiro, você quer Mais. Se você tem amigos, você quer Mais. Se você tem carinho, você quer Mais. Não há satisfação em nada, ninguém está satisfeito com o que tem. Você conhece alguém e logo quer sair Mais com a pessoa. Você fica e quer ficar Mais vezes. Você namora e quer Mais que namorinho de portão. Você noiva e quer Mais que um anel brilhante, você casa e quer Mais o quê? Mais amor, meu bem. Você começa a procurar o Mais no seu dia-a-dia e arruína seus planos, porque nem sempre o Mais se concretiza e logo a frustração toma conta. Ninguém acredita nisso, mas a beleza da vida está no equilíbrio, naquela balança do ying e yang, nas perdas e nos ganhos. Não há necessidade em querer um Mais em cada coisa boa, basta colocar um Menos nas coisas ruins.

domingo, 19 de julho de 2009

Iracema

Incertos todos e mudos escutam:
- Andira, o velho Andira, bebeu mais sangue na guerra do que já beberam cauim nas festas de Tupã, todos quantos guerreiros alumia agora a luz de seus olhos. Ele viu mais combates em sua vida do que luas despiram a fronte. Quanto crânio de potiguara escalpelou sua mão implacável antes que o tempo lhe arrancasse o primeiro cabelo? E o velho Andira nunca temeu que o inimigo pisasse a terra de seus pais, mas alegrava-se quando ele vinha e sentia com o faro da guerra a juventude renascer no corpo decrépito, como a árvore seca renasce com o sopro do inverno. A nação tabajara é prudente. Ela deve encostar o tacape da luta para tanger o membi da festa. Celebra, Irapuã, a vinda dos emboabas e deixa que cheguem todos aos nossos campos. Então Andira te promete o banquete da vitória.

Trecho de "Iracema" de José de Alencar

sábado, 18 de julho de 2009

Rotina

A cada amanhecer, antes mesmo de abrir os olhos e encarar o dia que nasce através das persianas, ela desenha seu rosto pela primeira vez em sua imaginação. Vira-se de lado e se surpreende com a beleza da sua presença na cama. Com o rosto amassado - não tanto quanto os lençóis da cama - ele abraça o travesseiro e confessa que a fragância dela impregnou o apartamento. Ela brinca dizendo que não usa perfume, mas cheira a própria camiseta para ter certeza. A rotina é a mesma: carinhos, banhos, roupas. Ele faz o café e entrega a caneca na mão dela com um beijo na testa. Ela lê o fundo da caixa de cereais, ele mexe no jornal e espirra. Ela abre o notebook, ele vai buscar o smartphone. Ela o observa escrever, ele finge que está escrevendo algo importante. Ela faz cara de quem quer colo, ele oferece colo sem que ela peça. Logo, voltam para a cama e brigam para ler o mesmo livro. Decidem lê-lo juntos e ao mesmo tempo, um em cima do outro. Mas de repente, travesseiros nus e corpos macios ou vice e versa. Ela sussurra e diz que quer mais, ele pensou que ela não pediria nunca. Ela suspira, ele sorri. Ambos concordam.

"Morning After"
* Pintura: Alyssa Monks.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Essa só poderia ser sobre você:

Sobre você - Cássio Carvalho. Clique e ouça.

Eu quero escrever sobre você. Sobre o que você faz da vida, sobre como você volta para casa todo dia depois do trabalho e da correria, sobre quanto de altura você tem ao tirar os sapatos. Quero escrever sobre o modo como você come, como pega nos talheres, como manuseia um maçarico. Eu quero escrever sobre as vezes em que você teve insônia e ficou conversando comigo por horas, ou das vezes que você me ignorou por completo e foi fazer sei lá o quê. Quero escrever sobre a sua ducha demorada, sobre seu vício por internet, sobre como você olha para as estrelas e não sabe explicar muito bem o porquê, mas se sente em casa. Eu quero escrever sobre o fato de você não gostar de dirigir, ou sobre você ter perdido um balde em oferenda a Iemanjá, ou sobre como você fica enrubescido ao tomar whisky, quiçá sobre como você vai aprender a chupar um umbu. Quero escrever sobre você mesmo sem te conhecer direito, mesmo sem ler seus pensamentos, mesmo sem tocar seus lábios para saber se você existe ou não. Gostaria de escrever, dentre todas as palavras que compõem o meu vocabulário, sobre quem você é, todavia me fogem as letras para redigir esse texto. Não consigo escrever sobre você, pois essa eloquência que sinto não é minha, ela é toda sua.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Teus olhos

Ojos Malignos - Marina de la Riva. Clique e ouça.

Somente teus olhos conseguem expressar mais sensações que todos os outros que eu já conheci. Suas órbitas tão redondas e únicas, com as veias tão finas, quase hipnotizantes. Essa tua cor que não tem nome e que muda a cada estação do ano. E a forma como tu olhas? Um olhar longo, pausado, sisudo. Teu olhar se assemelha ao teu modo de escrever, tão simples, conciso, impactante. Teu olhos quando miras o horizonte são impossíveis de seguir, já teus olhos quando sorris chamam a atenção de qualquer um, todavia teus olhos quando choras são indescritíveis. Muitas vezes, encontro uma altivez no modo blasé em que tu desdenhas o olhar alheio e não acredito que me apaixonei por teus olhos. Outras vezes, encontro uma ternura em teu olhar ao ver uma criança de rua e me pergunto o porquê de não ter me apaixonado antes. Só não entendo quando teus olhos pousam em mim e eu resolvo encará-los: por que eles fogem para o chão?

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Falta de companhia

Your Heart Is An Empty Room - Death Cab For Cutie.
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É como a maré acelerada que vai e vem, que preenche e esvazia quase no mesmo instante. Uma redundância de sentimentos, uma incoerência de vontades e uma necessidade quase imperceptível de solidão. Logo eu, que adoro dar nomes às coisas, não acho palavras para expressar essa minha falta de companhia. Há de se domesticar esse sentimento e não ignorá-lo como o fazem. Se não o fizer, ele irá inundar minha casa, vasculhar minhas gavetas, beber das minhas garrafas e virar minha vida ao avesso, tudo para encontrar o seu canto. Ela não irá embora até que eu a coloque frente a frente e a trate com o devido respeito. Hei de colocá-la no colo como uma mãe faz com sua cria, niná-la com alguma cantiga esquecida, ouvir seus gritos de fome e oferecer-lhe meu seio como alimento de seu silêncio. Preciso ludibriar essa criatura só minha e amansar seu corpo, fazendo com que ela crie uma confiança em minhas delicadezas e palavras de carinho, hei de acarinhá-la e trazê-la para junto do peito e, como uma loba faminta, hei de devorá-la. Pois que para me tornar completa novamente, hei de engolir essa falta.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Typography

Typography is everything.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Botão proibido

Man Must Dance - Johnossi. Clique e ouça.

Sinto-me parada em frente a um painel grande e metálico repleto de botões coloridos e de tamanhos variados. Todos eles piscando e tentando me chamar a atenção de algum modo, mas cada um do seu jeito e a seu tempo. Eles fazem barulhos agudos e procuram alguma forma de me alertar, mas eu não consigo tirar os meus olhos do botão que fica escondido no canto esquerdo. Vira e mexe e eu preciso olhar para aquele incógnito botão pequeno e vermelho, tão apagado e quieto que tem uma proteção em cima para que ninguém possa sequer relar nele. De todos esse botões que me trazem cor, sons e novidade a cada minuto, somente esse redondo botão é capaz de acionar alguma coisa nesse meu painel. E de todos os botões que eu poderia apertar quantas vezes eu quisesse, esse é o único que eu gostaria de encostar meu dedo mais uma vez, só para saber o que poderia acontecer se eu por um acaso violasse o aviso de Não Aperte.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Onde mora teu nome?

Eyes Open (You Remember My Name) - Jason Mraz. Clique e ouça.

Fui procurar um amigo e me deparei com o teu nome sem querer. Logo teu nome, aquele que é um dos poucos que conseguem trazer um eco no meio da minha garganta e me fazer mergulhar no abismo de mim mesma. Teu nome que quase sempre é seguido de reticências e um silêncio longo. Tão seu esse nome que provoca terremotos em mim mesma, que abre meu chão, que incita maremotos no lugar em que meu barco ancorou. Teu nome consegue me sufocar com suas letras, soterra minhas palavras, enche meus pensamentos de vontades contidas, mas também me preenche de saudade, de adeus, de um nunca mais doído. Só teu nome consegue fazer e acontecer assim na minha vida, somente ele consegue, em um piscar de olhos, trazer-me a tormenta e a calmaria. Pois que ao vislumbrar teu nome, eu quis sumir com essa lembrança e, como não consigo te tirar de dentro de mim, espero pelo menos poder apagar teu nome da agenda do meu celular, porque na minha boca teu nome não mora mais.

sábado, 4 de julho de 2009

De sete em sete

Pode ter certeza que os sete ventos não revelarão nenhum milagre na atmosfera terrestre e não conseguirão mover moinhos. Os sete mares não trarão profecias em espelhos d'água e não derreterão mistérios congelados em geleiras subaquáticas. Não adianta mais rodar as sete léguas, pois estas não trarão mais respostas às minhas perguntas e não existirão mais estradas que me levem a algum lugar. As sete pragas do Egito há muito tempo estão adormecidas e não haverão de acordar para causar tempestades de areia em minha vida. Muito menos os sete pecados capitais conseguirão incitar mais caos ao nosso mundo atual e não trarão juízo para os seres humanos. Já procurei nos sete cantos uma saída para essa minha aflição e não encontrei nada que possa me acalmar e resolver o meu problema. Confesso que não foi fácil encarar essa minha busca de sete em sete por tantos lugares e no final descobrir que somente ao tirar os sete véus é que eu conseguirei uma dia, quem sabe, te conquistar.

* Imagem tirada daqui.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Te ganhar ou perder sem engano:

Eu Preciso Dizer Que Eu Te Amo - Cazuza. Clique e ouça.

Escolhíamos nosso papo de uma maneira esquisita: fechando e abrindo a geladeira a noite inteira. E nos apertávamos na cama estreita e passávamos a noite tentando tomar iogurte sem as mãos e limpar o potinho com a língua. Íamos das risadas ao amor e passávamos a vez para as cócegas, então voltávamos para o cafuné e, logo em seguida, para a discussão acerca da arte contemporânea em declínio ou se amanhã iria chover pétalas de rosa. Hoje em dia, quando o sono me falta e a insônia faz companhia ao silêncio, eu me levanto e na ponta dos pés abro vagarosamente a geladeira. Como se isso fosse me fazer pensar melhor. Como se pudesse enxergar nos ovos as minhas crias, nos potes de geléia fechados eu encontraria minhas doces palavras para serem espalhadas por uma faca sem serra e no fundo das latinhas de cerveja encontraria talvez o meu consolo. Essa ânsia de me procurar ali dentro entre os frios e as verduras, em meio àquela luz opaca, sem vida, sem destino, sem nada. Como se tarde da noite eu fosse abrir a geladeira e me deparar com algum resquício solitário seu. Como se eu pudesse encontrar você por lá, talvez atrás do leite desnatado na primeira prateleira do canto direito, e poder finalmente dizer que eu te amo tanto.

Concorda comigo?

In a Manner of Speaking - Nouvelle Vague. Clique e ouça.

Ele me disse que a vida é curta demais para acordar de manhã com a cabeça cheia de arrependimentos e eu concordei. Disse-me para esquecer as pessoas que não me tratam bem e somente amar aqueles que se importam comigo e eu concordei. Contou-me que tudo nesse mundo acontece por uma razão, que as pessoas passam em nossas vidas para causar impactos bons ou ruins e eu balancei a cabeça afirmativamente. Fez-me prometer que se eu tivesse uma chance mínima qualquer, eu a agarraria com os dentes e se alguma situação surgisse com o intuito de mudar a minha vida, para que eu me permita aceitar esses desafios e eu continuei concordando com seus conselhos. No final de nossa conversa, ele enfatizou com um largo sorriso que nada disso seria fácil, mas que ele podia me jurar que tudo valeria a pena. Só que daqui para frente eu teria que deixar de amá-lo e seguir meu caminho. A partir daí eu comecei a discordar...