Miragem de vapor
Eu deixava a televisão ligada para me fazer companhia quando você não estava por perto, mesmo tirando o volume, acho que o movimento e as cores davam essa sensação de aconchego. Um livro jazia em meu colo e eu ajeitava os travesseiros atrás das costas para me apoiar na cabeceira da cama. Quando me dei conta do cheiro masculino característico que me tomava as narinas e impregnava o quarto inteiro, já era tarde demais. Você estava saindo do banheiro ainda molhado - como eu queria ser aquelas gotas que escorriam e desciam entre seus músculos e pêlos - com uma toalha branca curta enrolada na cintura. Eu devo ter ficado alguns minutos te observando com a boca aberta, porque juro que fiquei sem saliva e, é claro, sem ar. Os óculos pendiam da ponta do nariz e arriscavam cair, levantei a armação até a testa para segurar a franja e coloquei o livro na mesinha ao lado da cama. Desliguei a televisão, deixei os travesseiros caírem e caminhei em sua direção, precisava tocar aquele corpo novamente. Todavia, você desapareceu como miragem que nunca pode ser alcançada, mas o cheiro de vapor da ducha quente ficou no ar a noite inteira me relembrando bons momentos que tivemos juntos naquele box. Por isso eu digo com todas as palavras: não tenha pressa, sinta vontade de ficar por aqui o tempo que quiser.

Volta pra mim? Sei lá como conjuga ou o que significa o verbo voltar, voltei, voltaram. Seguir por onde não se sabe mais ou por onde eu não quero mais enxergar. Dizer o que ninguém ousa mais repetir ou algo que eu não quero mais ouvir. Sentir o que não se pode mais representar ou eu que não quero mais experimentar. Passou-se mar, deserto, florestas, oásis e desfiladeiros. Passou por minha família, meus amigos, meus queridos e chegou até mim, finalmente. Atravessou com ímpeto minha pele, retesou meus músculos, rasgou meus órgãos e mergulhou em minha corrente sanguínea. Atingiu em cheio meu corpo, controlou meus pensamentos, extasiou o espírito, arrepiou os pêlos, deixou os cabelos brancos e trouxe rugas aos contornos. Volta completa e não deixou mais nada. Vamos, siga-me, confia em mim. Por ali, vamos lá. Rua abaixo, para um beco sem saída, aproveite enquanto é tempo ou então, dê meia volta, volte a ser assim como tu és, eu te desafio. Continua, não pára. Vem, mais perto. Vai embora então. E ele se foi. Se tem volta? Sei não.
Chegava na porta do Cassino e exibia seu vestido de gala mais bonito. Sentava de lado com uma postura impecável e observava todos aqueles números como quem decodifica um sodoku. Depois de algum tempo, deixava a indecisão de lado - juntamente com sua tentativa de expressão blasé - e apostava todas suas fichas em um único número. Seu sangue fervia e lhe corava a face, sua respiração ficava ofegante e fazia o busto saltar de seu decote e a saliva secava em sua boca trêmula. Será que dessa vez ela sairia milionária dali? Nada, como sempre. Tudo vai embora com a banca: sonhos, desejos, vontades. Estamos sempre apostando nossas fichas e criando expectativas, mas no final, a banca sempre ganha. Logo, saímos desiludidos e fracassados, sem fé em nada nem ninguém, sem forças para sequer pensar em apostar novamente. Voltamos pra casa sem esperança, juntando alguns trocados e criando coragem para que um dia, quem sabe, possamos voltar a apostar no número escolhido da vez. Eu aposto sempre no número 
Eu te conheci despretensiosamente e logo quis fazer poesia contigo e para ti. Queria te abraçar e encher a boca para dizer que tu poderias ser todas as mulheres que quiseres e que não precisavas ser tão voraz e decisiva, pois tua sutileza era mais bela que qualquer atitude que tu pudesse ter. Queria te dar nomes vários, apelidos, pseudônimos e até hoje não sei muito bem como te chamar quando bate aquela vontade. De todas que conheci, tu és uma das poucas que consegues ser inteira, mesmo com teu tamanho diminuto ou com teu sotaque arrastado que mais parece cantoria. E teu nome é tão incógnito quanto a dona, tão único e peculiar. Não rimarei teu nome, não falarei de teu corpo, não colocarei fotos tuas aqui. Márgara, nome dado para que tu saibas de tua complexidade e para que tu possas ficar satisfeita, pois que de todas as mulheres, tudo o que tu quiseres imaginar, tu podes ser. Podes ser duas de tuas mulheres hoje e mais oito amanhã, ou podes dividir tuas emoções e subtrair teus pesares. Só não quero que esqueças de que tu podes, boboneca.












