terça-feira, 30 de junho de 2009

Miragem de vapor

Sinta Vontade de Ficar - Canto dos Malditos na Terra do Nunca. Clique e ouça.

Eu deixava a televisão ligada para me fazer companhia quando você não estava por perto, mesmo tirando o volume, acho que o movimento e as cores davam essa sensação de aconchego. Um livro jazia em meu colo e eu ajeitava os travesseiros atrás das costas para me apoiar na cabeceira da cama. Quando me dei conta do cheiro masculino característico que me tomava as narinas e impregnava o quarto inteiro, já era tarde demais. Você estava saindo do banheiro ainda molhado - como eu queria ser aquelas gotas que escorriam e desciam entre seus músculos e pêlos - com uma toalha branca curta enrolada na cintura. Eu devo ter ficado alguns minutos te observando com a boca aberta, porque juro que fiquei sem saliva e, é claro, sem ar. Os óculos pendiam da ponta do nariz e arriscavam cair, levantei a armação até a testa para segurar a franja e coloquei o livro na mesinha ao lado da cama. Desliguei a televisão, deixei os travesseiros caírem e caminhei em sua direção, precisava tocar aquele corpo novamente. Todavia, você desapareceu como miragem que nunca pode ser alcançada, mas o cheiro de vapor da ducha quente ficou no ar a noite inteira me relembrando bons momentos que tivemos juntos naquele box. Por isso eu digo com todas as palavras: não tenha pressa, sinta vontade de ficar por aqui o tempo que quiser.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Peles, mares e saudades

Chega de Saudade - João Gilberto. Clique e ouça.

Ele me apontou a distância até o oceano e me contou uma anedota sobre como essa distância é menor que o calor crescente entre nossas peles e eu fingi que não entendi, porque me disseram que mulher tem que parecer vulnerável. Ele não soube continuar a conversa, então eu lhe dei uma ajuda dizendo que esse limite tão único e tão nosso, que delimitava o começo de minha pele de encontro à pele dele, era nada mais que química de nossos corpos. Ele me encarou com estranheza, mas disfarçou sua admiração, pegou minha mão e me mostrou suas cicatrizes. Aquela aos nove anos com um anzol naquela mesma enseada, aquela outra aos onze por tentar andar de bicicleta na areia e aquela mais acima que eu não me lembro qual foi a travessura de veraneio. Não me recordo, mas respeito cada uma de suas marcas, suas recordações, suas histórias. Prometo prestar mais atenção próxima vez, se houver mais um encontro de verão como aquele, claro. Torço para que sim e, apesar da praia estar tão distante de mim quanto nossas peles, hoje vou encostar a cabeça no travesseiro e dormir com o cheiro do mar nos cabelos molhados.

domingo, 28 de junho de 2009

Vanessa da Mata

Vem - Vanessa da Mata. Clique e ouça.
Vem
Que eu sei que você tem vontade
Que eu sei que você tem saudade de mim
Antes que haja enfermidade
Que eu não me recupere

Mas
Se decidir fazer surpresa
Deixei as chaves embaixo do xaxim
Comprei os doces que devora
Acho que agora não vai resistir

Um espelho pra sua vaidade
Dossel, pena de ganso
É quase um romance
Desligue nossos celulares
Três dias pra um começo, vem.

sábado, 27 de junho de 2009

Volta e meia

Volta pra mim? Sei lá como conjuga ou o que significa o verbo voltar, voltei, voltaram. Seguir por onde não se sabe mais ou por onde eu não quero mais enxergar. Dizer o que ninguém ousa mais repetir ou algo que eu não quero mais ouvir. Sentir o que não se pode mais representar ou eu que não quero mais experimentar. Passou-se mar, deserto, florestas, oásis e desfiladeiros. Passou por minha família, meus amigos, meus queridos e chegou até mim, finalmente. Atravessou com ímpeto minha pele, retesou meus músculos, rasgou meus órgãos e mergulhou em minha corrente sanguínea. Atingiu em cheio meu corpo, controlou meus pensamentos, extasiou o espírito, arrepiou os pêlos, deixou os cabelos brancos e trouxe rugas aos contornos. Volta completa e não deixou mais nada. Vamos, siga-me, confia em mim. Por ali, vamos lá. Rua abaixo, para um beco sem saída, aproveite enquanto é tempo ou então, dê meia volta, volte a ser assim como tu és, eu te desafio. Continua, não pára. Vem, mais perto. Vai embora então. E ele se foi. Se tem volta? Sei não.

* Fotografia: Francesca Woodman

sábado, 20 de junho de 2009

Prophet 60091

2 Wicky - Hooverphonic. Clique e ouça.

Estamos em um bar retrô daqueles que não possuem luzes diretas e o clima é de alcohol and cigarettes, além do neon de cores berrantes. Mesinhas com casais se conhecendo, se entretendo, se tocando. Enquanto isso, ele admira seu cigarro queimando devagar entre seus dedos e brinca com as formas que a fumaça expirada cria no ar carregado. Ao observar o palco, percebe a presença de uma mulher encantadora de vestido apertado e batom vermelho. Ela canta algum blues antigo,
fazendo caras e bocas. Do palco, ela imagina quem será aquele sujeito sozinho na mesa de centro, sem companhia e sem vontade alguma de arrumar uma mulher-de-uma-noite-só. Apesar do interesse mútuo, logo após o show, ela se encaminha ao bar e decide se afundar em um copo de vodka e ele pede mais uma dose de whisky. Afinal, uma taça de vinho não diz que vai ligar e não liga, ou uma dose de tequila não te troca pelo ex. Um litro de licor não diz que é muito jovem para se envolver e uma cerveja não pede um tempo para pensar no que quer. Sim, faço uma apologia direta à bebida alcóolica, não porque não encontro outra saída racional e concreta, mas porque essa saída é absurdamente deliciosa.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Memórias de uma vida passada:

Baby, I'm a Fool - Melody Gardot. Clique e ouça.

Eu fingia que dormia de bruços com os braços embaixo do travesseiro e com o cabelo negro jogado de lado. Sob a cama ainda quente de nossos corpos, somente um lençol branco cobria parte de meu corpo, o resto estava à mostra. Ele havia levantado. Eu o vi vestir a camisa de estampa hawaiana ridícula, mas reparei que ele não a abotoou. Talvez por calor, afinal já era meio dia, talvez por esperança de voltar para debaixo de meu lençol. Vestiu a calça, puxou uma cadeira e a posicionou de frente para a cama e de costas para a janela.

Antes de se sentar, abriu a persiana e raios dourados de sol e perfume de girassóis transbordaram o quarto com sombras assanhadas. Resmunguei, mas ao invés de mudar de lado e ficar de encontro à parede, virei de barriga pra cima. Abri lentamente os olhos e os protegi com as costas da mão, procurando sua silhueta no contraste escuro entre a luz da janela e a quina da cama. Sentado a seu modo na cadeira, ele acendeu um cigarro e em sua outra mão estava a única taça de vinho que eu pude servir na noite passada. Ainda com a marca de batom, minha taça ainda estava pela metade. Fixei meus olhos apertados naquele contorno, mas somente a fumaça do cigarro esboçava algum movimento, ele estava hipnotizado.

Puxei o lençol amarrotado e o enrolei em meu corpo, peguei um lápis na cômoda e fiz um coque no cabelo. Ele não tirava os olhos de mim. Levantei-me e caminhei em sua direção, sentei em seu colo, tirei o cigarro de seus dedos e dei uma tragada, depois tirei a taça de sua mão e dei um gole. Em seguida, segurei seu rosto com as duas mãos e dei um beijo demorado de olhos bem fechados. Coloquei-me de pé, andei até a porta do banheiro sabendo que seus olhos me acompanhavam e antes de entrar, deixei o lençol finalmente cair.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Cuida de mim

Liquid Lava Love - Kevin Michael. Clique e ouça.

Eu tenho algo pra te dar. Algo que junto a ti deixa de ser meu. Esse pedaço de mim soltou-se do meu aconchego e decidiu que quer viver contigo a partir de agora. O que é que tens aí em teu corpo que cativa tanto esse meu eu? Como admiro essa parte corajosa minha que quer escapulir de dentro de mim e deixá-la pra ti como se deixa uma oferenda, talvez um sacrifício. Um jeito só meu de dizer que assim como a amo, amo-te também. Então, toma aqui, fica com essa peça de quebra-cabeça minha que agora é tua. Cuida dela, porque ela deixa de ser minha e passa a ser tua. Cuida de mim que sou tão minha e que, sendo somente minha é que pude um dia ser tua. E, por já termos sido um só, cuida do teu corpo, porque este seu já foi meu.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Página 22

Ainda não sei se sou eu que vejo poesia nas mínimas coisas ou se é a própria que me persegue onde quer que eu esteja. Pois estava eu mexendo numa cômoda antiga, revendo cartas, encontrando textos e declarações absurdas quando um livro há muito tempo esquecido resolve reaparecer. "Contos" do Machado de Assis caiu num baque surdo no chão do quarto e levantou uma onda de poeira. Ao tirá-lo cuidadosamente do chão, uma folha amarelada se soltou e oscilou no ar até repousar em meus pés. Resolvi transcrever o trecho que a página 22 do conto "Almas Agradecidas" queria tanto me contar:
"Prepara o teu coração para receber o golpe que já me feriu e que por muito que ele te faça sofrer, não sofrerás mais do que eu já sofri. (...) Descobri, meu querido amigo, que Cecília me ama! Não imaginas como me fulminou esta notícia. Que ela não te amasse, como ambos desejávamos, já era doloroso, mas que se lembrasse de consagrar os seus afetos ao último homem que ousaria opor-se ao seu coração, é uma ironia da fatalidade.

Não te contarei meu procedimento, facilmente o adivinharás. Prometi não voltar lá mais. Queria ir eu mesmo comunicar-te isto, mas não ouso contemplar a tua dor, nem quero dar o espetáculo da minha. Adeus, Oliveira. Se a fatalidade ainda consentir que nos vejamos, até um dia, se não... adeus!"
O mais tocante é ver a dor do amigo superar a dor do apaixonado. Oliveira vai ao encontro de Magalhães, seu melhor amigo, ao invés de se encontrar com Cecília, a mulher prometida que não o amava o suficiente e que havia se declarado a outra pessoa. Profundo demais.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Quando a roleta parar:

Chegava na porta do Cassino e exibia seu vestido de gala mais bonito. Sentava de lado com uma postura impecável e observava todos aqueles números como quem decodifica um sodoku. Depois de algum tempo, deixava a indecisão de lado - juntamente com sua tentativa de expressão blasé - e apostava todas suas fichas em um único número. Seu sangue fervia e lhe corava a face, sua respiração ficava ofegante e fazia o busto saltar de seu decote e a saliva secava em sua boca trêmula. Será que dessa vez ela sairia milionária dali? Nada, como sempre. Tudo vai embora com a banca: sonhos, desejos, vontades. Estamos sempre apostando nossas fichas e criando expectativas, mas no final, a banca sempre ganha. Logo, saímos desiludidos e fracassados, sem fé em nada nem ninguém, sem forças para sequer pensar em apostar novamente. Voltamos pra casa sem esperança, juntando alguns trocados e criando coragem para que um dia, quem sabe, possamos voltar a apostar no número escolhido da vez. Eu aposto sempre no número quarenta-e-três com todas as minhas fichas e espero a roleta parar. Um dia eu quebro a banca.

sábado, 13 de junho de 2009

Diálogos

- Então, o que você achou do Moulin Rouge?
- Não se fazem mais romances como antigamente, vês? Não existem mais amores proibidos ou pessoas que se amam e não podem ficar juntas, ninguém tem mais esses valores. Ninguém luta pelo amor, por aquilo que se quer, por aquilo em que se acredita. Cadê a boemia? Filhos da Revolução? Onde estão? Quando um obstáculo surge no meio do caminho o primeiro pensamento que vem à mente é de desistência, um passo na direção oposta. Parece que ninguém é bom o suficiente para que você corra atrás. Acho que para as outras pessoas é muito fácil encontrar alguém, explorar o que essa pessoa tem de melhor e depois jogar fora. Tudo muito descartável, sem graça, sem razão. Eu queria encontrar um amor desses que venha com um "haja o que houver, eu te amarei" na etiqueta. Afinal, não é isso que todo ser humano deseja? Um amor que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja inifinito enquanto dure.
- Vem cá, dançarinas de can can são bem gostosas, né?
- Menos as que possuem tuberculose.

Adoro esses papos tão únicos e tão nossos.
Mais diálogos esquisitos sobre nossos Olás, sobre a escolha de nossa Direção ou sobre nossa Conversa de Botas Batidas, basta clicar e ler.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Estrondo

Estrondo - 3 na Massa. Clique e ouça.
"Lembra de quando eu vim para cá, a primeira vez? Virei tua vida de cabeça para baixo e você bem mansinho, porque amor quente que nem o meu você nunca teve nessa vida, desse jeito não. É, então vem cá, vem sentir a minha pele em brasa e o gosto forte da minha boca. Faz tudo como se fosse a última vez, faz. Faz porque hoje eu vou embora..."

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Penúria

Íncubo
Sei que até as coisas que me fazem falta estão presentes em meu dia a dia. Como a terra entre suas raízes, quase areia granulada aluindo conchas, talvez tempestade naufragando navios. Tu vens e engoles teu fôlego sem dó, mergulhas em minha carne teus dedos, fazes com que eu não perca teu rosto de vista e não esqueça teu gosto selvagem em minha língua. Eu te entrego as chaves e recebo teu avesso na porta de casa com obediência pulsante, perco o controle com o corpo aberto à entrega, com os olhos que observam essa tua fome voraz de desejos e essa minha ânsia de gemidos, tudo parece perder o sentido, afinal. Teu buscar de sussurros, meu querer de suspiros e logo tu descobres meus infinitos e, principalmente, meus abismos. Aquela falta transformada em penúria e que antes habitava todos os cantos de mim mesma, é preenchida finalmente com saliva e suor.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Algumas certezas

Old Stone - Laura Marling. Clique e ouça.

Quero que me queira. Por tudo o que eu sou e por tudo que eu não posso ser, porque eu não posso ser tudo, mas o que eu sou já é o bastante para fazê-lo feliz. E felicidade está aí, nesses mínimos detalhes que você pode me trazer e me entregar. Ver uma pessoa, ver suas fotos, ouvir sua voz, sentir o seu cheiro e não poder ficar com ela é um martírio. Querer demais ficar junto, abraçar, beijar e simplesmente não poder? É como adorar uma imagem em gesso ou mármore, ajoelhar e pedir e orar e não poder tê-la pra si. Essa ânsia que aperta o peito, que deixa os pulmões sem ar, o estômago revirado, o coração miúdo. Dia após dia, você acorda com o pensamento fixo e dorme com os mesmos suspiros. Todavia, você sabe que vocês não nasceram para ficar juntos. Você sabe que não é para ser. E depois de tantos outros, você percebe que ele nunca é, eles nunca são e nós nunca seremos. Por isso, eu quero que você me queira. Quero aproveitar os poucos momentos e sentir, finalmente, que esse pouco que eu tenho em mãos é o suficiente, por ora.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Márgara, boboneca

Eu te conheci despretensiosamente e logo quis fazer poesia contigo e para ti. Queria te abraçar e encher a boca para dizer que tu poderias ser todas as mulheres que quiseres e que não precisavas ser tão voraz e decisiva, pois tua sutileza era mais bela que qualquer atitude que tu pudesse ter. Queria te dar nomes vários, apelidos, pseudônimos e até hoje não sei muito bem como te chamar quando bate aquela vontade. De todas que conheci, tu és uma das poucas que consegues ser inteira, mesmo com teu tamanho diminuto ou com teu sotaque arrastado que mais parece cantoria. E teu nome é tão incógnito quanto a dona, tão único e peculiar. Não rimarei teu nome, não falarei de teu corpo, não colocarei fotos tuas aqui. Márgara, nome dado para que tu saibas de tua complexidade e para que tu possas ficar satisfeita, pois que de todas as mulheres, tudo o que tu quiseres imaginar, tu podes ser. Podes ser duas de tuas mulheres hoje e mais oito amanhã, ou podes dividir tuas emoções e subtrair teus pesares. Só não quero que esqueças de que tu podes, boboneca.

* Com carinho para Sadflower.

sábado, 6 de junho de 2009

Empacote (em pacotes)

Sem Cais - Caetano Veloso e Pedro Sá. Clique e ouça.

Procuro preencher algo que não existe mais com alguma coisa que me faça menos saudosa. Ali, entre caixas e prateleiras, manuseio coisas que me eram importantes e que agora já não são mais. O que me vem à lembrança não são dias, são momentos. E você estava em cada um deles, pelo menos os mais recentes e queridos. Contudo não importa, você não sai mais comigo e eu não procuro mais tocar a tinta fresca que cobre meu disfarce ou a maquiagem que disfarça meu rosto. Depois que você saiu, eu resolvi ligar para saber se estava tudo bem contigo. E te ligar ou guardar essas coisas que me lembram você é um risco que eu corro. Você se tornou meu risco, minha ânsia, meu porquê. E isso é algo que eu não posso mais aguentar. Não posso e não devo. Logo, deixo-te um bilhete carinhoso que diz algo como: eu te avisei que me apaixonaria, agora é hora de dar tchau.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Melhor assim.

Mil Pasos - Soha. Clique e ouça.

Eu acho que tudo começou quando você me perguntou o motivo de eu não o olhar nos olhos e eu desconversei, sorri e disse que o céu estava lindo naquela noite, com uma pintada de estrelas piscando, tudo para não ter que lhe explicar que olhar nos seus olhos era algo íntimo demais e que desse jeito eu ficava sem graça. Na real, eu não conseguia sequer levantar a cabeça. Ficava com os olhos fechados, revirados para dentro de mim, quieta a me perguntar o que acontecia comigo mesma. Hoje, mordo os próprios lábios para engolir as palavras e encurto os dedos para não digitar mais nada. Palavras assustam e eu ainda não aprendi a controlá-las. É com os mesmos olhos escondidos e lábios marcados que eu vou embora, pronunciando seu nome baixinho para não esquecê-lo, lembrando de suas últimas palavras de despedida e retendo seu gosto mais algum tempo em minha boca. E não será mais o meu destino ou as nossas longas conversas que vão contar os dias separados, mas as lembranças que não querem ser perdidas jamais. Logo, não haverá mais o tempo ou outras pessoas para nos afastar e sim a distância. Melhor assim.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Soul Sister

Blues For Mama - Nina Simone. Clique e ouça.

"When you love a man enough, you're bound to disagree. 'Cause ain't nobody perfect, 'cause ain't nobody free..."
Essa música é simplesmente incrível. Com uma gaita maravilhosa que já diz por si só, a voz indescritível da Nina Simone e a letra muito bem escrita faz desse blues um dos melhores que eu já ouvi. Ótima melodia para exemplificar a imagem abaixo que mostra uma mulher cantando, provavelmente a Billie Holiday em uma de suas várias apresentações.
Muito bom esse flickr de graffiti, stencil e colagens.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Linhas

Eu preciso escrever algumas linhas de saudade aqui. Imagina um universo inteiro sem nada, sem som, sem cheiro, sem cor. Agora imagina o inverso, tudo tumultuado, cheio, colorido, barulhento. Das duas uma: eu sinto a sua falta. Esteja meu pensamento vazio ou cheio. Esteja minha mente sobrecarregada ou tranquila, esteja de noite, esteja de dia. Seja abril ou setembro, carnaval ou festa junina. Não adianta brincar com o preto e branco ou uma aquarela colorida. Não te vejo, não te toco, não te sinto. Disse que só seriam algumas linhas e elas aqui estão. Se você ainda existe, fica aqui meu pedido para que apareças, se não, algumas linhas não serão em vão.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Juramento para o Outono

Você é o meu outono e eu te irritei. Preguei uma peça no outono e ele revidou com o frio mais gelado, a noite mais solitária e o vento mais uivante. Você não chegou como uma estação qualquer do ano que devagar vai se acomodando e me envolvendo com uma brisa leve que toca minha pele me fazendo aconchegar em seus longos dias. Você chegou com voraz determinação de revolucionar a temperatura, de me fazer tirar do armário as roupas mais quentes e de tomar mais e mais vinho para aquecer o quê eu não sei, talvez o coração. Juro não te chatear com pergunta alguma se vai chover ou fazer sol ou se suas folhas secas podem ser guardadas dentro de algum caderno meu, juro jurar, apesar de não acreditar em juramento. E quando você se for e uma próxima estação chegar, suas folhas cairão devagar dentro de meus sapatos na beirada da varanda e eu poetizarei o momento dizendo que agora o meu outono resolveu caminhar comigo ou então que o outono não quer mais me deixar. Sim, você é meu outono.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Para você que tem mania de perseguição:

O Mundo É Um Moinho - Cartola. Clique e ouça.

Sei como deve ser complicado, para não dizer frustrante, ler meus textos e não saber se foram escritos pra ti ou para outrem. Todavia, saibas que tenho escrito secretamente coisas muito interessantes sobre tua presença ou a falta dela. Este aqui mesmo é um texto feito pra ti, tem a tua medida exata, da cabeça aos pés. Se tu abres os braços, os verbos caminham entre a tua envergadura, de um dedo médio ao outro. Esticas teus ossos para se espreguiçar na cadeira e minhas palavras te fazem cócegas em cada músculo retesado, escorregam pelas costas, fogem de tuas curvas, descem perna abaixo e repousam no chão pintado. Agachas para amarrar o tênis de duas cores e deixas meus acentos e vírgulas se perderem de dentro de teus bolsos. Sorris sem graça sobre algum assunto bizarro e deixas letras entre os dentes lhe pintarem o sorriso. E quando vais dormir - minha hora favorita do dia - frases sem sentido aquecem teu corpo exausto e, mesmo que tu não saibas desse detalhe sórdido, esse alfabeto aqui é teu, eu só fiz recolher tudo o que caía enquanto tu passavas por mim, pois esse texto todo é teu, já disse, tenho logo que te entregar.