domingo, 31 de maio de 2009

Solibar - Bar da Solidão

Solibar - Alceu Valença. Clique e ouça.

São 30 copos de chopp, são 30 homens sentados. 300 desejos presos, 30 mil sonhos frustrados. Sigo aqui meu caminho e digo pra quem quiser ouvir, hoje não tem mais arriba saia, muito menos o bole-bole há de vir. Agora que a poeira baixou não tem mais arrasta pé, não adianta mais calçar o tamanco, mulher. São 30 rosas de cheiro, são 30 morenas de canto. 300 olhares de desespero, 30 mil suspiros de desencanto. Esse meu peito murcho continua nessa trilha longa e teu cangote não me dá motivo para mais delonga. Por mais que essa vida seja sofrida, não quero mais procurar o conforto do teu chamego até o raiar do dia. Meu xote está por fim selado e eu tô ficando cada vez mais aperreado. São 30 corações sem dono, são 30 lágrimas de solidão. 300 pensamentos de abandono, 30 mil passos sem direção.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Novo e velho tempo

A Fé Solúvel - Teatro Mágico. Clique e ouça.

Não vou e não quero mais lamentar sobre a mudança que só o tempo traz. Muito já ficou pra trás e o tempo à frente corre sem parar jamais. Sei que já fui novo e ser novo pra mim é ser algo velho, batido, corriqueiro. Nesse exato momento quero crescer, quero viver o que é novo, de novo. O que eu quero mesmo é ser mais que velho. Vês? É uma parábola entre o novo e o velho tempo que se mistura de maneira que não se pode prever o futuro. Quero que entendas que não existe tempo, o tempo não é criado. O que existe é uma invenção chamada relógio. Algo criado para nos seduzir e nos trancafiar. A hora de todo mundo um dia chega. Cedo ou tarde, inesperado ou não, a única certeza que temos na vida é a morte.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Bando AfroMacarrônico

Samba Manco - Kiko Dinucci e Bando AfroMacarrônico.
Clique e ouça.

O que você quer ser quando crescer?

Quando ela era pequena, em meio às milhares de mudanças de casa e de amigos, sua mãe sempre enfatizava que a felicidade era a chave da vida, aquilo que lhe abriria portas e caminhos para seu destino, moveria moinhos para lhe dar energia e acenderia fogueiras para aquecê-la à noite, independente do que os outros digam e façam. Assim, ela cresceu sabendo o que era realmente importante na vida de uma pessoa e, quando entrou para a escola, foi logo questionada por seus colegas e professores sobre o que gostaria de ser quando crescer. Sua primeira resposta foi rápida e objetiva: feliz. Ora, o que mais ela gostaria de ser além de feliz? Boquiabertos com a ingenuidade da garota, disseram que sua resposta era totalmente evasiva e que ela não havia compreendido muito bem a pergunta. Ela sorriu e explicou que eles é que não compreendiam muito bem a vida.

Cálculos

Acompanhe meu pensamento: você tem um tubo de moral todo seu - como aqueles tubos de vida dos personagens de games - e o nível desse tubo depende de como você se comporta. Ou seja, tudo o que você fala e faz conta para aumentar ou diminuir o conteúdo. É assim que eu me sinto em relação às pessoas ao meu redor. Ao andar nas ruas, ao ouvir desabafos, ao sair para dançar, ao conversar. Guardo um registro íntimo dessas lembranças de acontecimentos vários e vou calculando o volume do tanque de cada um. E com você, agora que a ficha caiu, a coisa ficou feia. Não somente pela distância que nos acometeu, mas principalmente, pela frieza que surgiu do nada e nos afastou. Não consigo mais digerir o acontecido, mas em poucas palavras, eu poderia dizer que o anel que tu me deste era vidro e se quebrou e o amor que tu me tinhas era pouco e se acabou.

* Rascunho de texto que eu tinha guardado aqui há algum tempo na esperança de que uma certa pessoa pudesse terminar de escrevê-lo, porém descobri recentemente que não há ninguém melhor para terminar de escrever minhas histórias do que eu mesma, a dona.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Pedra-Papel-Tesoura

Confesso que eu nunca compreendi direito o significado dessa brincadeira. Eu consigo entender como a tesoura de certa forma corta o papel e a pedra, por sua vez, consegue quebrar uma tesoura, mas nunca consegui entender como um papel pode acabar com uma pedra. O que acontece? O papel pode, num passe de mágica, envolver a pedra todinha e deixá-la imobilizada? Como se prendesse a respiração, sufocasse e ganhasse por asfixia? Se for assim, por que o papel não pode envolver a tesoura antes que ela se abra? Aliás, deixando a tesoura de lado, por que o papel não pode fazer isso com as pessoas? Imagina os papéis dominando o mundo? Livros devorando pessoas, mãos sendo dominadas, cadernos maníacos, origamis ganhando vida. Todavia, isso não é possível, o papel não consegue fazer isso com nada nem ninguém. A pedra pode acabar com essa presepada em dois minutos. É por isso que eu sempre coloquei pedra na hora do jogo. Se algum engraçadinho viesse dizer que o seu papel ganhava, eu o acertava com o punho fechado no estômago e dizia: "Desculpe, pensei que o seu papel fosse vencer a minha pedra".

terça-feira, 26 de maio de 2009

Ainda não

Meu Amor Meu Bem Me Ame - Zeca Baleiro. Clique e ouça.

Manda o Amor passar mais tarde, não quero mais nada com ele, pelos menos não agora. Ele que resolva procurar outra pessoa em outro dia, não estou com bom humor, muito menos paciência. Todavia, se a Paixão aparecer por aí, faço questão de convidá-la para entrar e tomar um chá. Sem ela eu não sei viver, justamente porque meu corpo precisa de altas doses que somente ela pode me prover. Pois ela consegue fazer meu sangue ferver e pulsar mais vivo em minhas veias, é viciante. Somente a Paixão é capaz de me visitar sem pedir nada em troca. Enquanto ela só sabe me dar e me preencher, o Amor só quer me tirar e me extrair tudo até não sobrar mais nada. Quero que você me veja acender minha loucura, pois só assim enxergará minha sanidade. Por isso que eu repito, chamemos a Paixão para matar nosso desejo, deixa o Amor de lado. Não me ames ainda.

All New Math

Veja mais aqui.

domingo, 24 de maio de 2009

Au revoir, Catito

Não consigo mais falar de Catito e não falar de poesia, assim como não consigo mais escrever poesia sem lembrar de Catito. Eu poderia vir aqui e escrever milhares de palavras bonitas e rebuscadas, mas que de nada teriam impacto, pois uma coisa é certa: ele fará falta. Suas constatações sobre o amor metafórico entre cisnes, patos e águias, seus papos poliglotas e seu groselha-chopp. Lembro-me de nossas conversas noite afora, aquelas sobre eu só conhecer um único homem capaz de amar uma mulher por inteiro e ele enchia a boca para dizer que, além do Chico, havia ele. Catito é uma das poucas pessoas que pude conhecer que é inteiro no que faz, seja em sua música, seja em seus textos, seja em seus sentimentos. E eu imaginava como alguém poderia ser tão inteiro e ao mesmo tempo estar tão dividido. Ele consegue distribuir essa sua poesia onde quer que vá e no que quer que faça e é isso o que mais me cativa, ou seja, sua sabedoria em poder se dividir em vários, mas sem perder sua identidade única, "pero sin perder la ternura jamás". Boa viagem e muita sorte em sua busca por novos e melhores caminhos, quem sabe a gente não se esbarra por essas cruzadas que a vida dá.
Je vais passer à côté de vous. Salut, mon'chèrie!

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Pós-modernismo:

Love Will Tear Us Apart - Joy Division. Clique e ouça.

Love will tear us apart, again. Pois isso que você vê em mim não é tristeza não, eu não sou uma pessoa tristonha. Só sou silenciosamente alegre, guardo em mim mesma essa felicidade tão minha e somente quem me conhece pode saber discernir meu estado emocional inconstante. E eu acho impossível passar indiferente aos seus galanteios. Suas palavras soam como uma esperança desesperançosa que me joga lá no alto, fora da órbita da Terra e que depois me derruba lá embaixo, com um breve intervalo de minutos na atmosfera para fazer aquele frio arrepiante no estômago, antes do baque final. Melhor, suas palavras são como aquela doçura que precede o amargo naqueles chicletes explosivos, sabe? Um docinho no começo, uma delícia ao colocar na boca, mas morde para você ver. O jeito é deixar ali na língua, ir enrolando, saboreando devagar, jogando de um lado pro outro da bochecha, porém chega uma hora que é inevitável não sentir o gosto. Assim, você pára para pensar se deve jogar fora aquele chiclete ardido e não ter que sentir o azedinho fulminante ou - a minha parte favorita - se entrega e morde mais forte ainda, porque gostoso mesmo é fazer careta até o final.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Spanish Guitar

Spanish Guitar - Toni Braxton. Clique e ouça.
Súcubo
E depois de minha visita rápida, mas intensa, levantei o olhar para o horizonte como quem não sabe onde colocar as mãos, que frase dizer, mas principalmente, qual cara fazer. Em um único final de semana pude saborear tantas coisas. E das coisas várias que pude ter contato, teu corpo foi a melhor. Conhecer outra cidade não chegava aos pés de conhecer tuas curvas. Nenhuma rua possui a maciez de tua pele, nenhuma casa possui a abertura de tuas pernas, nenhuma praça tem a doçura e a calmaria de teus olhos. Pude tê-la em meus braços como não tive a ninguém, pude acariciar tua barriga como a uma spanish guitar e pude fazer desenhos de ligue-os-pontos com os dedos em tuas costas. Como queria tê-la mais perto e por mais tempo. Desejei inconscientemente que esses dias não passassem nunca, mas tudo sempre tem que passar, a vida sempre passa: escorre rápido por entre nossas mãos trêmulas e suadas. Nosso grande erro é crer que tudo que é bom de verdade passa como se não fosse aproveitado o suficiente. Queria te aproveitar como aquele verso da nossa música: all nigh long, all night long. Talvez eu fique por mais alguns dias.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Reflexo

A princípio quando olho no espelho vejo o fim e, numa segunda olhada, vejo o começo de tudo. É nesse paradoxo em que me encontro agora: um quê de não saber se sou ou se fui. Não sei ao certo quando me bateu essa congruência, só sei que não me vejo mais sozinha com meus próprios pensamentos, sinto como se dividisse esse espaço com mais alguma outra pessoa. Uma pessoa que talvez não saiba que vive comigo, mas que consome todos os meus vazios. Que me faz despertar na ânsia de encontrá-la, que tira meu sono, meu sossego. Tenho um pouco de medo de tantas sensações. Um medo gostoso. Posso afirmar com toda certeza, que esse receio que me bate subitamente nas madrugadas mais frias - quando busco companhia na imagem dessa outra pessoa nos espelhos da casa - mexe comigo a ponto de acreditar que estou perdendo minha lucidez. Quebro todos os espelhos que encontro. Não quero mais enxergar. Quem sabe assim tudo aquilo desaparece. Hum, odeio me enganar. Prefiro me colocar como louca do que como apaixonada. Tolice. Não faz diferença. Através do espelho podia estar ao seu lado, pelo menos. Não sei se começo ou se termino...

Despedida

The Power Of Good Bye - Madonna. Clique e ouça.

E eu, com um punhado inteiro de perguntas nos bolsos, resolvi passar a vez pra você. Observei seu jeito lacônico com olhos passivos e decidi ficar quieta, justamente por não saber as respostas, não dessa vez. Naquela noite em que o bar inteiro parecia estar escutando nossa conversa, percebi que eu já não era somente eu, o próprio bar se transformara em mim. Eu estava lá, representada nos copos fundos das bebidas e nas risadas rasas das pessoas. Eu, sentada numa mesa de madeira bamba e quadrada, precisava ser o bar, justamente para esvaziar meus pensamentos no eco dos outros. Tudo ali era tão grande, tão amplo e ao mesmo tempo tão vazio. Eu, você, o bar e o burburinho das pessoas, tudo tão desconexo. Depois de um último gole, levantei-me e coloquei as duas mãos ao redor de seu rosto, você não imagina o quão indefeso você parecia. Respondi, por fim, que eu tinha receio em vê-lo partir - o que não era de todo uma verdade, mas era uma resposta, afinal - e que preferia partir antes de você, pois não aguentaria ficar e receber um adeus. E depois de um último e demorado beijo, peguei meu casaco e saí. Despedir-se sempre foi uma tarefa complicada pra mim: nunca sei se olho pra trás ou se continuo em frente sem hesitar. Tenho medo de deixar um pedaço de mim em seu colo, caso me vire para observá-lo.

domingo, 17 de maio de 2009

Cheiro

Engraçado como cheiro é coisa única, é como o DNA ou a sua impressão digital. Cheiro é diferente de perfume que, por sua vez, é diferente de aroma ou fragância. Uma pessoa jamais terá o cheiro igual ao de outra, por isso eu digo que teu cheiro é só teu, querido, não tem como mudar isso. Teu cheiro está em mim como uma segunda pele, talvez até under my skin. Teu cheiro é uma mistura deliciosa do que tu és e do que tu queres ser. Teu cheiro me domou os cabelos, colou em meu cachecol e impregnou minha roupa. Teu cheiro é um bando de moléculas assanhadas que me seduzem com o rebolado. Teu cheiro é um conjunto musical que me encanta com o ritmo marcado. Teu cheiro é uma praia deserta entregue às ondas que rebentam na encosta. Teu cheiro é um sarau repleto de poesia, arte e diversão. Teu cheiro é a representação exata do teu sorriso, do teu abraço, do teu beijo. Teu cheiro tem um quê nonsense com chocolate amargo, um ar místico com cigarro barato, um patuá esotérico com ervas selvagens. Não vou tomar banho nunca mais. Teu cheiro agora é meu.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Copos de vinho

Íncubo
Com os olhos, ele começou a despi-la. Ela caminhou lentamente até a garrafa no canto do quarto sem tirar os olhos dele e serviu mais duas taças com vinho tinto até a metade. Copos meio cheios, ele diria mais tarde. Como se não suportasse ficar longe dela sequer um minuto, foi ao seu encontro e a abraçou enquanto ela tomava um longo gole do néctar. Sem nenhuma pressa, acariciou-lhe as curvas delicadamente, sentindo cada ponto sensível ao seu toque. Cada suspiro ao pé do ouvido, cada gemido quando alcançava partes íntimas, cada puxão de cabelo. Como se seus olhos não fossem suficientemente bons no trabalho, começou a despi-la de fato. Suas mãos iam de encontro ao corpo dela numa volúpia única, como uma criança que está prestes a abrir o tão esperado presente de Natal e que não perde tempo com a embalagem. A paciência que antes teve ao senti-la perto de si foi substituída pela malícia. E quando o desejo dela já ocupava o quarto inteiro, ele conseguiu observá-la com seus olhos castanhos semi-cerrados doces como jaboticabas. Olhos mais noturnos que aquela mesma noite e mais miúdos que meu próprio coração fica ao contar essa história sobre esses dois copos de vinho que mal foram tocados e que, provavelmente, foram desperdiçados.

The Ecstasy of Tera Patrick*

Tera se rasgava inteira ao vê-lo com outra. Sua efusão misturava suas cores em uma aquarela tão bela e voraz que não poderia ser imaginada por mais ninguém. Como poderia ele recitar sobre o amor, coisa que nem ela sabia muito bem o que era, quanto mais ele, um pobretão, pinguço, burro e muito mal amado.

Todavia, ela o xingava porque o amava, mesmo sem saber o que isso realmente significava. Ninguém nunca lhe explicou o que era a paixão e o amor quando bem feito. E assim como o Hulk, transformava-se em uma outra mulher quando o via passear com aquela vagabunda de esquina. Milhares de cenas lhe passavam pela mente e sentia uma vontade crucitante de se descabelar, de arrancar as roupas, de pular, de arranhar e gritar pro mundo inteiro que aquele pé-de-chinelo era dela e só dela. Tera se contorcia e tinha chiliques homéricos, mas se continha em defesa própria e nada dizia a ninguém. Acreditava que mais cedo ou mais tarde ele iria largar a sirigaita e voltaria pra ela. Era isso ou ela planejaria um sangrento assassinado. É-pra-já.

* The Ecstasy of Tera Patrick - James Roper

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Mania de você

Mania de Você - Rita Lee. Clique e ouça.

Do momento em que eu acordo até o instante em que eu coloco a cabeça no travesseiro, eu tenho vontade de você. Aquela vontade que não tem um nome exato, não tem significado em dicionário algum, não tem previsão meteorológica. Passo o dia me coçando para falar contigo, passo a noite me revirando na cama para dormir abraçada a ti. E essa vontade me persegue nos momentos mais impróprios: no banheiro, na cozinha, na sala de estar, mas é no quarto que ela mais me consome, mais me cutuca, mais me dá água na boca. Engraçado como uma vontade pode controlar seus pensamentos, mas não pode comandar seus caminhos. Creio que, por mais que eu tenha vontade de estar, beijar, amar você, não quero mais mover um dedo para que isso ocorra. Pois que quanto mais você se dedica à vontade, mais ela deixa de ser um desejo e passa a ser um capricho do coração.

Franco-atirador

Eu não tenho ciúmes e isso não é um mantra. Também não é auto-confiança ou segurança exacerbada, nem é uma questão de confiar no próprio taco acima de tudo e todos. Eu simplesmente não vejo razão para questionar os princípios alheios, sejam eles quais forem. Sério mesmo, eu quero mais é ser feliz, sem estresse, sem mal-me-queres, sem mal dizeres. Quero é aproveitar a vida e as coisas boas que podem vir com ela. Incomodo-me com certas atitudes ou palavras, com outras pessoas e suas chantagens emocionais, mas acredito na sinceridade de quem está comigo. Haja o que houver, eu estou contigo contanto que você seja franco (atirador) comigo. Rá.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Futebol kamikaze

É um lance totalmente kamikaze, uma saída tortuosa e íngreme, porém deliciosa. Posso parecer um tanto quanto masoquista, mas me parece que nesse ponto, chego a ficar sem saída. Encho os pulmões para dizer que é inevitável fazer isso que estou prestes a fazer. Vou sofrer de qualquer jeito, vai doer bastante no final, mas é tão divertido enquanto dura. Ah, cansei de tirar meu time fora do campo e perder de WO toda-santa-vez que o gramado estava ruim ou o céu estava nublado. Ainda não choveu, ainda posso jogar. Só-Deus-sabe quantas vezes eu joguei bola descalça debaixo de chuva e me diverti à beça. Eu quero é mais aproveitar enquanto é tempo, experimentar cada centímetro quadrado, matar no peito, ajeitar na coxa e mandar pro gol. Sei que meu tempo é curto, já que estamos nos 35 minutos do 2º tempo, mas quem sabe não rola uma prorrogação? Bom, isso cabe ao juiz, mas também cabe especialmente a você. Eu quero jogar essa partida contigo, quero escalar você pra mim. Topas?

terça-feira, 12 de maio de 2009

Coração e razão

Coração meu, que me dizes?
E o que achas tu, Razão?
Dêem-me os vossos argumentos.
Debatam as vossas opiniões.
Mostrem-me os vossos caminhos.
E no fim... a qual dos dois darei eu ouvidos?!

Tirei daqui.

Timing

Eu vou te entregar um caderno aberto, só que em branco. Assim tu terás todo o espaço de suas folhas para preencher com tuas idéias, desenhos e argumentos vários. Depois eu vou querer fechá-lo e guardar essas idéias para folhear suas páginas quando eu estiver velha e caduca. Esse é o único jeito para eu entender do quê a vida é feita e o porquê de eu ter esses pensamentos tão meus em relação a ti. Tu adoras me dizer que a vida tem seu timing exato e inabalável. A perfeição de suas palavras que, em contrapartida, referem-se ao universo e além, deixam-me em estado delirante. Pode ser uma teoria obscura e desesperadora, mas tem seu lado preciso e refinado, talvez até genial. Uma finesse oculta que em alguns dias traz a luz e em outros traz de mansinho a noite. E tudo acaba por ter sentido, finalmente, como em um passe de mágica. O importante disso tudo é que, subitamente, percebo que tu trazes, assim como toda essa sua finesse congruída, alegria pra minha vida.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Primeiro e último

The Next Time Around - Little Joy. Clique e ouça.

Estou de mãos atadas, como sempre. E como eu odeio essa situação. Essa prostração que me invade o corpo e desfaz meus passos. Desliga-me os fios da razão e me faz agir impulsivamente. Sem porquê, ou contudo, muito menos todavia. Disseram-me hoje que eu sou uma medrosa que foge da felicidade. Como fugir de algo que você ainda não encontrou? Homens esperam ser o primeiro de suas amadas e mulheres esperam que eles sejam o último. Mas nunca são, eles nunca são o que nós esperamos deles. E eu estou cansada disso tudo.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Phone

Eu provavelmente teria que usar as teclas: 3, 5, 6 e 8.
A 8 justamente porque minha memória é fraca e eu, provavelmente, gravei alguma coisa importante para ti nesse número. Tenho uma aversão a telefone, não costumo falar muito tempo nele, mas das poucas vezes que o usei para papear contigo, tua voz ficou ecoando durante horas na minha cabeça como a maré: levando e trazendo lembranças boas de quando tu foste meu e eu tua.

Achei esse flickr interessantíssimo. Tem muito mais aqui.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Teimosia

Frank Sinatra - Cake. Clique e ouça.

Andira, mas como você foi teimosa agora. Daquela teimosia boba e insossa. E foi mesmo, aliás foi não, você é. Você tem que aprender a engolir essa sua característica irritante como pão seco sem copo d'água para ajudar a descer goela abaixo. Por que você tem que ser sempre tão grande, se isso faz com que você não caiba em lugar algum? Essa imensidão que você criou para se encontrar é totalmente paradoxal, pois que, ao invés de desvendar-se, você acaba por se perder mais e mais em seus labirintos escorregadios. Você mergulha em suas palavras com um copo de vinho cheio até a borda e acaba decifrando olhares vazios dele ou recriando outros de uma pessoa qualquer. Não esqueça que desse jeito que você se fez, não há ninguém que consiga te alcançar, ninguém poderá te ter ou te tocar sem questionar essa sua extensão. Quero que saiba, meu bem, que você não precisa se diminuir para ser exata, basta guardar essa ariana que você tem dentro de si e apaziguar os ânimos. Vem cá, encosta sua cabeça aqui no meu ombro e deixa de ser teimosa, vai.

Vestimenta

Insististe tanto que resolvi me desfazer de ti e acabei por me despir não somente de minhas ilusões, mas de tua pele opaca e de minhas roupas sujas e pesadas. Desci nua a ladeira e me dirigi ao beco estreito de pedra escorregadia, cheguei à praça descabelada, louca, desvairada com os braços pra cima a sentir o vento contornando meu corpo. Assim, a rua deserta avisou o mundo do acontecimento recente e este começou a tentar me vestir com os resquícios dos últimos raios de sol da tarde, a lua que começou a pintar o céu, envolveu minhas costas com sua energia ludibriante e as luzes da cidade começaram a abotoar minhas curvas. Como nenhuma tentativa de me cobrir foi satisfeita, decidi vestir poesia nessa noite fria de outono, pelo menos ela me aquece e não me expulsa de minha própria casa quando mais preciso de seu aconchego.

Transplante cardíaco

Você não pode dar licença para seu coração se aventurar por qualquer coisa ou pessoa por mais interessante que seja. Pois quanto mais você faz isso, mais forte ele começará a te comandar e então ele se tornará tão grande e independente que te fará correr entre bosques, subir em todas as árvores, escalar a mais alta e atingir o céu com os braços e cabelos. Fará com que você saia durante o meio da semana sem nem pensar no amanhã, sem usar a razão, esquecendo de seu antigo companheiro, o cérebro. Fará com que você mergulhe o mais fundo em suas vontades contidas e segredos escondidos, fará com que cada palavra atinja um significado oculto e que seja motivo suficiente para beijos longos e sexo (amor?) quente e demorado. Esse foi o mal do homem. Aquele Homem quis deixar seu coração tomar a direção que lhe fosse sentimentalmente favorável. Deixou as rédeas de sua vida nas válvulas desse órgão tão inquietante e imprevisível. Sozinha aqui, penso: favorável para quem, cara pálida? Só se for favorável para a equipe médica de transplante cardíaco.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Renda-se

Íncubo
Ele era daquelas pessoas de pouquíssimas palavras quando frente a frente. Brincava comigo ao dizer que parecia com Chico Buarque na hora do galanteio. Podia ser eloqüente enquanto escrevia, mas ao paquerar bastavam-lhe algumas poucas palavras ao pé do ouvido e qualquer mulher seria sua. Suas palavras para me seduzir foram: renda-se. Confesso que não foi isso que me fez adentrar em seu apartamento quase sem mobília, com exceção da mesa quadrada de bordas arredondadas com quatro cadeiras vermelhas feitas de metal e propositalmente mal dispostas sobre o tapete bege, foi a pura e saudável curiosidade que me fez pisar ali, contudo deixo que ele acredite em seu poder de persuasão. Renda-se. Sussurrou-me perto da nuca abafando suspiros ofegantes em meu ouvido, seguiu meu pescoço com a ponta do nariz sentindo meu perfume e pousou a mão educadamente em minha cintura, aproximando-me de seu corpo. Quem é você? Melhor, quem você pensa que você é? Fiquei muito tempo fitando seus olhos oblíquos tentando adivinhar alguma coisa ou pelo menos entender o porquê de minha hesitação. O que você quer? Melhor, quanto de mim você quer? Ele não piscava os olhos. Queria tudo e mais um pouco. Sorria como se não houvesse situação alguma, como se fosse a coisa mais simples do mundo. E era. Rendi-me.

* Pintura: "Surrender" de Alyssa Monks, mais aqui.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Parei

Parei com tudo isso. É como uma investigação policial de cada milímetro de sua vida. Tudo o que você faz, quando você está assim longe-perto, tudo é analisado e desmistificado. Não quero isso, não quero parar com isso, mas parei. Você parece que já sabe desde sempre o que dizer, o que não dizer, o que misturar com limão para dar maior sabor a qualquer gosto. Deve ter alguma bola de cristal na qual você vislumbra entre as brumas a melhor saída e, é claro, a melhor entrada com efeito especial e gelo seco. As palavras mais perfeitas, os silêncios mais oportunos, as carícias mais gostosas. Quando você quer, você consegue arrancar sorrisos tolos de mim e adivinhar qual tamanho de roupa que eu visto, um grande palpite para um homem. Você não olha, você enxerga além. Esses papos que você sabe o final, as teorias mirabolantes, os dizeres secretos. Você consegue tudo, basta querer. E eu, boba, fico aqui boquiaberta toda-santa-vez que você passa, com suas graças e piscadelas e abraços. Só você sabe tirar o-melhor-de-mim sem querer-querendo, pois só com você eu decidi parar e parei. Parei de procurar.

Responda rápido:

Love is a Losing Game - Amy Winehouse. Clique e ouça.

Consegues me dizer por que tu és assim tão apaixonável?
Droga viu, tá tão difícil de resistir a você. É tão fácil gostar e desgostar que só você mesmo é capaz de me fazer pensar duas vezes antes de tomar qualquer decisão. Fica complicado assistir a um filme, folhear um livro, ouvir uma música e até tomar um longo banho de sol sem sequer pensar em você. Toda e qualquer situação acaba levando ao seu nome, seguido de umas reticências constrangedoras. Está claro que fica cada vez mais difícil me desvencilhar de você e seus encantos, mas resistir, meu bem, resistir é quase impossível.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Caio, querido

Eu montaria um blog todinho de textos e citações de Caio Fernando Abreu. Eu amo essa sua eloqüência destilada em palavras doídas. E sou apaixonada por essa forma atroz e verdadeira que ele criou para praguejar o mundo e principalmente, o amor. Seus textos, seu jeito de escrever e sua procura infindável por algo mais além dessa merda que nos encontramos faz com que eu me identifique cada vez mais com sua ideologia, se é que posso chamá-la assim. Idolatro essa sagacidade quase onipotente que, ao juntar pensamentos soltos em histórias mirabolantes e ao mesmo tempo tão reais, tão cotidianas, tão minhas e tão suas, une o útil ao agradável: o amor e a dor. Sim, a rima esdrúxula que todo poeta se nega a fazer entra como peça principal do quebra-cabeças que os textos de Caio compõem. Seu sofrimento é toda vez recriado e, porque não revivido em forma de indagações e divagações infinitas. É impossível não reviver grandes amores e se sentir demasiadamente nostálgico ao entardecer com uma taça de vinho na mão, uma vez que ao ler Caio você se sente flutando nas nuvens para depois despencar do sonho sublime. E digo mais, é altamente recomendável, pois que nossa vida é uma grande gangorra feita justamente desses altos e baixos intermináveis.

sábado, 2 de maio de 2009

Paredão

Em ruínas, mas ainda de pé. Sabes que foi bom aprender tudo isso contigo, foi bom aprender a colocar os pingos nos is e foi melhor ainda saber dar nome aos bois. Sigo em frente sabendo que existem sorrisos mais bonitos, olhos menos puxados e cabelos mais claros que os teus. Sei que posso dar mais risadas à toa, fumar de cigarros vários, beber de vinhos mais doces e ter sonhos mais gostosos. Posso usar mais cores de minha palheta sortida e desenhar mais desenhos incógnitos, posso deitar em outras redes e brincar com outras câmeras fotográficas senão a tua. Posso vestir outras camisetas masculinas e dormir em camas mais aconchegantes. Posso brigar com outro secador malcriado, acariciar outro cachorro malandro e conversar com outra sogra. Sei que pude, sei que fiz, sei que não esqueço. Porém você só soube me demolir, me rebaixar, me denegrir. Eu quero mais: beijos, abraços, conversas. E também quero menos: estresse, problemas e ilusão. Hoje você ainda consegue tirar mais e mais desse menos que você se tornou na minha vida.

* Foto: 1000 Imagens

Papo de madrugada

Eu já começo o papo rasgando a seda: "Você tem vontade de encontrar um amor de verdade e passar o resto da vida com ele?" Foi assim que comecei um papo de madrugada. Amor é uma coisa engraçada. Nós nunca acreditamos muito nele e nunca sabemos muito bem o que ele é. Nossas opiniões podem ser semelhantes e ao mesmo tempo tão divergentes. O pior é a convicção de ter achado o amor-da-sua-vida e não poder ficar com ele. Em que planeta eu sobreviveria a isso? Eu costumava acreditar que se é amor mesmo, você faz o que for possível para ficar com essa pessoa. Só que para ela, o amor não é isso. É saber deixar ir, mesmo sentindo a dor de ficar. É saber respeitar a distância imposta e seguir em frente.

Pois que ela encontrou a pessoa com que ela gostaria de passar o resto da vida e tem certeza absoluta disso. As outras paixões e casos só reforçam essa idéia platônica. É impressionante, pois isso só me faz duvidar mais e mais dos amores que tive. Foram reais? Eu realmente amei cada um? É possível amar mais de uma vez? Sempre acreditei que ter um amor para compartilhar uma vida é como um bônus, não é estritamente necessário, mas é uma dádiva encontrar alguém com quem você se identifique a ponto de poder viver junto na fidelidade. Digo fidelidade no sentido de que se aquela pessoa te completa em todos os sentidos, não há razão para ficar com outra.

E eu não posso e não vou exigir aquilo que ele não possa me dar.

Dama da Noite

Nem é você que eu espero, já te falei. Aquele um vai entrar um dia talvez por essa mesma porta, sem avisar. Diferente dessa gente toda vestida de preto com cabelo arrepiadinho. Se quiser eu piro e imagino ele de capa de gabardine, chapéu molhado, barba de dois dias, cigarro no canto da boca, bem noir. Mas isso é filme, ele não. Ele é de um jeito que ainda não sei, porque nem vi. Vai olhar direto para mim. Ele vai sentar na minha mesa, me olhar no olho, pegar na minha mão, encostar seu joelho quente na minha coxa fria e dizer: vem comigo. É por ele que eu venho aqui, boy, quase toda noite. Não por você, por outros como você. Pra ele, me guardo. Ria de mim, mas estou aqui parada, bêbada, pateta e ridícula, só porque no meio desse lixo todo procuro o verdadeiro amor.
Cuidado comigo: um dia encontro.

Caio Fernando Abreu