segunda-feira, 30 de março de 2009

1º Conto Vampiresco

Súcubo
Era mais uma viagem costumeira. Chegar ao aeroporto, fazer check-in, comer alguma coisa, esperar o atraso do avião e embarcar. Nada demais, nada de menos. Sempre tive aqueles vícios costumeiros de passageiros de longa viagem, mas que possuem certa fobia em voar. Nunca gostei de puxar papo e respondia grosseiramente a quem inventasse me questionar sobre o tempo, sobre a bunda da aeromoça ou sobre a refeição requentada. E, é claro que havia também a solidão, minha maior companheira, além das crônicas vampirescas de Anne Rice que me incitavam a imaginação e me faziam buscar nossas viagens e novos mundos.

Todavia, lá estava eu, exausto, com as pernas doendo e as costas me matando por alguma posição complicada que Susie me arranjou no Kama Sutra. Pedi um martini duplo, tirei os sapatos e encostei a poltrona para relaxar. Como disse, tudo muito comum, o avião levantou vôo, eu tirei uma soneca e já no meio da viagem, quando as luzes estavam apagadas e todos já haviam dormido, olhei para o lado e lá estava você com sua beleza não angelical, posto que você é uma vampira, mas com sua palidez encantadora. Será que seu corpo era tão gelado quanto o seu sorriso? Quando me preparei para confessar meu amor à primeira vista, o piloto deu instruções para todos apertarem os cintos e levantarem as poltronas.

O avião poderia cair, as turbulências aumentavam e as pessoas gritavam. As máscaras de oxigênio caíram e todos afobados rezavam, menos você. Relutante, observei pelo canto do olho o seu semblante e o fôlego me faltou, não pelo seu decote profundo, mas pela impassibilidade em seu olhar. Você não iria morrer mesmo, pelo menos não de novo. Não se alterou nem um pouco, acredito até que achou graça do desespero alheio, movendo seu cabelo loiro bem penteado, caído sobre o busto farto dentro daquele vestido vermelho apertado ao corpo. Foi por causa do meu medo de viajar de avião que toquei em sua mão pela primeira vez, mas foi meu amor por você que fez com que eu não a soltasse mais.

sábado, 28 de março de 2009

Caio F.

Ando meio fatigado de procuras inúteis
e sedes afetivas insaciáveis.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Conversa de Botas Batidas

- Fiz tantos poemas e prosas pensando em ti!
- Como se eles tivessem real importância.
- Sinto tua falta, de verdade.
- Tua vida estás só no começo, não serei o único a passar por ela.
- Creio que tu podes, mas no fundo não quer se afastar de mim.
- Olha lá em cima. Não achas as estrelas belíssimas onde estão? Se estivessem perto de nós, se pudéssemos tocá-las, elas não seriam tão encantadoras e admiráveis como são agora, aliás, nosso sonho era morar lá em cima na Lua, lembra?
- Não me relembre de sonhos infantis.
- Mas e a viagem?
- Um dia chegarás a seu destino, não agora.
- Mas e a saudade?
- Será insuportável, talvez avassaladora.
- Mas e o amor?
- Jamais será perdido, muito menos apagado.
- Realmente, querida, tu não desistes.
- O que tu queres de mim? Não queres me esquecer?
- Hei de te esquecer, mas esse não é meu desejo.
- Então fica!
- Encontrarás alguém melhor que eu.
- Diz, quem é maior que o amor?
- Conversa de Botas Batidas?
- Anda, vamos nos despedir com mais um último beijo.
- E se eu resolvesse ficar aqui contigo?
- Tu acabarias iludindo meu coração até uma próxima viagem.
- Já deu o meu horário de embarque.
- Tchau. Melhor assim, querido.
- Vem comigo, então?
- E o que eu faria lá?
- Podes continuar escrevendo seus poemas e prosas.
- Mas e a história das estrelas?
- Elas te farão companhia enquanto tu arrumas nossa casa na Lua.

Novidade!

A Fé Solúvel
Teatro Mágico

É... meu computador
Apagou minha memória
Meus textos da madrugada
Tudo o que eu já salvei
E o tanto que eu vou salvar
Das conversas sem pressa
Das mais bonitas mentiras (...)
Que o teu afeto me afetou é fato
Agora faça-me um favor...


Sempre digo e repito e bato o pé no chão dizendo que o Crackpot Ideas é um blog comum, que não quer sobressair sobre os outros. Aqui eu monto uns versos, umas letras, monto um pouco de mim, um pouco de ti, um pouco do que vejo, um pouco de inspiração, um pouco de tudo, pois que de pouco eu entendo. Porém, ando observando o crescimento dos blogs pessoais e, não querendo ficar para trás, decidi que o meu filhote, que já vai fazer cinco anos de vida e completou uns 400 posts, merece um gadget cool: um player para as pessoas acompanharem os posts com músicas temas. Confesso que meu gosto musical é altamente duvidoso, posso passar de Jason Mraz para Los Hermanos e dar um giro para Marc Anthony, pulo de Adriana Calcanhotto para Pearl Jam e dou um reviravolta no Paco de Lucia e por aí vai. Gosto de muita coisa, por isso acredito que vocês se srupreenderão com as músicas do meu player. Enjoy it!

quarta-feira, 25 de março de 2009

Cold Mountain

- A guerra fez algumas coisas se tornarem totalmente sem sentido. Eu não imagino mais um casamento depois disso tudo. Eu mesma não sei se quero mais me casar com alguém. Será que não existe uma religião na qual se diga "Eu aceito" três vezes e você sai casado?

- Eu aceito. Eu aceito. Eu aceito.


**Completo 400 posts aqui.
Em Agosto o blog faz 5 anos!

Como dói

Sabe que eu ainda não descobri o nome disso? Quando se acorda no meio da noite suando frio com as costelas doendo de tanto respirar apertado só porque se está pensando demasiadamente em alguém, como dói. Ou quando não se consegue adivinhar a cor do céu por se confundir com todas essas tonalidades mescladas, ou quando um simples nome é capaz de partir seu coração em dois pedaços, ou quando um mísero beijo é a sua única lembrança, a qual você se agarra todas as noites quando encosta a cabeça no travesseiro e o revive milhares de vezes consecutivas, como dói.

Creio que seja um nome específico para hipnose. Daquelas em que a gente não consegue tirar os olhos, mesmo que só tenha uma imagem desfocada na memória. É como ficar observando o fogo queimando na lareira quente. Você não consegue tirar os olhos das labaredas, não se atreve a chegar mais perto, muito menos se arrisca a se afastar. Você fica lá parado, esperando uma reação das chamas, como se algo fosse acontecer. Seus olhos podem até procurar outros lados, mas eles sempre voltarão para os vultos crescentes da lareira.

Hipnótico. Quanto tempo você ficaria nessa espera? Durante quanto tempo você esperaria por uma pessoa ou por uma reação da mesma? Criar expectativas em vão, esperar atitudes ou palavras que jamais virão. Só sei que essa espera queima como o fogo e a paciência se esvai entre os dedos, como dói, viu. Pois bem, eu realmente não sei como se chama isso, você sabe?

terça-feira, 24 de março de 2009

Reféns

Começar a enumerar o fato de que eu te amo já passou de validade, assunto batido demais, fofoquinha velha, jornal de ontem, old fashion in Paris. Porém, começar a descrever o simples momento em que não hei de ter braços para te abraçar, ou de que não hei de ter pernas para correr atrás de ti, ou de que não hei de ter fôlego para os teus beijos, ou mãos para os teus afagos, ou ar para mim mesma... ah, isso sim é pura surpresa, é real, é atual, resenha nova de vizinha fofoqueira, notícia saída do forno quentinho, papo sério do Zero Hora do Luís Fernando Veríssimo. Conto-te isso em segredo absoluto somente para deixar claro como as conversas rolam por aí, para você ficar ciente dos acontecimentos recentes e para você não ter que adivinhar o quanto eu te quero por perto, pois eu já te disse que é muito e as estatísticas confirmam meus dados. Porém quis dizer-te essas palavras somente para vislumbrar essa covinha que aparece timidamente no canto esquerdo de teu sorriso enquanto meus olhos seguem as linhas de teu rosto como dois reféns em cativeiro, separados pressurosamente de seu cruel seqüestrador. Sim, meus olhos são reféns de ti e sim, a culpa é todo tua e sim, eu aceito.

domingo, 22 de março de 2009

Direção

- Hei, vem cá...
- Diga, fia.
- O que acha disso tudo?
- Bom, acredito que rápido ou devagar não importa no nosso caso. A questão aqui é o rumo, ou seja, para onde tudo isso está indo e para onde estamos sendo levados. Não devemos classificar as coisas, chuchu. Tudo está se desenrolando e saindo das nossas mãos justamente porque nada é controlável e, se fosse, não teria a mínima graça. Lembre-se que não há pressa no andar acelerado do coelho, nem há tartarugas vagarosas demais, pois isso vem da natureza dos dois. O que importa é a direção disso tudo...
- Resume, por favor?
- Eu tô gostando da direção.
- Ah, ótimo, recíproco, até mais.

Esses papos me assustam mais e mais.
Mais diálogos esquisitos aqui.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Chiliquenta

Acabei de me lembrar de uma pessoa que me fez rir e chorar incontroladamente. Minto se digo que a pessoa só me veio à lembrança agora, na verdade a pessoa nunca me sai da cabeça.
E foi uma das primeiras pessoas, quiçá a única que teve a pachorra de me chamar de chiliquenta. Se nostalgia matar, pode colocar no meu obituário com letras garrafais.

quarta-feira, 18 de março de 2009

A bengala

O leque é para a mulher o que a bengala é para o homem. Na sua origem ambos estes objetos foram uma forma de defesa, mas a civilização, de transformação em transformação, reduziu-os a um traste de luxo, que às vezes ainda no fundo revelam o que foram. A bengala na sua primitiva forma não era mais que uma clava, um bastão ou um cajado, depois transformou-se em lança, adaga, espada ou florete e finalmente na século XIX chegou ao seu estado de perfeição, que é a bengalinha de junco ou a chibatinha de barbatana. Hércules, Abraão e Diógenes trouxeram a clava, o cajado e o bastão; César, Carlos Magno, Henrique IV e Turenne usaram da lança, da adaga, da espada; Napoleão tinha o seu sabre; Murat o seu chicotinho; Nicolau da Rússia andava de bengala.

Está pois bem próxima a época em que o cetro dos reis será uma chibatinha de unicórnio com catão de coralina e as faixas presidenciais de tecidos brilhantes do Oriente com lantejoulas foscas. Pois que viciei em House. Sim, na série. De duas semanas pra cá decidi baixar todas as temporadas e me manter a par de tudo, ou seja, foram cinco temporadas cada uma com mais de vinte episódios que baixei tudo e agora estou acompanhando em tempo real pela internet. Logo, você me pergunta o porquê de eu estar divagando sobre bengalas? Oras, House é o soberano do hospital no qual trabalha e ninguém, muito menos Cuddy lhe tirará o posto. A indicação óbvia de que ele está ali para reinar nada mais é que seu cetro em forma de bengala. Vida longa ao rei!

domingo, 8 de março de 2009

Sem você

Hoje eu não durmo. Não há cantiga que me faça fechar os olhos, que venha de mansinho e que me embale em um sono profundo. Não há cobertor que me acolha, que me prenda os braços, que me amarre as pernas e que me alcance o pensamento. Não há bebida que me acalme, por mais forte que seja, que consiga me afugentar os sentidos. Não há remédio que me faça ir pra cama contorcendo minhas veias, dobrando meus músculos e gemendo meus ossos.

Hoje eu não durmo, pois não tenho você. Não há nada que possa apaziguar meus pensamentos. Nada conseguirá me fazer dormir sem que seja você. Só posso cair em sono se tiver você ao meu lado, pois você me coloca para ninar de maneira que nenhuma cantiga consegue, nenhum cobertor me aquece mais gostoso, nenhuma bebida me inebria melhor a mente e nenhum remédio me arrebata mais no chão.

Hoje, sem você, eu não durmo.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Linha de pensamento

Você é uma pessoa que acredita cegamente nas outras pessoas e acata os desapontamentos que se encontra durante o caminho ou você é uma pessoa que duvida de tudo e todos e fica contente ao se deparar com uma surpresa boa no caráter alheio?
Eu não consigo decidir.

terça-feira, 3 de março de 2009

Bandeirante

Ele encontrou nela um continente inteiro divido por terras que nomeou por movimentos artísticos e muitos de seus pintores. Sua parte favorita era a área surrealista, onde suas entradas e curvas recebiam nomes característicos como Salvador Dalí, ali no canto tem Joan Miró, virando à direita vê-se Reneé Magritte e nas beiradas unidas ao centro encontra-se Frida Kahlo. Em seus membros, há de se notar os caminhos dos impressionistas, as cicatrizes de Renoir contracenando com as belas bailarinas de Degas, quando não obstante, observava-se os cachos claros de Monet ao vento. E mesmo nas partes mais distantes e extremas daquele continente inabitável, estaria marcado o lado dos expressionistas, sorrisos lúcidos ou não de Van Gogh, fobias e limitações de Munch e, principalmente, cores deliciosas de Paul Klee. Era um vasto continente dourado de percepções e vontades, graças e balanço, e ele amava admirá-lo e nomeá-lo a cada nova descoberta. Tatear. Caçar. Desbravar. E o fazia não porque era preciso delimitar o corpo da amada como um amálgama de obras de artes, mas porque agia como um bandeirante desbravador e o fazia muito bem. Muito bem.