sábado, 28 de fevereiro de 2009

Para uma menina com uma flor:

"Porque você é uma menina com uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino, que aliás você não vai nunca porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro. (...) E porque você quando sonha que eu estou passando você para trás, transfere sua d.d.c. para o meu cotidiano e implica comigo o dia inteiro como se eu tivesse culpa de você ser assim tão subliminar. (...)
E porque você tem um rosto que está sempre num nicho, mesmo quando põe o cabelo para cima, como uma santa moderna, e anda lento, a fala em 33 rotações mas sem ficar chata. (...)

E porque você é uma menina que não pisca nunca e seus olhos foram feitos na primeira noite da Criação, e você é capaz de ficar me olhando horas. E porque você é uma menina que tem medo de ver a Cara–na-Vidraça, e quando eu olho você muito tempo você vai ficando nervosa até eu dizer que estou brincando. (...) E sendo você uma menina com uma flor, eu lhe peço também que nunca mais me deixe sozinho (...) fica tudo uma rua silenciosa e escura que não vai dar em lugar nenhum; os móveis ficam parados me olhando com pena; é um vazio tão grande que as outras mulheres nem ousam me amar porque dariam tudo para ter um poeta penando assim por elas, a mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele
olhar que não vê."

Vinicius de Moraes

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Digo que...

Desculpas da boca pra fora são como xingamentos.
Não adianta vir com palavras amenas e discursos ensaiados de que sente muito. E pedir perdão por aquilo que se fez anteriormente não deve ser pedido se o arrependimento não bateu de verdade. Há de se questionar se a pessoa se coloca em seu lugar, se o xingador se compromete a sentir no fundo do coração a mágoa que colocou e a dor que plantou. E, se não consegue, há de se esperar até que um dia saiba que foi errado e possa talvez pedir desculpas. Porque há de se perder o objeto de afeto uma vez que causada a discórdia, não se possa mais sobrepor os obstáculos e continua a ter a presença da pessoa querida.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Called Game*

Fico assustada ao ver a eloqüência alheia sendo destilada em depoimentos via orkut. As pessoas amam mesmo assim exacerbadamente? Será que as pessoas amam demais ou eu que acabei amando de menos? Essa efusão ao fazer juras, ao cair de joelhos, ao abrir mão de tudo e de todos sem receio é uma atitude tão esquisita. Está tão longe do que eu mantenho guardado aqui como amor de verdade. Uma vez ouvi alguém dizer que amor é receio. Assino embaixo. Quem ama não sai por aí gritando aos sete ventos, não. Quem quer não sai admitindo porquê, como e onde, não. E, principalmente, quem sofre não é derrubado pelo pranto no meio da rua. Antes de se apaixonar acontece aquele bug, um tilt no cérebro que pergunta se isso é real mesmo ou se é mero devaneio. Não acredito em amor à primeira vista, nem à segunda, mas se você chegar à terceira base é hot corner na certa! Deixo aqui claro que não julgo quem o faz, quero mais que sejam felizes aqueles que há uma semana já amam para sempre e que não acreditam no poeta quando ouvem que o pra sempre, sempre acaba. Quero que abracem o mundo, que entreguem seus beijos a vários, que abram suas pernas pelo valor do sentimento passageiro. Acredito que o que vale é sentir-se bem sendo quem você é e fazendo aquilo que você gosta, todavia aqui vai um aviso aos navegantes: se você faz um home run não quer dizer que o jogo acabou.

*Frases em itálico se referem ao Beisebol.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

A Caneta Bic - Final

Observou de soslaio o vidro em que as folhas bateram e caíram. Não sabia o que fazer, deveria recuperar sua caneta bic ou simplesmente a deixaria ir? Foi ao encontro das folhas, agachou-se lentamente e tocou a tinta das palavras sinceras e sentidas daquela mulher, a força com que aquelas linhas estavam escritas deixou saliente a parte de trás do papel e sua textura era como uma cicatriz recém adquirida, uma lembrança do que marcou profundamente aquela página. E, por mais que ele desacreditasse, marcara também aquela mulher e, por que não, a ele próprio. Levantou-se em um pulo só e abriu a porta da frente sentindo o vento matutino de inverno congelante lhe estremecer os ossos. Enfrentaria o frio que fosse, estava determinado. Quando abaixou para calçar a bota, assustou-se ao se deparar com algumas gotas de tinta azul no assoalho da cabana. Foi assim que ele descobriu como acharia sua caneta, talvez um longo caminho pela frente, talvez o melhor caminho a se seguir e ele a encontraria, custe o que custar.

Desceu a colina analisando as pedras e as folhas, procurando algum vestígio de tinta e foi achando umas gotas aqui e ali e foi tomando um rumo que muito lhe estranhava e lhe partia o coração: a trilha do riacho. Ao chegar na beira da colina em que a descida íngreme dava para o riacho, encontrou a mulher. Sua camisola clara esvoaçava fazendo o movimento da brisa da manhã e ela estava descalça e se equilibrando em uma pedra do ribeirinho de água gelada. Subitamente, ele sentiu um aperto e um calafrio, precisava dizer algo, alguma coisa ali não estava certa, mas nada disse, só abriu a boca e emitiu um ruído qualquer. Ela de repente levantou o olhar para vê-lo, porém o sol já nascia à leste e lhe dificultava a visão, levantou o braço direito para proteger as vistas e deixou seu ombro e pescoço à mostra, fazendo com que o homem que descia cautelosamente a colina tropeçasse em um emaranhado de folhas e se segurasse em uma árvore grossa para se equilibrar. Ela sorriu de deboche e voltou para a margem do riacho raso, sentou-se em uma pedra limpa e começou a lavar as mãos.

Ele foi de encontro a sua querida e segurou firmemente suas mãos sujas de tinta bic e ajudou a lavá-las na água gélida do riacho límpido. Olhou dentro dos olhos dela e sabia que poderia ficar louco daquela maneira. Como entender aquela mulher? Como saber o que se passa naquela mente tão confusa e imprevisível? Mulheres podem nos fazer enlouquecer ou atingir o céu em dois segundos. Ele não sabia se estava louco ou se estava apaixonado, só sabia que nem o frio, nem a inconstância dessa mulher o fariam desistir de seu objetivo. Perguntou pela caneta bic, ela lhe mostrou o coque malfeito no alto da cabeça, ele retirou cuidadosamente a caneta para que não vazasse mais tinta, segurou o fino canudo sem tinta firme no punho e dirigia seu olhar às duas, caneta e amada:

- Não quero suas palavras várias. Não quero saber de suas cicatrizes escritas com sentimentalismo e coesão em duas folhas de papel que possuíram vida própria e se suicidaram na vidraça da cabana. Não quero mais ter que te seguir nesse frio horrível de manhã cedinho e te achar à beira de um riacho. Não quero mais tentar te entender, nem quero saber como estourou minha caneta bic, mulher. E não quero, acima de tudo, tentar explicar porque eu quero você. Quero você. Somente você. Com tudo isso, sem tudo isso. No frio, no calor, em março, em outubro. Quero que você entenda que se você não fosse assim do jeito que é, eu não quereria não querer fazer tudo isso por você. Eu não quereria não querer e faria da mesmíssima forma. Só quero que você entenda que não há explicação e é justamente por não ter uma razão para sermos assim um com o outro que tudo é tão significativo e interessante.

Ele a abraçou e sentiu o corpo dela se arrepiar. Não tinha nem mais, nem menos. Nenhum dizer ajudaria naquela situação. Eles levantaram e caminharam abraçados de volta. Nada disseram até que chegaram à porta escancarada e ao mesmo tempo viraram pra trás, assistindo o primeiro floco de neve cair, iniciando o show de inverno. Ela perguntou o que ele faria sem sua caneta bic agora que ela havia acabado de sangrar sua última gota de tinta em duas folhas suicidas de papel e pintado o caminho do bosque. Ele respondeu que a caneta havia cumprido seu papel, havia escrito o que ele não poderia ter imaginado melhor: uma história não de conto de fadas em que uma fada juntava os pombinhos, mas uma história de inverno em que a protagonista que uniu o casal e que dera sangue e alma ao texto, fora uma simples e encantadora caneta bic.


O pouco continua

Do pouco que pude vislumbrar, sinto-me de mãos atadas a continuar. De que adianta o pouco? Qual a graça de ter uma pequena porção de algo e deixá-la escapulir entre os dedos? Quero ver-te transbordar em palavras, trejeitos, atitudes. O que são pessoas rasas além de falta de conteúdo? Procuro pessoas profundas, que transbordem no que fazem, que podem me passar algo mais que um bocejo matutino. Quero ver-te sorrir exageramente, pular, dançar, rodopiar no ar. Quero sentir-te quente, perto, feliz. Mas, por favor, não me seja raso. Não me seja previsível, com frases cantadas, situações copiadas e atitudes fundamentadas. Quero-te grande, viril, bastante, em abundância, em todo seu corpo, em toda sua alma. Quero abraçar-te e possuir-te em meus braços, quero-te sagaz. Quero sentir-te bem, só isso. E não é pouco, pois que de pouco eu entendo.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

O pouco...

Não me contento com esse pouco que
deveria me ser o suficiente... e é?

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Paradoxal

Eu te amo e te odeio ao extremo. Eu te chamo e te xingo ao mesmo tempo. Eu te enquadro e te desfoco. Eu te puxo e te solto. Eu te afago e te arranho. Eu te quero sem tamanho e te esqueço nesse ponto.

E posso fazer-te poesia à noite e posso sonhar-te, porém nunca pude dizer-te o quanto fora capricho meu, o quanto de vontade tive por ti e o quanto tive medo de te perder. E agora que águas passaram, que chamas queimaram e que o vento pôde levar as cinzas, pude constatar o quanto fui tola e ingênua por acreditar que algum dia pudesse ser importante pra ti ou que pudesse ser desejada em primeira instância e ser única em sua vida. É complicado ser inebriada por um sentimento voraz e depois que tudo passa perceber o quanto foi chulo e leviano. Pois agora passou e agora posso ver-te com olhos, querido, não de quem te teve uma vez, mas olhos de quem você nunca mais terá.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Avisa

Se o sol brilhar de novo no horizonte
E pode ter certeza que eu tô lá pra ver
Se a liberdade te trair e precisar de alguém
Ou se tudo correr bem e não precisar
Parece até que o vento traz o sentimento
E nem faz questão de nos avisar
Pro vento que traz sofrimento
Que sopre pra outro lugar
O vento que traz amor
Não vejo a hora de você chegar...

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Saudade

Pois que metade de mim é areia e a outra está para maresia. Minha parte crespa e irritadiça, está para a areia granulada que não se pode preencher de todo em uma mão, que escorrega e foge e não se pode ser retida parada. Vê-se uma ampulheta, há de se mantê-la sempre em movimento. Já a parte maresia é aquela que não se pode ver, que sabe que existe, que sente a brisa suave e leve, mas que não se pode descobrir de onde vem, por que vem e para onde vai. Pois que metade de mim é inconstância e a outra está para a saudade.