Observou de soslaio o vidro em que as folhas bateram e caíram. Não sabia o que fazer, deveria recuperar sua caneta bic ou simplesmente a deixaria ir? Foi ao encontro das folhas, agachou-se lentamente e tocou a tinta das palavras sinceras e sentidas daquela mulher, a força com que aquelas linhas estavam escritas deixou saliente a parte de trás do papel e sua textura era como uma cicatriz recém adquirida, uma lembrança do que marcou profundamente aquela página. E, por mais que ele desacreditasse, marcara também aquela mulher e, por que não, a ele próprio. Levantou-se em um pulo só e abriu a porta da frente sentindo o vento matutino de inverno congelante lhe estremecer os ossos. Enfrentaria o frio que fosse, estava determinado. Quando abaixou para calçar a bota, assustou-se ao se deparar com algumas gotas de tinta azul no assoalho da cabana. Foi assim que ele descobriu como acharia sua caneta, talvez um longo caminho pela frente, talvez o melhor caminho a se seguir e ele a encontraria, custe o que custar.
Desceu a colina analisando as pedras e as folhas, procurando algum vestígio de tinta e foi achando umas gotas aqui e ali e foi tomando um rumo que muito lhe estranhava e lhe partia o coração: a trilha do riacho. Ao chegar na beira da colina em que a descida íngreme dava para o riacho, encontrou a mulher. Sua camisola clara esvoaçava fazendo o movimento da brisa da manhã e ela estava descalça e se equilibrando em uma pedra do ribeirinho de água gelada. Subitamente, ele sentiu um aperto e um calafrio, precisava dizer algo, alguma coisa ali não estava certa, mas nada disse, só abriu a boca e emitiu um ruído qualquer. Ela de repente levantou o olhar para vê-lo, porém o sol já nascia à leste e lhe dificultava a visão, levantou o braço direito para proteger as vistas e deixou seu ombro e pescoço à mostra, fazendo com que o homem que descia cautelosamente a colina tropeçasse em um emaranhado de folhas e se segurasse em uma árvore grossa para se equilibrar. Ela sorriu de deboche e voltou para a margem do riacho raso, sentou-se em uma pedra limpa e começou a lavar as mãos.
Ele foi de encontro a sua querida e segurou firmemente suas mãos sujas de tinta bic e ajudou a lavá-las na água gélida do riacho límpido. Olhou dentro dos olhos dela e sabia que poderia ficar louco daquela maneira. Como entender aquela mulher? Como saber o que se passa naquela mente tão confusa e imprevisível? Mulheres podem nos fazer enlouquecer ou atingir o céu em dois segundos. Ele não sabia se estava louco ou se estava apaixonado, só sabia que nem o frio, nem a inconstância dessa mulher o fariam desistir de seu objetivo. Perguntou pela caneta bic, ela lhe mostrou o coque malfeito no alto da cabeça, ele retirou cuidadosamente a caneta para que não vazasse mais tinta, segurou o fino canudo sem tinta firme no punho e dirigia seu olhar às duas, caneta e amada:
- Não quero suas palavras várias. Não quero saber de suas cicatrizes escritas com sentimentalismo e coesão em duas folhas de papel que possuíram vida própria e se suicidaram na vidraça da cabana. Não quero mais ter que te seguir nesse frio horrível de manhã cedinho e te achar à beira de um riacho. Não quero mais tentar te entender, nem quero saber como estourou minha caneta bic, mulher. E não quero, acima de tudo, tentar explicar porque eu quero você. Quero você. Somente você. Com tudo isso, sem tudo isso. No frio, no calor, em março, em outubro. Quero que você entenda que se você não fosse assim do jeito que é, eu não quereria não querer fazer tudo isso por você. Eu não quereria não querer e faria da mesmíssima forma. Só quero que você entenda que não há explicação e é justamente por não ter uma razão para sermos assim um com o outro que tudo é tão significativo e interessante.
Ele a abraçou e sentiu o corpo dela se arrepiar. Não tinha nem mais, nem menos. Nenhum dizer ajudaria naquela situação. Eles levantaram e caminharam abraçados de volta. Nada disseram até que chegaram à porta escancarada e ao mesmo tempo viraram pra trás, assistindo o primeiro floco de neve cair, iniciando o show de inverno. Ela perguntou o que ele faria sem sua caneta bic agora que ela havia acabado de sangrar sua última gota de tinta em duas folhas suicidas de papel e pintado o caminho do bosque. Ele respondeu que a caneta havia cumprido seu papel, havia escrito o que ele não poderia ter imaginado melhor: uma história não de conto de fadas em que uma fada juntava os pombinhos, mas uma história de inverno em que a protagonista que uniu o casal e que dera sangue e alma ao texto, fora uma simples e encantadora caneta bic.