sábado, 31 de janeiro de 2009

Assim mesmo

Talvez tudo tenha que ser assim mesmo. Tudo tão instável, tão incontrolável, tão devastador. Uma coisa nunca será uma coisa, haverá sempre um segundo ou terceiro ponto de vista. E você continua na busca frenética por aceitação ou por desejos e sonhos reprimidos. Chega a ponto de dizer que está completo. E está? Nós algum dia estaremos contentes e completos? Insatisfação crônica. É isso mesmo? Mudamos de acordo com a maré. A lua nos guia, nos molda, nos aproxima. Nós só buscamos o que não conseguimos alcançar, pois que, quando atingido, o objetivo se torna banal? Até quando há de se manter nesse ciclo? Saber o que quer é realmente preciso? Basta-se saber o que não quer? O que basta pra ti? Qual o seu limite? Talvez eu queira algo que ainda não existe, alguma coisa que ainda não foi criada, um lampejo de luz. Se eu soubesse o que eu quero de verdade, eu caía no mundo, sem medo, sem hesitação. Porém como descobrir se aquilo que se deseja vai ser desejado pra sempre? Como saber se em um breve período de tempo, o desejado não se tornará comum e gasto? Será sempre essa busca incansável por algo que quando chega deixa de ser tentador?
Sim, talvez tudo tenha que ser assim mesmo.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Manoel de Barros

Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:
a) Que o esplendor da manhã não se abre com faca.
b) O modo como as violetas preparam o dia para morrer.
c) Por que é que as borboletas de tarjas vermelhas têm devoção por túmulos.
d) Se o homem que toca de tarde sua existência num fagote, tem salvação.
e) Que um rio que flui entre dois jacintos carrega mais ternura que um rio que flui entre dois lagartos.
f) Como pegar na voz de um peixe.
g) Qual o lado da noite que umedece primeiro.
Etc.
etc.
etc.
Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Cadê

Joga tudo pra cima, esquece quem tu és. Troque os pés pelas mãos, diga barbaridades, cave o mais fundo que puder. Quando seu rosto estiver petrificado, quando sentir os caminhos de lágrimas escuras se ressecarem, quando observar as unhas sujas de terra, quando sentir cada pedaço pífio seu se desmoronar a olhos nus, saberás que estás sozinha. Quando não descobrires que face é aquela estampada na poça, vais saber que estás perdida. E quando isso acontecer, vais sentir a maior dor que existe: a do vazio. E como dói. Uma dor que vem não sei de onde e dói não sei porquê. Uma lacuna há muito não preenchida, falta de alicerces, de suportes, de muletas. Parafraseando Esquadros da Calcanhotto: eu escrevo para quem? Eu ando pelo mundo e meus amigos, cadê? Minha alegria, meu cansaço? Meu amor, cadê você? Eu acordei... e como sempre, não tem ninguém ao lado.

*Mulher com gravata preta - Modigliani
(as mulheres em seus quadros estão a contemplar mesmo sem ter olhos)

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Três sabores, três dias

Íncubo
Ante vós, nada sois senão temperos. Pequenas migalhas de sabores distintos, usados moderadamente, sem ardil. Pitadas únicas de gostos duvidosos e de textura congênita. Todavia, há de se adivinhar que quase nada se sabe e muito se presume de vós: chili, salsa e canela. Saiba que usados sem aviso prévio, podem causar diversos sintomas e agonias, porém, quando muito bem misturados, tornam cada instante uma explosão de sensações.

Há de se crer que chili e salsa no mesmo prato podem deixar tudo apimentado demais, forte demais, intenso por demais. Precisa-se saber dosar a quantidade investida de cada ingrediente para deixar chili e salsa habitar a mesma panela. São tão absurdamente díspares que quando juntos distorcem os sentidos, provocam rubores, atiçam a boca, fervendo o sangue e acendendo o corpo. Já canela não é jogada assim no meio da comida, da entrada por assim dizer. Canela é misturada à sobremesa, para adocicar, para acalmar o paladar depois do primeiro prato conturbado. Foi feita para apaziguar os ânimos, equilibrar as vontades, suspirar umas verdades.

Parece até simpatia de ano novo. São três sabores, experimentados durante três dias consecutivos, não muito bem variados em quantidade, mas muito bem balanceados em refeições. Há de se experimentar, ora para dar seu aval, ora para matar a curiosidade. Todavia, explico que precisa-se de paciência para domá-los e, principalmente, de reabilitação para largá-los, pois posso dizer por experiência própria: eles viciam.