Hostess
A vida, além de compacta, é compartimentada. Como um trem com seus vagões, como uma loja de departamentos, como um navio de luxo cheio de cabines. A minha é um grande hotel com os elevadores especiais, a área para fumantes ou a saída de emergência. Dividir é necessário. A vida nunca suportará todas as pessoas e todos os momentos vividos em um loft com os ambientes integrados. Serão necessários altos andares, espaçoso hall de entrada e um escuro porão para guardar a tristeza. Algumas pessoas você mantém lá em cima, na cobertura, só apreciando a vista. Outras ficam zanzando entre o bar ou salão de festas. Raramente os setores se conectam, determinadas turmas de amigos nunca se conhecerão, alguns são perfeitos para longos papos, outros para a sinuca de jogo rápido. A família não pode conhecer essa ou aquela amizade, você não pode apresentar aquele ex para o namorado e aquele cara do escritório não sai com ninguém. Os setores se separam e cabe a você uni-los de certa maneira. Você não tem uma vida só, você tem várias nas mãos. Haja fôlego para percorrer cada corredor e falar com todo mundo. Você começa a desempenhar mais de um papel, dependendo do dia e da hora. Por isso que você jamais deve se definir, não deve se limitar a isso ou aquilo. Nós somos feitos de vários andares e companhias. Nós somos feitos de muitos. Eu sou a hostess da minha vida, não a dona. É difícil coordenar tudo, administrar a entrada e saída de pessoas, agendar os eventos, evitar os conflitos, trabalhar em tempo integral, resolver os problemas, trocar de roupa, passar a maquiagem, lembrar das falas, sorrir para todos e pular de um quarto pro outro. Todavia, ninguém disse que viver seria uma tarefa fácil.





4 Comentários:
Este comentário foi removido pelo autor.
Essa alegoria que você descreve é formidável, Andira. Gosto demais da forma como você se deixa inspirar e solta o verbo!
Bj, boa semana...
Ah, mas bem que podia ser... Sou péssima hostess. Quando me canso de tudo, vou embora e deixo a cerveja esquentar.
Acho que é bem por aí mesmo.
Eu sempre fui um cara conciliador, mas aprendi com o tempo que certos espaços tem mesmo que ser preservados, que certos limites tem que ser estabelecidos.
Muito bom o insight e o texto.
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