Tempo meu
Tempo Rei - Gilberto Gil. Clique e ouça.
01:23São noites longas como essa - quando a madrugada começa mais cedo do que de costume - que eu me pego pensando na vida e nos anos de distância entre nós. Tua pele tornou-se meu abrigo, meu mapa para algum tesouro escondido. Todo cuidado para manusear-te é pouco.
02:57
Duração das horas, vento lá fora, frio aqui dentro. Preciso cerrar meus olhos e trancar as portas. Sentir-te aqui comigo, imaginar tua silhueta no colchão, teu formato e volume sob o edredon, tua cabeça nas minhas almofadas, tuas mãos nas minhas curvas. Saber que me acostumei contigo e saber que tenho que me desacostumar. Não dormir, deixar que o tempo faça o seu melhor.
03:11
Deixo ou não nosso tempo passar?
Que horas são?
04:44
Toda vez que olho para o telefone, penso em te ligar. Sem motivo, sem o que dizer, só para ouvir o tom grave da tua voz. Lembro do movimento dos teus olhos quando dormes, do teu cheiro de fruta-do-conde. A cada minuto que se arrasta, sinto uma vontade incontrolável de ir a teu encontro no meio da noite só para velar teu sono novamente. Creio que ainda posso te escrever uma carta.
06:09
O dia amanheceu, a noite foi mais longa do que de costume. Rasgo o papel que escrevi coisas sem sentido pensando em te entregar. Uma carta cheia de rasuras, uns desenhos absurdos e umas palavras soltas: minha forma, meu conteúdo, meu sol, minha lua, minha noite e meu dia. Minha intensidade, minha ternura-violenta, meu prazer, minha obediência-resoluta. Meu rei, meu pão, meu porém, minha vírgula, meu senão. Meu tudo, meu nada, nada meu. Seja meu.





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