domingo, 23 de agosto de 2009

Sonho de Valsa

Valsinha - Chico Buarque. Clique e ouça.

Certa noite, eu não tinha mais palavras para escapar das perguntas inquisitivas dele e, enquanto buscava alguma saída entre a ardósia que cobria o pátio embriagado pelo luar, ele resolveu encostar em mim. Percebi um avanço sutil e discreto através de seu reflexo no chão recém encerado, afastei-me com um passo tímido para trás e, como em uma valsa, no exato instante em que me distanciei, ele se aproximou com um passo à frente. Hesitei em deixar sua mão quente tocar meu queixo congelado - talvez pelo choque térmico, talvez pela falta de respostas -, mas dentre todos os males daquela noite, o toque dele não seria o pior. Ele levantou meu rosto e meu olhar fugiu, procurando algum canto para se esconder.

Durante minutos intermináveis, nossos olhares custaram a se encontrar numa brincadeira de gato e rato sem fim. Entretanto, acabei paralisada por aquelas duas mãos e, em uma única sacudida, fui obrigada a encará-lo mais uma vez. A distância entre nós, finalmente, desapareceu. Logo, não havia mais minutos para contar, não havia mais frio para sentir, não havia sequer luar para iluminar. Ele já não sentia a ponta de seus dedos e eu não conseguia mais discernir em que ponto meu corpo terminava e o dele começava. Foi naquela noite que deixamos para trás o que pensávamos ser e revelamos quem nós realmente somos. E o dia amanheceu em paz.

2 Comentários:

# 25/8/09 01:30, Blogger O Consultor falou...

Olha, eu mal lhe conheço, sigo seu blog, por recomendação de uma pessoa. Desde que comecei a lê-lo sinto que algo mudou (mexeu) comigo. Este post em especial. Vc começa falando sobre as perguntas inquisitivas dele, imagino eu que seja o cara que ama vc e vc o ama... porque ainda existem esses tipos de perguntas?? E porque não respondê-las? Eu faço muitas perguntas também a mulher que amo, mas odeio quando as respostas viram silêncio ou passada algumas horas de comentários vazios, acaba em sexo. Cadê as respostas, além de estar na mente de quem perguntou? Pena que só vai cair a ficha que não houve resposta quando vem o solidão de não conhecer quem diz ti amar...
Quero também lhe pedir desculpas, de repente é somente um post e eu tô criando uma tempestade. Desculpe-me... solidão é uma "m."

 
# 25/8/09 08:14, Blogger Andira Medeiros falou...

Ok, vamos por partes. Quando o assunto são duas pessoas, sempre haverão perguntas. Acredito que amar é questionar e, já que o Amor não tem significado unânime, creio que algumas perguntas não devem ter respostas.

Saiba que eu não costumo fugir de perguntas, prezo demais pela sinceridade. Todavia, a protagonista do texto não sabia ou não queria responder às perguntas inquisitivas de seu parceiro. É um direito dela, afinal.

Solidão é um estado de espírito, converse com a mulher que você ama. Depois de um bom diálogo, tudo se acerta (de um jeito ou de outro). Obrigada pelo comentário, volte sempre!

 

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