Falta de companhia
É como a maré acelerada que vai e vem, que preenche e esvazia quase no mesmo instante. Uma redundância de sentimentos, uma incoerência de vontades e uma necessidade quase imperceptível de solidão. Logo eu, que adoro dar nomes às coisas, não acho palavras para expressar essa minha falta de companhia. Há de se domesticar esse sentimento e não ignorá-lo como o fazem. Se não o fizer, ele irá inundar minha casa, vasculhar minhas gavetas, beber das minhas garrafas e virar minha vida ao avesso, tudo para encontrar o seu canto. Ela não irá embora até que eu a coloque frente a frente e a trate com o devido respeito. Hei de colocá-la no colo como uma mãe faz com sua cria, niná-la com alguma cantiga esquecida, ouvir seus gritos de fome e oferecer-lhe meu seio como alimento de seu silêncio. Preciso ludibriar essa criatura só minha e amansar seu corpo, fazendo com que ela crie uma confiança em minhas delicadezas e palavras de carinho, hei de acarinhá-la e trazê-la para junto do peito e, como uma loba faminta, hei de devorá-la. Pois que para me tornar completa novamente, hei de engolir essa falta.





2 Comentários:
Dorei o jeito lúdico e íntimo de escrever. Ganhou mais um leitor. ;)
Seja bem-vindo, Dan!
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