Memórias de uma vida passada:
Baby, I'm a Fool - Melody Gardot. Clique e ouça.
Eu fingia que dormia de bruços com os braços embaixo do travesseiro e com o cabelo negro jogado de lado. Sob a cama ainda quente de nossos corpos, somente um lençol branco cobria parte de meu corpo, o resto estava à mostra. Ele havia levantado. Eu o vi vestir a camisa de estampa hawaiana ridícula, mas reparei que ele não a abotoou. Talvez por calor, afinal já era meio dia, talvez por esperança de voltar para debaixo de meu lençol. Vestiu a calça, puxou uma cadeira e a posicionou de frente para a cama e de costas para a janela.
Antes de se sentar, abriu a persiana e raios dourados de sol e perfume de girassóis transbordaram o quarto com sombras assanhadas. Resmunguei, mas ao invés de mudar de lado e ficar de encontro à parede, virei de barriga pra cima. Abri lentamente os olhos e os protegi com as costas da mão, procurando sua silhueta no contraste escuro entre a luz da janela e a quina da cama. Sentado a seu modo na cadeira, ele acendeu um cigarro e em sua outra mão estava a única taça de vinho que eu pude servir na noite passada. Ainda com a marca de batom, minha taça ainda estava pela metade. Fixei meus olhos apertados naquele contorno, mas somente a fumaça do cigarro esboçava algum movimento, ele estava hipnotizado.
Puxei o lençol amarrotado e o enrolei em meu corpo, peguei um lápis na cômoda e fiz um coque no cabelo. Ele não tirava os olhos de mim. Levantei-me e caminhei em sua direção, sentei em seu colo, tirei o cigarro de seus dedos e dei uma tragada, depois tirei a taça de sua mão e dei um gole. Em seguida, segurei seu rosto com as duas mãos e dei um beijo demorado de olhos bem fechados. Coloquei-me de pé, andei até a porta do banheiro sabendo que seus olhos me acompanhavam e antes de entrar, deixei o lençol finalmente cair.




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