segunda-feira, 29 de junho de 2009

Peles, mares e saudades

Chega de Saudade - João Gilberto. Clique e ouça.

Ele me apontou a distância até o oceano e me contou uma anedota sobre como essa distância é menor que o calor crescente entre nossas peles e eu fingi que não entendi, porque me disseram que mulher tem que parecer vulnerável. Ele não soube continuar a conversa, então eu lhe dei uma ajuda dizendo que esse limite tão único e tão nosso, que delimitava o começo de minha pele de encontro à pele dele, era nada mais que química de nossos corpos. Ele me encarou com estranheza, mas disfarçou sua admiração, pegou minha mão e me mostrou suas cicatrizes. Aquela aos nove anos com um anzol naquela mesma enseada, aquela outra aos onze por tentar andar de bicicleta na areia e aquela mais acima que eu não me lembro qual foi a travessura de veraneio. Não me recordo, mas respeito cada uma de suas marcas, suas recordações, suas histórias. Prometo prestar mais atenção próxima vez, se houver mais um encontro de verão como aquele, claro. Torço para que sim e, apesar da praia estar tão distante de mim quanto nossas peles, hoje vou encostar a cabeça no travesseiro e dormir com o cheiro do mar nos cabelos molhados.

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