Vem cá, menina
Vem cá. Eu disse vem cá, menina linda. Chega mais perto, entrega-te. Joga-te em mim, apóia tua cabeça em meu ombro e derrama toda tua noite em lágrimas no meu colo. Esqueça de tudo o que te apaga as cores, o que te machuca, o que te confunde. Tudo isso não te pertence mais quando tu estás comigo. Aqui, junto de mim, tu estás segura. Aqui do meu ladinho, tu não tens mais o que temer, tua sofreguidão vai embora. Deixe de exigir tanto de si mesma e de se penar sobre a seca de Abril, pois saiba que sua dor tão doída de Lispector nada mais é que auto-projeção e Freud explica teu sofrimento. Tu és única e miúda, mulher faceira, de beleza enigmática e de fala comprida e mansa. Mostre-me seus dentes. Um de cada vez teu sorriso ilumina minha vida, enxugue esses teus olhos, tuas dores passarão ao meio-dia e eu, passarinho. Pondera esse teu olhar, sustenta essa tua leveza, põe tuas cartas na mesa, pois hoje eu vou te levar onde tu jamais foste e eu te quero aqui, com a cabeça em meu ombro. E o resto? O resto é pó, bobagem, maresia. Agora não, só quero teu silêncio e teus pensamentos guardados em meu colo. Põe aquela música que ouvimos mais cedo, aquela da Aretha, pois hoje a noite vai ser longa. Por isso, eu insisto e repito: vem pra cá, menina linda, transforma-te em mulher.





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