domingo, 26 de abril de 2009

Amor de sertanejo

Eu sabia que quando você levantasse os olhos eu não conseguiria enxergar seu longo olhar sob o chapéu de palha antigo, mas mesmo assim eu tentei disfarçadamente entender sua expressão sisuda. E sabia também, pois que de todas as coisas que poderia vislumbrar entre um feijão e outro recolhido, era que você jamais me olharia novamente, não daquele jeito. Eu poderia acreditar que você, ao tirar o chapéu e enxugar a testa suada, desviaria o olhar para o horizonte, onde eu não poderia mais buscar, isso estava claro pra mim, assim como o dia que nasce sempre ao leste. Nunca pude crer, todavia, em sua existência pacífica ao meu lado durante tanto tempo, seu toque sutil e educado em contrapartida aos seus beijos salgados e suas carícias voluptuosas em minhas curvas. Talvez insegurança, talvez vergonha de mim e meu vestido de tecido fino e desbotado, não sei bem ao certo. Naquela mesma tarde você partiu e deixou um bilhete mal escrito dizendo que me amava, mas que não voltaria para essas terras marcadas de areia e solidão. Eu voltei pra cozinha para terminar de catar meu feijão, onde era meu lugar. Não tinha direito ao amor, não naquela época, não por aquelas bandas de sol quente e alaranjado e, muito menos, não por você, querido sertanejo.

2 Comentários:

# 27/4/09 17:36, OpenID meunonsense falou...

VOCE É OTIMA, MENINA! Sem comentários!

 
# 15/5/09 04:43, Blogger Andi falou...

Que nada, são seus olhos lindos que acham isso, mero devaneio, mas mesmo assim obrigada, Tassi, querida.

 

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