A Caneta Bic - Parte II
"Do amor que tive, deixo-lhe umas linhas:
Poderia eu escrever-lhe aqui nesta carta tantas das cousas várias que gostaria de te dizer pessoalmente, entretanto - como se toda essa várzea aqui tivesse explanação - não consigo, não posso, nunca poderia. Jamais poderia escrever-lhe sobre os tantos desejos que nutri em minha mente utópica, quantos foram os talvezes questionadores ou os poréns graúdos que brotaram como daninhas em meus vastos campos que hoje, nesse inverno congelante, hão de hibernar. Que tu foste meu, posso afirmar aos sete ventos. E que nossas estrelinhas são como peças de colecionador, isso são. Basta olhar pra ti e saber que tu tens três das mais reluzentes e isto já é o suficiente, como uma condecoração. Contudo, como a memória já me falta e a visão já me denegria, posso recordar-me mal dos números e das cores, porém posso sentir-lhe jovem e sagaz por um dia ter se juntado a mim como fizera e que não importando o número ou o brilho, saiba que recebeste estrelas minhas e que essas não são distribuídas assim a esmo.
Que poderia dizer do quanto quis poder tê-lo só pra mim, mas não pude me dar ao luxo de enganá-lo com alusões vagas e dizeres mal-ditos. Pois que para tê-lo pra mim, eu precisaria me desprender de um pedaço significativo de um senão impreciso que como brinco está pendurado em mim. E que, só quando eu puder me soltar desses laços cortantes como farpa é que poderia vir a um dia querer-te de novo e quem sabe, se puderes fazer-me direito e se, quem sabe, um dia puderes me querer como outrora te quis, possamos ficar mais uma vez juntos, seja por um instante nessa vida, seja em um plano mais alto da evolução divina. Pois que para escrever basta-me espaço para os dedos e cotovelos. E que, para umas palavras formarem uma lembrança, falta-me ser alada para levar a ti dizeres secretos de quando pude estar contigo e fugi. Ou de quando tu pudeste estar comigo e fugiste. E quem sabe num futuro próximo possamos estar um para o outro assim como estivemos e que nesse momento, encontremos harmonia e coragem para não fugir do que nos foi reservado. Se é que tudo isso ainda vai vir a existir.
Ora, já me expus como carne de ovelha quando tosada, se já expus minhas entranhas à faca de um açougueiro e não fui, ou não pude ser sincera sobre minhas vontades e angústias. Pois tive que encarar cada coisa de uma só vez e esqueci de que pessoas se magoam freqüentemente e que não basta ser solene e justa, precisa-se saber sobreviver e por que não, saber se poupar para trazer felicidade à outrem, para expressar não só em palavras, mas em gestos profundos, a alma que inquieta não sabe se controlar e que devastadora atrai a quem menos se espera e faz o que quer sem leis nem comandos. E quem há de sofrer? A mente, pois em vã irracionalidade tenta controlar aquele ímpeto de sobreviver em meio a indecisões quanto ao que fazer de sua própria vida e, digo mais, da vida dos outros. Pois que para ter esse poder mediúnico, há de se privar de certos privilégios e viver uma vida regrada. Há de se querer alguém pra si e não mais ninguém, pois a partir do momento que eu lhe digo que te quero, esses meus quereres podem vir a magoar outra pessoa e vice-versa. E ao avesso. E ao infinito. Além..."
O vento cortante fez com que as folhas com as palavras se perdessem no ar e se encontrassem num baque surdo na vidraça da janela fechada. Ele vislumbrou a mesa redonda da copa, sua toalha era uma cena de crime perfeito, com marcas da caneca de café, uma tampa de caneta azul e lágrimas femininas. Só duas coisas faltavam naquela cena: a mulher e, novamente, aquela peça peculiar, sua caneta bic.
Continua...
A Caneta Bic - Parte I
A Caneta Bic - Parte I





2 Comentários:
Tento de maneira tola encontrar maneiras de comentar uma perfeição em forma texto, se é que se pode chamar assim este dito cujo , leio esse blog a quase um ano, já li ele todo, e afirmo quase(sim quase) sem medo de errar, que esse é um dos melhores textos q li aqui e na internet inteira.
Sou meio suspeito, afinal me identifiquei demais com o que escrito aqui está.
"... e que a coragem e a vontade que tenho de você, façam com que o tempo e a incerteza passem despercebidos..."
Sallute
a tanto tempo eu não passava aqui, como na parte I, to esperando a proxima...rs, muito massa.
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