terça-feira, 25 de outubro de 2011

A Folha em Branco

Cá estávamos nós, com olhos fixos um no outro. Desconfiados e sem intimidade para dizer coisas realmente verdadeiras, pelo menos não tão verdadeiras quanto eu gostaria de dizer. Aqueles desabafos que não pensamos ou não nos preocupamos com o impacto que poderão causar naquele que ouve ou que finge ouvir. A verdade, todavia, não precisa ser dita. O poeta é um fingidor e não ignoro que você esteja lendo o que eu escrevo. Não acredito nessa espécie peculiar de absolvição: como se, no ato de escrever, eu estivesse expulsando meus demônios eloquentes em um confessionário. Acredito que, talvez inocentemente, aquele que absolve não está acima ou abaixo, mas dentro de nós mesmos. E continuo escrevendo rapidamente palavras em um espaço branco na folha, matando linhas, engolindo parágrafos. O grande problema é que, como no decorrer de nossa vida, quanto mais letras você jogar em uma página, mais espaço sobrará para ser vasculhado. Para alguns, a vida é um folha vazia esperando ansiosamente para ser preenchida com lembranças e memórias. Para outros, ela não passa de um livro imenso que precisa ser devorado palavra por palavra até seu ato final, o epílogo. Para mim, a vida é um caderno de caligrafia: há de se rabiscar inúmeras vezes para que possamos corrigir nossos erros e aprender a lição.

sábado, 11 de junho de 2011

Voltei a escrever


E se houvesse alguém a carregar uma flor, só houvesse um alguém e mais ninguém, que na nossa relação durasse mais e que não se magoasse por coisas triviais, que fosse verdadeiro e que a verdade, toda a verdade, apenas a verdade, nada menos que a verdade expusesse sem medo de retroceder. Percorreria a cidade na qual estou sem saber muito bem o porquê, apenas aprendi que certas contingências não são endereçadas e que, a partir de perguntas, não devemos esperar confidências planejadas. E se depois houvesse alguém que dissesse que não estamos preparados, e nos perguntaríamos se estaremos preparados para quê?, preparados para nascer e crescer e morrer?, preparados para viver, penso eu, juntos. E se eu fosse a única da família que teria vontade de caminhar a plenos pulmões, sem a preocupação de talvez escrever um testamento e voltar a escrever um texto coerente que há muito tempo não consigo, não porque não quero, mas porque não me vejo mais carregando uma flor. E se houvesse alguém, quem quer que fosse a segurar o caule sem espinhos e o atirasse cova rasa abaixo, esse não seria eu. Eu já estaria enterrada a sete palmos no chão.

* Fotografia: Lilya Corneli

domingo, 20 de março de 2011

Tempo para quê?

Eu já não sei escrever, não como antigamente. E isso é culpa do amor. Digamos que o amor é e é tanto que já não se sabe se existe. Porque quem ama ou que venha a amar, deixa teu verbo no intransitivo, pois não sairá ileso de lá. Dissídio ou fome de palavras vagabundas, dores de vida sem finalidade ou coerência. Porque quem escreve ou que venha a escrever, deixa teu verbo no infinitivo, pois não haverá consciência. Digamos que o amor é e é tanto que já achei graça no seu caminhar erradio. Porque agora que passou o verão, os cachos desceram para o pescoço e acariciaram a nuca, uma vez que o lápis beijou o chão. Já dizia um poeta não muito conhecido que, se você não tem tempo para ler, você também não tem tempo para escrever. Despeço-me, pois hoje eu só tenho tempo para amar.

domingo, 28 de novembro de 2010

Let it go

Aquela certeza de já ter feito tudo o que estava no alcance de suas mãos e a incerteza de não saber se o que está fazendo é o correto faz a cabeça latejar. O grande receio que persegue as pessoas à noite sempre será estocado entre as mãos e a cabeça. Tudo isso deve ser deixado no travesseiro, peça fundamental para estoque de pensamentos inacabados, ele será aconchegante e macio quando necessário e insuportavelmente silencioso para guardar nossos talvezes, serás e todavias. Só existe um dia em que nada pode ser feito: o dia da nossa morte. Quando esse dia - do juízo - final chegar, não adianta tentar acertar as contas. We just need to let it go.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Silêncio

Nenhum dos dois sabe bem ao certo o que fazer com o silêncio que paulatinamente surgiu entre nós. De um dia para o outro, transformamo-nos em pais. Talvez possamos domá-lo como nossa cria e niná-lo nos braços como filhote nascido do meu próprio ventre. Darei meu colo como acalanto e meu seio como alimento. Temos um mundo inteiro para mostrar e, muitas vezes, vamos nos perder em nossos ensinamentos. Todavia, vamos continuar em frente e, quando nosso silêncio estiver crescido, quando ele se tornar mestre e nos rebaixar a aprendizes, seus últimos minutos de vida chegarão ao fim. Logo, estaremos nos perguntando o porquê de termos nos dedicado tanto tempo a algo tão efêmero, sem saber que a entrega não está no ato de trazê-lo para perto de si e, sim, em deixá-lo seguir em frente.

domingo, 1 de agosto de 2010

Chapeuzinho Vermelho

Lonesome Road - Crooked Still. Clique e ouça.

Pela estrada afora, o que permanece ao nosso redor é somente a sensação de perda recorrente, seja da paisagem que corre depressa através do olhar atento, seja do vento que preenche os pulmões. A mudança rápida de aromas mornos no ar só ressuscita o lobo que vaga rastejante pelas curvas da rodovia à espreita de carne para o seu banquete. A estranheza ressalta o brilho azulado da madrugada e o céu lavado da noite anterior cai devagar atrás das encostas sem nome. Fitar seus olhos de cores nunca antes mencionadas, desse verde sutil que não existe em nenhuma palheta, mistura ingredientes misteriosos dentro de mim mesma. E percorro o estágio da euforia extenuante ao da segurança plena ao perceber que ali, ao seu lado, lobo nenhum irá rasgar minha pele revelando meus medos. Quando nosso regresso acontecer, as saudades dos semáforos serão servidas como piquenique na sua cesta de guloseimas. Nessa velocidade que amedronta quem de fora observa, saberei que ali, mais uma vez ao seu lado, a estrada não será tão solitária quanto costumava ser.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Animal

Animal - Pearl Jam. Clique e ouça.
"I'd rather be... I'd rather be with... I'd rather be with an animal."

Falo do instinto animal de espera e não da racionalidade exacerbada. Deveras são as necessidades para se resolver na urgência do dia-a-dia. Muitas vezes, é preferível esperar conscientemente por aquilo que se quer, visto que nossos atos indicam precipitação e nossa memória pode nos pregar uma peça de arrependimento. Falo dos movimentos que precisam ser calculados. O ato de observar e guardar pra si as insignificâncias involuntárias. Veja através do tempo que se arrasta sob a pele cinzenta marcada pelo inverno, como conjetura subcutânea ou sucedânea das minhas várias esperas. Falo da efemeridade das coisas e dos sentimentos humanos. Os animais respiram controladamente e esperam os minutos suficientes para o ataque. Sem esperar ou aguardar, sem relutar um instante sequer. Desconhecer a anestesia, sobreviver à base da pressa cotidiana. Saber que o silêncio antecede o bote. Falo da boca pra dentro, porque da boca pra fora eu só posso me calar. Animais não conseguem falar.

domingo, 25 de abril de 2010

Antropofagia

- Enquanto tu estiveres acordado, ainda posso te ter. - minto.
Deitada na cama, com os braços para trás, deixo-me ser acariciada. Descubro um dos teus segredos inconfessáveis no momento em que tua mão pousa entre os meus seios. Tu escondes tua antropofagia embaixo das unhas roídas e teus impulsos sádicos são guardados entre os teus cabelos compridos. Ao estender a palma da tua mão no lado esquerdo do meu tórax, deixaste claro teu desejo de abrir meu peito ao meio e puxar meu coração pra fora. Sentir o músculo ainda quente pulsar entre teus dedos e fincar teus dentes no tecido frágil está entre tuas fantasias mais excitantes. Passar tua língua na ferida aberta, saciar tua sede no caminho de sangue que escorre de minha pele para ser absorvido pelos lençóis rendados, enquanto nossos corpos nus se encontram escorregadios e manchados de vermelho.
- Enquanto tu estiveres viva, ainda posso te perder. - mentes.

* Fotografia: Lilya Corneli

Retábulo de Santa Joana Carolina

"Reclamava, fazia-lhe censuras, insultava-a, insistia nos males da soberba. Sua resposta, uma vez: 'O senhor não deixa de ter certa sabedoria: fala do que conhece.' Decidi propor-lhe casamento. Não tive boca para dizer-lhe as palavras, nem mesmo quando soube que estava de partida. Tive-lhe ódio, durante alguns anos. Emprenhava as mulheres e detestava os filhos que nasciam porque nenhum era seu. Com o tempo, o ódio foi passando, veio uma espécie de enlevo, talvez de gratidão. Acabei achando que Joana Carolina foi minha transcendência, meu quinhão de espanto numa vida tão pobre de mistério."

"Retábulo de Santa Joana Carolina" de Osman Lins.
Não me recordo muito bem ao certo, dentre tantas citações e leituras rápidas que fiz por livros online - fiz não, faço, eu sempre faço leituras rápidas para aguçar a inspiração -, no entanto, minha memória é traiçoeira. Resumindo, quero ler esse livro inteiro do Osman Lins, "Retábulo de Santa Joana Carolina". Acabou de entrar para a minha extensa, porém seleta, lista de próximas aquisições.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Metaforizar

Preste atenção, amor:
Tu não podes me dizer que vais embora. Não sou folha gasta de caderno juvenil que você rasga ao errar alguns versos. Sou página da Bíblia que tem a lateral dourada e é pecado você sequer criar orelha, quanto mais arrancar. Tens que me ler de perto, usando óculos de grau e passar os dedos no relevo dos meus sermões. Tens que decorar meus parágrafos e gravar meus dizeres.

Ouça-me bem, amor:
Tu não podes me descartar assim da sua vida. Não sou uma trepadeira que se poda quando se está grande demais. Sou erva daninha que se entrelaça entre as frestas da tua muralha, quase impossível de arrancar. E quando notares, estarei enrolada em tuas pernas e braços, costas e curvas. Tens que deixar que eu tome conta de ti para proteger a sua defesa. Tens que me fazer florescer.

Ainda é cedo, amor. Mal começaste a metaforizar.

sábado, 27 de março de 2010

Conjugação de verbo

- Aqui é o começo da nossa própria perdição.
- Há de se perder para poder se encontrar novamente.
- Não estamos acostumados com perdas significativas.
- Já estou acostumada a perder você a cada dia.
- Vê se não perde essa sua eloqüência toda.
- Perca suas mãos entre as minhas coxas.
- Perdê-las-ei uma última vez.

domingo, 7 de março de 2010

Morte à luz

Pagan Poetry - Björk. Clique e ouça.
Íncubo
Seus tentáculos envolviam e brincavam com sua sobremesa, enquanto eu procurava o interruptor elétrico com as mãos suadas e afoitas. Antes dos olhos se assentarem fixos no objeto de desejo, a boca estava ocupada ensaiando a cena cinco do segundo ato. Sentada em seu colo rebolava sua querida e experiente professora, cuja lição mais valiosa é o encaixe perfeito entre a alma e o falo. Entretanto, seu olhar de caçador já mirava outra presa, aquela tateando a parede. Depois da primeira, segunda e terceira morte, não há escapatória ou ressurreição ereta, muito menos disposição. Quando da luz se fez a caligem, ouvi de relance um gemido de negação e um gesto típico de derrota. Mergulhado no breu de si mesmo e na vontade reprimida pelo cansaço, a carícia virou simulacro. E não mais que o lado contrário da luz, a treva tornou-se sua fiel antecessora.

sábado, 6 de março de 2010

Cheer the hell up

sábado, 20 de fevereiro de 2010

O Mundo

Um homem da aldeia de Neguá, no litoral da Colômbia, conseguiu subir ao céus. Quando voltou, contou. Disse que tinha contemplado, lá do alto, a vida humana. E disse que somos um mar de fogueirinhas.

- O mundo é isso - revelou.
- Um montão de gente, um mar de fogueirinhas.

Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Não existem duas fogueiras iguais. Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras de todas as cores. Existe gente de fogo sereno que nem percebe o vento e gente de fogo louco que enche o ar de chispas. Alguns fogos, fogos bobos, não iluminam nem queimam; mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar e quem chegar perto pega fogo.

* "Livro dos Abraços" de Eduardo Galeano
** Indicação da Stefani, uma amiga que chegou pra ficar.

Aprendiz de Lisbela

Lisbela - Los Hermanos. Clique e ouça.

O que aconteceu com os romances hollywoodianos? Por que ninguém mais corre atrás dos outros? Ninguém sobe vinte andares de escadarias de um prédio, ninguém vai até o aeroporto atrás de algum vôo perdido, ninguém tem fôlego para serenatas noturnas com violão, ninguém tem pique para escalar sacadas, ninguém abre as portas de uma igreja qualquer e a plenos pulmões sai gritando que se opõe ao casamento. Não, isso não existe mais. É muito cômodo ficar em casa remoendo a situação ao invés de enfrentá-la. Aquela velha questão da discrição, de ser resignado e segurar seus impulsos apaixonados para não quebrar a cara depois. Às vezes eu fico aqui me perguntando se eu lutei o suficiente pelas pessoas que passaram pela minha vida. Eu deveria ter dado mais do meu sangue, do meu suor, das minhas lágrimas. Eu deveria ter dito tudo o que eu tinha guardado. Eu preciso de um atestado de intensidade vivida para entregar na porta do céu ou do inferno quando eu morrer. Eu preciso saber que fiz o possível, saber que valeu a pena. E quanto mais eu penso nisso, mais eu tenho certeza de que não moro em Hollywood e que de nada adiantaria fazer tudo isso. Aliás, agora eu não moro mais em nenhum lugar específico e algumas lutas sempre serão em vão.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Enxágua-me

Heart Of My Own - Basia Bulat. Clique e ouça.

Ela colocou Basia Bulat bem alto enquanto eu colhia toalhas no varal. Cansada de não sonhar, pediu-me que lavasse seus cabelos de noite nublada. Os olhos inchados já não eram mais cachoeira: tornaram-se Saaras à espera da primavera. Sentou-se no chão, cruzou as pernas, largou os abraços perdidos. Índia. A água gelada lavou as dores mundanas e arrepiou suas entranhas. Embrulho seus fios entre meus dedos para arrancar as tristezas. Tento desembaraçar os desgostos com movimentos fortes no meio da espuma. Há momentos em que não precisamos de palavras para parar a tempestade. Vi pequenos seios crescerem numa respiração forçada e angustiada. Li seus pensamentos num sussurro, entre uma música e um exagüe, mas continuei segurando firme sua nuca. Foi ela quem começou a falar:

- Não é lágrima, não, boboneca. É xampu.


* Proseado dos Jardins Vermelhos de uma certa Boboneca.
Leia mais poemas dela aqui.

domingo, 24 de janeiro de 2010

O Jogo da Amarelinha

"Certa noite, a Maga cravou-lhe os dentes, mordendo-lhe o ombro até sair sangue, pelo simples fato de ele já estar um pouco cansado, um pouco perdido, o que resultou num confuso pacto sem palavras. Para Oliveira era como se Maga esperasse a morte dele, algo nela que não era o seu eu desperto, uma forma obscura reclamando uma destruição, a lenta facada de baixo para cima que rasga as estrelas da noite e devolve o espaço às perguntas e aos terrores. Essa vez, e só essa vez, excitado como um matador mítico para quem matar é devolver o touro ao mar e o mar ao céu, maltratou a Maga numa longa noite da qual pouco falaram mais tarde, fez dela Pasífae, dobrou-a e usou-a como a uma adolescente, conheceu-a e exigiu-lhe as servidões da mais triste puta, magnificou-a em constelação, teve-a entre os braços cheirando a sangue, fez com que bebesse o sêmen que corre pela boca como um desafio ao Logos, chupou-lhe a sombra do ventre e do sexo, erguendo-a depois até o seu rosto, para untá-la de si mesma, à mulher, exasperou-a com pele e pêlo e baba e queixumes, esvaziou-a até o máximo da sua magnífica força, lançou-a contra um travesseiro e um lençol e a sentiu chorar de felicidade contra o seu rosto que um novo cigarro devolvia à noite do quarto e do hotel."

"O Jogo da Amarelinha" de Julio Cortázar.
* Comprei esse livro há mais de um mês, arrumei um bloco de post-it para anotar as referências do autor, mas ainda não comecei a lê-lo. Fico paquerando o livro, li suas abas, dedilhei suas páginas, abri e fechei pra sentir seu cheiro. Estou adiando o prazer como Tom Cruise em Vanilla Sky. Não quero devorá-lo, decifrá-lo e deixá-lo de lado. Quero que ele seja meu amante secreto para as melhores horas.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Prefixos

Infatuation - Maroon 5. Clique e ouça.

Meu erro foi subestimar meus sentimentos e superestimar os dele. Subestimei os meus limites e superestimei o absurdo. Meu erro foi subtrair meus receios e somar nossas vontades. Subtrai os riscos iminentes e somei os prazeres passageiros. Meu erro foi subentender o amor e gritar aos sete ventos que amava. Subentendi-me e não pude nem gritar com ele. Por mais que seja estupidez negar a saudade, qualquer prefixo usado será, simultaneamente, uma tentativa de fuga e uma prova de amor. I want love, not infatuation.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Poesia de MSN

Andira diz (00:11):
Que desse amor tu compreendas o que é a saudade.
Márgara diz (00:11):
E que da saudade valorizes as lágrimas que não viste.
Andira diz (00:12):
Que da tua cegueira tu entendas o que é solidão.
Márgara diz (00:14):
E enquanto sozinho não percas a esperança.
Andira diz (00:16):
Que da fé em teu futuro tu aceites o teu passado.
Márgara diz (00:18):
E no distante de ti mesmo te aches.
Andira diz (00:19):
Somente assim teus desejos serão cumpridos.
Márgara diz (00:21):
E tu poderás amar de verdade.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Dois-mil-e-dez

Comecei esse post em 2009 e ainda não consegui terminar. Não por não saber o que escrever, mas por me sentir repetitiva. Talvez ele nunca tenha um final verdadeiro. Esse ano veio para me mostrar que as coisas não são como deveriam ser. Nada está escrito em pedra, intuições não são definitivas e sonhos são mensagens abertas a interpretação. Sinto como se tivesse vivido décadas em um só ano, do tanto que eu vi, vivi, chorei, senti e sofri. Todavia, posso afirmar com convicção que eu aprendi. Penei, é claro, mas aprendi a lição. 2009 foi um ano de transições, 2010 será de realizações.

* Foto: "Rain down on me" de i.Anton

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Rubra

War Pigs - Cake. Clique e ouça.
Súcubo
"Tudo o que quiser comigo? Sai de cima dessa tua trincheira de timidez e tesão bobo porque eu sei que estou te dando o gosto das rédeas a troco de nada. Só pra te ver com cara de idiota se equilibrando na beirada daquilo que sabe que é incapaz. Só pra me ouvir melar tuas calças com o que vazou da tua esperança. Só pra te sentir nessa infantilidade de me fazer de quatro nas páginas do seu banheiro. Posso montar em você e te pegar pelos cabelos a hora que eu quiser. Posso te fazer experimentar seus próprios lábios e dentes usando só voz e violão. Ao vivo, tenho perfumes mornos e vermelhos como um raio. Sozinha com você, atraio seus olhos perdidos em imaginação débil para fora do seu pântano de pudores. Lá, você é incapaz de domar a si mesmo sem ficar paralisado. No seu colo, você me pega pelos cabelos e some para sempre no papel de possibilidade que nunca chegou a ser nenhum ato nosso." por B.
Íncubo
Tudo o que quiser contigo? Como se fôssemos sobreviver aos campos minados que nós mesmos enterramos no começo da Guerra do Silêncio. Protegida atrás da minha trincheira, eu penso se algum dia você enxergará minha bandeira branca trêmula. Devo, então, invadir o território inimigo, rastejar embaixo do arame farpado e enfrentar batalhões. Devo atravessar tudo e todos para te encontrar. Só para ficar frente a frente com você, sem armas e sem aliados. Só para olhar dentro dos seus olhos e dizer tudo o que eu gostaria de dizer. Só para sentir o seu cheiro, observar seus lábios se mexerem, ouvir a sua voz ecoando. Só para saber que você ainda existe ou se virou somente um fruto da minha imaginação. Todos estão no campo de batalha, mas ninguém sabe porque estão lutando. Soldados só seguem ordens de seus superiores. Tenho certeza de que é impossível conquistar sua terra e hastear minha bandeira. Contudo, quando eu sentar no seu colo e puxar seus cabelos uma última vez, saberei que venci a única luta que valia a pena lutar: a minha.

sábado, 26 de dezembro de 2009

- Ele me pegou no colo.

- Mentira.
- Verdade.
- É o primeiro que consegue essa façanha.
- Acho que foi o primeiro e o último. Não sei como ele conseguiu me segurar sem que eu gritasse, pulasse ou fizesse alguma piada desconcertante. Aliás, me manter em silêncio ali é praticamente um milagre. De algum modo, consegui baixar a guarda por alguns minutos e sucumbi aos carinhos dele.
- Como aconteceu?
- Não sei, acho que ele deve ter alguma espécie de ímã. Quando vi, eu mesma já estava indo sentar no colo dele, não uma, mas inúmeras vezes e em várias situações diferentes. Já estava adestrada e ele nem precisava me chamar. E, por mais que pareça besteira, eu sentia que eu poderia ficar ali pelo tempo que eu quisesse, como se ali fosse o lugar perfeito para eu me aninhar.
- Tem que ser muito macho para conseguir te domar desse jeito.
- Eu parecia uma criança sendo ninada em seus braços. Inacreditável.
- Ele te ama.
- Não, ele não me ama mais.
- Eu também te amo, eu te carreguei no colo aquela vez.
- Aquela vez não conta, eu estava bêbada.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Roncão

Cangote - Céu. Clique e ouça.

Ele ronca. Não há um lugar da casa para ela se esconder e fugir do barulho irritante. Por isso, continua deitada no lado esquerdo da cama observando o sono pesado dele. Eu também estava lá e percebi quando ela transformou o olhar de insônia para homicídio. Olhava para sua vítima num close psicopata. Senta-se. Acompanha o movimento da caixa toráxica dele e percorre o seu corpo com os olhos, desde a ponta dos pés até o topo da cabeça. Começa a estalar os dedos, aposto que planeja asfixiá-lo. Depois alonga os braços e vira o pescoço em um movimento rápido. Suspira profundamente, ela está pronta para o ato assassínio. Puxa o edredon e se aproxima sorrateiramente de sua vítima, apóia as mãos no peito dele, passa as pernas por cima de seu corpo e encaixa a cabeça no seu cangote. Se não pode vencê-lo, deve, pelo menos, unir-se a ele.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Hostess

The Scientist - Coldplay. Clique e ouça.
"Nobody said it was easy..."

A vida, além de compacta, é compartimentada. Como um trem com seus vagões, como uma loja de departamentos, como um navio de luxo cheio de cabines. A minha é um grande hotel com os elevadores especiais, a área para fumantes ou a saída de emergência. Dividir é necessário. A vida nunca suportará todas as pessoas e todos os momentos vividos em um loft com os ambientes integrados. Serão necessários altos andares, espaçoso hall de entrada e um escuro porão para guardar a tristeza. Algumas pessoas você mantém lá em cima, na cobertura, só apreciando a vista. Outras ficam zanzando entre o bar ou salão de festas. Raramente os setores se conectam, determinadas turmas de amigos nunca se conhecerão, alguns são perfeitos para longos papos, outros para a sinuca de jogo rápido. A família não pode conhecer essa ou aquela amizade, você não pode apresentar aquele ex para o namorado e aquele cara do escritório não sai com ninguém. Os setores se separam e cabe a você uni-los de certa maneira. Você não tem uma vida só, você tem várias nas mãos. Haja fôlego para percorrer cada corredor e falar com todo mundo. Você começa a desempenhar mais de um papel, dependendo do dia e da hora. Por isso que você jamais deve se definir, não deve se limitar a isso ou aquilo. Nós somos feitos de vários andares e companhias. Nós somos feitos de muitos. Eu sou a hostess da minha vida, não a dona. É difícil coordenar tudo, administrar a entrada e saída de pessoas, agendar os eventos, evitar os conflitos, trabalhar em tempo integral, resolver os problemas, trocar de roupa, passar a maquiagem, lembrar das falas, sorrir para todos e pular de um quarto pro outro. Todavia, ninguém disse que viver seria uma tarefa fácil.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Sapatos e Cabelos

New Shoes - Paolo Nutini. Clique e ouça.

Todas as criaturas de Deus usam sapatos*. De qualquer Deus ou de algum específico? Eu uso sapatos só por educação. Alguns apertados e altos, outros baixos e espaçosos. Eu poderia andar descalça com os cabelos ao vento para sempre, mas agora não tenho mais cabelo, não tanto quanto eu costumava ter. Eu mesma cortei mais de um terço de cabelo, coloquei para frente as madeixas soltas que iam até o meio das costas e passei a tesoura. Agora meu cabelo não balança ao vento, mas eu continuo caminhando descalça. Passo as mãos para arrumar os fios rebeldes, não uso mais pente ou escova de cabelo. Minha escova de dentes é roxa - como meus hematomas. Meu edredon é cinza - como as minhas lágrimas. Meu café é preto - como meu coração. Minha camiseta preferida é branca e tem um "baby" escrito com letras pretas no centro - para isso não tenho uma explicação plausível. Tenho mania de falar sozinha com o notebook, com a televisão e com os livros. Faço careta pra tudo, tenho um apetite de pedreiro e um sono eterno de cinderela. Meu nariz, minhas mãos e meus pés estão sempre gelados mesmo que eu use meias e sapatos, mas acredite em mim, eu só uso por educação.

* Trecho do livro "Mago e Vidro" - IV Volume da Torre Negra do Stephen King

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Conquiste-me

É Só Saudade - Ludov. Clique e ouça.
"É só saudade, mas dói tanto quanto amor"

Conta a velha lenda que a bela princesa guarani dançou, mais uma vez, na beira da cachoeira, por seu amor. Ao som do vento, remexeu suas tatuagens de urucum e jenipapo delicadamente para a lua, até cansar seus pés. Deitou-se na terra e o rio, que apaixonara-se pela delícia daquele balanço, levou-a para o fundo de seu leito, para vê-la, também, à luz do sol. Quando, enfim, a primavera voltou, trazendo as pétalas aveludadas aos gramados e a brisa pueril aos matagais, a lua entendeu o que era saudade. Chorando estrelas, percebeu o amor por aqueles pequenos traços morenos e minguou, implorando às águas sua amada de volta. As lágrimas incandescentes, no negro oceano, ecoaram a triste verdade que vinha de longe: já era, assim, tarde demais.

* Proseei um poema da querida dos Jardins Vermelhos.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Quais são as minhas opções?

Na maioria das vezes, você não tem escolha. Você acha que sabe o quer da vida, mas no final, é a vida que te escolhe. Aquele sujeito que você amou durante a noite prefere te esquecer durante a manhã. Cada pessoa deve escolher o que quer e não esperar um dia ser escolhida. São tantas as opções. Se você é escolhido, pode ser a qualquer hora e por qualquer um, como um bilhete premiado. A expectativa faz seu coração pulsar mais forte, ela te mantém vivo. Todavia, quando a decisão cai nas suas mãos, você hesita e gagueja, procura pelo melhor e, quase sempre, perde a oportunidade para um próximo. Você se atrapalha, sofre e procura desculpas desnecessárias. São tão poucas as opções. A verdade aparece estampada no lençol ao primeiro sinal de raios solares entre as frestas da janela. Quando a droga, ou a pessoa, ou a vida que você escolheu resolve te dar as costas e te deixar na cama sozinho, penando para descobrir o que fazer daqui pra frente, você pensa em começar de novo, pegar uma borracha e apagar os vestígios, os erros, os enganos. E mais uma vez você percebe que a vida escolheu isso pra você e não o contrário. Então você levanta, abre uma janela, olha para rua e diz em voz alta: esse será meu último cigarro.

* Foto: Candy Cigarrette da Sally Mann

sábado, 28 de novembro de 2009

Lingerie

Say It Ain't So - Weezer. Clique e ouça.

- Adivinha a cor da minha lingerie?
- Vermelha.
- Caramba, como foi que você acertou em cheio?
- Você já tinha me contado antes de sairmos de casa.
- Ok, e qual a cor da sua?
- Você já tirou toda a minha roupa.
- Aé, memória fraca.
- Você é uma menina muito má, sabia?
- Não sou, não.
- É daquelas que não ligam no dia seguinte.
- Qual é o seu número mesmo?

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Medium

Medium - Incubus. Clique e ouça.
Íncubo
O íncubo me acorda com um sopro na coluna. Desliza seus dedos de um ombro ao outro, brincando com as pintas das minhas costas. Depois pousa a palma aberta na base de minha nuca e, impiedosamente, fecha a mão na parte de trás do meu pescoço. Segura firme com suas unhas pressionadas em minha pele e, em seguida, crava seus dentes em minha carne. Sinto o veneno de inúmeros demônios entrando em minha corrente sanguínea, a dor pungente faz com que meu corpo se contraia e repuxe meus músculos. O labirinto de minhas veias é longo demais para o oxigênio percorrê-lo a tempo de me salvar. Um breve estertor sai devagar de meus pulmões quando não encontram mais o ar. Não me mexo mais, ofereço tudo o que tenho e prometo entregar tudo o que tiver no futuro, só quero me virar e enxergar seu semblante. Todavia, o íncubo não quer derramar meu sangue, muito menos quer me ver morta no primeiro round. Ele assiste meu sofrimento de camarote sem nenhum peso na consciência. Sobrevivo a mais uma noite, acordo assustada, atravesso o dia alerta. Aumento o volume da música, leio mais páginas do meu livro, afasto as cortinas e abro as janelas. Chego em casa, tomo um banho frio, corto os cabelos, tiro a maquiagem, deixo o riso fácil e rôo as unhas. Decido reorganizar meus pensamentos, mas voltar para a cama é um sacrifício. Quando consigo regular minha respiração e acreditar no sono tranquilo, o íncubo assopra minha nuca de novo para mostrar que chegou. Enfrento mais uma noite mergulhada na agonia e no vapor quente do hálito dele. Lá fora, todos os anjos choram de mãos atadas. Um belo dia, quando eu não tiver mais nada a oferecer, ele vai enjoar dessa brincadeira insossa, sim, um dia o íncubo vai se cansar de mim.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Acostumai

Let's Stay Together - Trinah (Cover do Al Green). Clique e ouça.

Endireitou minha coluna na posição certa, sentou-se de lado no meu colo e estendeu a mão devagar para uma caneta em cima da mesa. Puxou uma folha com as pontas dos dedos e quase perdeu o equilíbrio. Passei minhas mãos ao seu redor e a incentivei com os olhos fixos no papel em branco. Concentrada no preceito que iria compartilhar, ela escreveu em letras de fôrma que viver - e sublinhou com força o verbo - é sofrimento, acostumai. Pousou a caneta no canto da folha, recolheu as mãos discretamente como uma criança arrependida de sua travessura e fitou minha expressão, mordendo o lábio inferior. Ela pareceu incomodada com a ausência de palavras entre nós, mas era orgulhosa o suficiente para não quebrar o silêncio. Apertei suas coxas sob as minhas e a trouxe mais para perto do meu tronco, deixando que jogasse todo o seu peso no meu corpo. Ela encaixou seu queixo perfeitamente na curva do meu pescoço, roçou seu nariz gelado na minha barba como quem sabe muito bem o que está fazendo, apoiou seus braços em meus ombros em um abraço zeloso e acariciou meus cabelos da nuca. Segura de si, ela sabia que estava no controle da situação agora. Pude soltar minhas mãos por um momento e escrever mais uma frase embaixo da sua, mas antes que ela pudesse ler, segurei firme suas costas e levantei suas pernas em um movimento rápido, larguei a folha na sala e a levei para o quarto sem hesitação. Ela só pôde matar a curiosidade quando o dia amanheceu de mansinho e eu finalmente preguei os olhos: vou trazer mais vida ao seu sofrimento e espero que você se acostume com isso.

sábado, 21 de novembro de 2009

November Rain

November Rain - Guns N' Roses. Clique e ouça.
But lovers always come
And lovers always go
An no one's really sure
Who's letting go today walking away
Dizem que chuva boa mesmo é aquela que lava nossa alma. Aquela que penetra em nossos poros, que limpa não somente as impurezas, mas os problemas. Aquela que nos faz esquecer da vida, que nos faz curtir o momento, aquela que, de alguma maneira, relaxa seu corpo. Boa é a tempestade que nos castiga por inteiro. Quando cai forte e gelada com seus pingos grossos, que nos faz parar para pensar nos erros, que nos obriga a enxergar quem é a pessoa em quem nós podemos confiar cegamente: em nós mesmos. Faz parte do aprendizado me acostumar com o tempo ruim. É por isso que venho experimentando vários tipos de chuvas esse mês. Dessas que caem sem saber o porquê, dessas inesperadas que aliviam os músculos, das carinhosas que nos molham da cabeça aos pés, elas sempre nos relembram o quão insignificantes nós humanos somos. Deve ser para isso que a chuva existe: para os seres humanos atrevidos que caem embaixo dela saírem revigorados. Uma segunda chance para começar seu dia, sua semana, seu mês, seu ano, de novo. Tudo de novo.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Sem querer querendo...

* Imagem: I Can Read.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Ausência

Don't Let Me Be Misunderstood - Nina Simone. Clique e ouça.
Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Carlos Drummond de Andrade

sábado, 14 de novembro de 2009

Dois anos, dois minutos

Between Two Lungs - Florence and The Machine. Clique e ouça.

Ela desceu as escadas atrasada, fugiu da chuva e entrou, por coincidência, naquela mesma livraria. Sacudiu os braços para se secar e, chamando a atenção de quase metade do grupo que assistia a uma palestra, ela o viu de relance. Levou apenas um segundo sem os pés no chão e logo sentou a bunda na primeira cadeira que encontrou. Segurou forte o assento para não tombar de susto. "Impossível, faz quanto tempo? Uns dois anos, eu acho. Será que ele me viu? Puta merda. Tanto faz. Foco, Priscila, foco." Levantou o queixo na direção do palco, mas não conseguiu segurar o olhar curioso que procurava o topo da cabeça dele na terceira fileira da direita. Quase dois anos haviam se passado. Lembrava perfeitamente dele. Poderia reproduzir cada tatuagem de seu corpo se tivesse o dom do desenho. Que droga, poderia reproduzir essas tatuagens até com a ponta da língua, se quisesse. "O tempo fez o que tinha que ser feito, não há mais nada que eu possa fazer. Somos pessoas totalmente diferentes agora. Ok?" E aquilo que demorou dois anos para ser afastado foi novamente unido em menos de dois minutos. Adoro esses números cabalísticos.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Dragão

Escape From Dragon House - Dengue Fever. Clique e ouça.

- Você é um dragão.
- Obrigada pelo elogio...
- Não tem nada a ver com a sua beleza e sim com o modo como se domestica um dragão. Deitada aqui no meu colo, você é minha e ponto final. Mas só pode ser minha de verdade se você quiser ser.
- Nesse caso, eu já estou domesticada?
- É aí que está o X da questão. Não existe uma maneira de domar ou amarrar ou submeter um dragão às suas vontades, isso é praticamente impossível. Ele é livre por natureza e assim deve continuar. O que podemos fazer é um acordo pacífico com o animal. Consegue entender a minha linha de pensamento?
- Ok. Então você quer fechar um acordo com qual objetivo, afinal?
- Para montar no dragão, é claro.

Além desse diálogo insone, ando tendo outras conversas noite afora.
Mais papos sobre Olás, sobre a escolha de nossa Direção, sobre nossa Conversa de Botas Batidas e sobre o Moulin Rouge, basta clicar e ler.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Sem Mundo

As coisas mais bonitas são sempre aquelas ditas da boca pra fora. Difícil é esperar que aquilo dito se transforme em verdade absoluta. Não sei mais em quê acreditar, não sei mais nem se devo acreditar. Quem ama, espera? Espera para viver ou vive para esperar? Sei que as coisas tão mais lindas estão sempre onde você está. Onde você está? Onde quer que você esteja. Não tê-las é como enxergar somente a feiúra das pessoas e não poder fazer nada para mudá-la. É como querer abraçar um mundo sem ter braços e escolher ficar sem o mundo, simplesmente para não sofrer a dor de não poder abraçá-lo...

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Nêmesis

Sin Mi Diablo - Babasónicos. Clique e ouça.
"La verdad es que yo no soy nada sin mi diablo..."
Súcubo
"Acordei sem nunca imaginar que alguém sentiria minha voz desse seu jeito. Quem diria que seria você, estranha como era até se sufocar no pára-quedas com que se aflorou numa das únicas árvores da minha vida. Como pedra mansa em lago de vidro, ela me dá tudo quente e espesso desse jeito. Cintura no batente. Ela e ela. Mãos sobre as mãos. Coisa que não se fala: se faz. Se faz toda de chocolate branco. De chocolate porque é efêmero como ímpeto de homem e impulso de mulher. E branco porque é maldição. Armadilha. A vida é feita disso: de nós. De surpresas e escolhas." por B.
Íncubo
Adormeci sem nunca imaginar que não acordaria mais desse sonho. Inocentemente, fiquei presa na trama onírica e não consegui mais despertar ou quiçá fugir daquelas histórias. Tive que viver uma por uma. Pulei sem pára-quedas do alto de um avião sem medo de me machucar. Mergulhei fundo em um lago congelado pelo inverno só para apaziguar os desejos. Plantei uma semente ao lado da sua árvore para vê-la germinar. Nada deveria me afetar de fato. Puro equívoco. Foi dos sonhos que ele surgiu e é por causa dos mesmos sonhos que ele se vai. Ele e ele. Quem diria que ele seria você.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

De mansinho

E agora ela vem assim, requebrando de mansinho em minha direção*, enquanto seus passos compridos de gazela faceira cessam na posição de lótus ascendente. Antes que seus olhos se perdessem fixos no teto, verga-se para trás e lança suas mãos em seu próprio contorno. Estremece o chão e continua intacta. Há quem pressinta o terremoto repartindo as paredes em rachaduras desiguais e injustas. Há quem queira investigar de onde vem o equilíbrio daquela mulher, quando, na realidade, deveria procurar abrigo imediato. Há quem peça para socorrer aquele corpo frágil com um abraço fraternal. Contudo, toda tentativa de contato é declinada. Todo esforço de consolo é ignorado. E agora ela fica assim, me quebrando de mansinho sem nenhuma precaução, enquanto minha casa perde os alicerces e desmorona ao seu redor. Tijolo por tijolo, tudo fica fora do lugar, menos a silhueta feminina que permanece incólume sob a luz azulada da lua crescente.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Alternativas

Qual a alternativa correta para o seguinte trecho:
Se reencontraram. Então se olharam e foi só o que fizeram por instantes. Foi ele quem desviou os olhos dessa vez, sorrindo e perguntando: "Pronta pras nossas últimas horas juntos?".
Ela sorriu e...

1) ... respondeu: "É, acho que estou pronta, sim." Mas, subitamente, não tinha mais vontade de sorrir, pois sabia que aquelas últimas horas seriam realmente as últimas horas dos dois juntos, uma decisão definitiva que ela odiava saber, e ele não. O sorriso dele cortava seu coração.

2) ... demorou alguns instantes para responder. Pensou em todos os momentos que passaram e mais ainda naqueles que nunca iriam acontecer. Nunca estivera pronta para se despedir. Nunca quisera ficar longe. Aquele gosto, aquela voz, aquele toque. Partida. E então, pediu a ele que olhasse em seus olhos, sem desviar desta vez. E assim ficaram por mais alguns segundos. "Não queria que fossem as últimas. Poderia perder uma vida te olhando, contemplando seu sorriso e sentindo seu gosto. Mesmo que em silêncio." Beijaram-se.

3) ... disse "Não", arrastando-o pra dentro do metrô. De olhos fechados, os dois passearam com os indicadores até encontrar seu destino no mapa dentro do vagão, a despeito das pessoas em volta, que os achavam ridículos. Talvez nunca tivessem realmente estado apaixonados, eles pensaram.

4) ... disfarçadamente secou a lágrima que insistiu em escapar de seu olho. Não, não estava preparada. Puxou-o para bem perto de si, entrelaçou seus braços no pescoço desnudo e, na pontinha dos pés, chegou ao seu ouvido e sussurrou: "Estou apenas preparada para as melhores horas de nossa vida."

5) ... afirmou: "Sim, querido. E o que antes era uma brincadeira rotineira do casal, estava agora para se concretizar. Mal sabia ele que, nas regras do jogo, só ela perguntava. Levantou-se, vestiu suas roupas e saiu do quarto sem responder a mais nenhuma pergunta.

6) ... fechou os olhos por um instante. Em sua mente, passou feito um relâmpago tudo o que aprendeu com ele, todos os planos que construíram juntos, todas as lágrimas derramadas e os doces momentos de prazer que vivera. Abriu os olhos e disse: "Não, ninguém está pronto. Mas seguirei meu caminho com a tranquilidade em meu coração de que esta história teve um ponto final."

7) ... aceitou. Não porque quis abraçar o fim iminente, mas porque ignorava seus temores quanto a isso. Partiu de encontro ao destino, tal qual um soldado que se ergue da trincheira e segue sem medo em direção ao fronte inimigo. E no fundo, talvez o fim seja só uma parte da história, ou um pedaço do começo.

8) ... deu as costas. Não, não estava pronta, nunca estaria. E foi justamente por não estar pronta que jamais o reencontraria novamente. Melhor seguir uam vida inteira sofrendo do que ter algumas horas para colocar um ponto final em algo que jamais deveria terminar.

Respostas intercaladas entre 4 homens e 4 mulheres. Qual a sua?

sábado, 24 de outubro de 2009

Dia do Amor

Floradas de Amor - Duo Moviola. Clique e ouça.

Ninguém precisa de ninguém para ser feliz. A felicidade não é concreta, não acontece todos os dias antes do chá das cinco ou após a novela das oito. Ela é feita de momentos, pequenas doses de alegria que muitas vezes ficam guardadas na memória durante muito tempo, ou para sempre, como preferir. Saiba que amor não é sinônimo de subordinação. Se você precisa estar com uma pessoa e necessita do amor dela para continuar vivendo, você não está amando. Isso é dependência e para isso existe tratamento, acredite. Amar significa que você pode viver muito bem sem a pessoa e continuar sua jornada por seus caminhos e atalhos naturalmente, mas por ter tamanha afeição é que você decide compartilhar uma vida com ela.

É a sua escolha, confie em sua intuição.

Isso também me faz lembrar de uma personagem do filme "O Grande Truque". Ela dizia que, em muitos dias, o seu marido parecia ser outra pessoa e isso fazia com que os dias se alternassem entre aqueles em que ele a amava e aqueles em que ele não sentia absolutamente nada. Quando indagada de seu sentimento a respeito da situação, ela confessa que não se importava com o fato dele ser um poço de inconstância, simplesmente porque os dias em que ele a amava eram os dias mais especiais da semana. Ela espreitava calada ao lado da cama, mal conseguia respirar de ansiedade, observava o semblante recém-desperto de seu amado e torcia para aquele dia ser o dia do amor. Se não fosse, sempre haveriam outros.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Amor a sangre y fuego

Pura Sangre - Jarabe de Palo. Clique e ouça.
No te quiero sino porque te quiero
y de quererte a no quererte llego
y de esperarte cuando no te espero
pasa mi corazón del frío al fuego.

Te quiero sólo porque a ti te quiero,
te odio sin fin, y odiándote te ruego,
y la medida de mi amor viajero
es no verte y amarte como un ciego.

Tal vez consumirá la luz de Enero,
su rayo cruel, mi corazón entero,
robándome la llave del sosiego.

En esta historia sólo yo me muero
y moriré de amor porque te quiero,
porque te quiero, amor, a sangre y fuego.

Pablo Neruda
"Soneto LXVI" Cien sonetos de amor - Tarde (1959)

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Criada-muda

Silent Spring - Massive Attack. Clique e ouça.
Súcubo e Íncubo
O silêncio do telefone é tão estridente que trinca o retrato e o copo. O whisky de anteontem escorre pela gaveta e, dentro dela, lava uma bíblia imunda. Mesmo no escuro, chuto o criado-mudo bem longe para exorcizar a raiva. Mergulho na cama e escondo a saudade do seu gosto costurando minha língua no colchão. Para a minha própria segurança, guardo embaixo do travesseiro a vontade de te morder. Embalo meu corpo no edredon como se fosse um casulo precoce de evolução tardia, uma tentativa frustrada de sufocar meu pensamento de uma vez por todas.

Ali dentro, rastejo e me engrenho em cabelos e pêlos culpados sob minhas roupas ausentes. Elas não estão aqui agora como sequer estiveram na cena do crime, mas justamente por isso, sofrem as conseqüências de nossos atos como cúmplices dolosos ou testemunhas negligentes. Esqueço-me de que ainda é o mesmo colchão e tento me livrar do seu cheiro como um imolado que busca alívio rolando de um lado pro outro nas brasas.

Ah, Camões... O fogo que arde invisível também é a venda que cega o espelho. Primavera taciturna essa que começa. As manchas da maquiagem nunca mais sairão desse maldito travesseiro, esses borrões de blush azul e sombra preta escorrida em lágrimas de fada. Entretanto, deles é que sinto brotarem minhas asas. Atrofiadas e delicadas como gravetos feitos de alma, são brotos de liberdade semeados pelo tesão narcisista. Uma muda. Muda de amor próprio, de respeito. Muda de vontade de voar pra bem longe de mim.

domingo, 18 de outubro de 2009

Amor de Outono

Assim como o amor de verão, o de outono passa a cada três/quatro meses. Não fica nada por se fazer e não há nada que possa ser feito. Seu término é iminente. Deixa lacunas que se renovam a cada mudança de estação, e esperanças de que na próxima tudo seja diferente. Não foi feito para durar e, se fosse, perderia todo o significado de sua sazonalidade. Há de se conformar e aceitar o fato de que passou e ponto final. Lembre-se de que manter souvenir dessa época fará com que você se relembre da efemeridade do amor a cada instante de saudade, mas isso é um risco que vale a pena correr.

* Imagem: I Can Read.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Rua Nantes

Nantes - Beirut. Clique e ouça.

Anoitece na rua recém-asfaltada. O corpo insiste em acender o desejo logo no primeiro lampejo de luz elétrica. Só havia uma saída de emergência para o veículo estacionado ao lado direito. Local perfeito para a apresentação de final de outono. As casas alinhadas são vigiadas pelos cachorros vadios de focinhos cinzentos e pela vegetação agitada à espera do espetáculo. Nenhum deus, dito e repetido por inúmeros nomes, escreve destinos - ou roteiros - assim tão precisos. Não há disfarce nem codinome, a vontade não se engana, muito menos se esconde. Desperta a sentinela interior e haja paciência para saciá-la. Não tem volta. A iluminação fraca e amarelada dos postes da praça dão vida ao picadeiro. A sinfonia dos ventos nas folhas caídas pela estação passada marca o ritmo das palmas para o começo da exibição. Os palhaços, devidamente alongados e aquecidos, começam a diversão ao avesso: despem-se de suas fantasias, tiram a maquiagem e expõem toda a sua ardileza. A platéia de um homem só agradece o número com aplausos fervorosos ao lado da janela embaçada do banco traseiro, e aguarda ansiosamente uma nova visita do circo à travessa da Rua Nantes.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Tempos verbais

Meninos e Meninas - Legião Urbana*. Clique e ouça.

Eu canto em português errado. Acho que o imperfeito não participa do passado. Eu troco as pessoas, troco os pronomes.* E continuo não somente cantando, como também escrevendo errado. E troco as frases, troco de casa, troco de sobrenome. Nunca conheci um pretérito que fosse mais que perfeito, tampouco presente ou futuro. Nunca discuti grego antigo ou aramaico ou qualquer língua morta. E no meu futuro, eu não anseio por nada que venha do pretérito, porque mesmo o mais que perfeito está contaminado pelo impessoal. Preciso aprender a controlar meu imperativo negativo e passar a me colocar no gerúndio do infinitivo. Entrementes, prossigo no equívoco da conjugação. E troco as sentenças, troco de roupa, troco os verbos. Vou trocando até que a sintaxe encaixe, ou alguém encaixe em mim.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Loop

Cryin' - Aerosmith. Clique e ouça.

Chorei até o peito doer, abafei os soluços entre as mãos, gritei em silêncio. Pés descalços, mãos congeladas, músculos retesados. Desgrenhada e incrédula, mirando o nada, lábios ressecados balbuciando estrofes bobas de músicas mais bobas ainda, espasmos incontroláveis percorrendo o corpo. Um grande buraco negro surgiu no meio de mim mesma. Ele não tem predileção e nunca fica satisfeito, vai sugando e tragando tudo o que eu tenho e tudo o que eu já tive de bom. Deixa uma espécie de desesperança clandestina no fundo do meu âmago, aquela dor rasa que sempre lateja para lembrar o porquê do meu sofrimento. Você. Ou a falta que você me faz, ou fez, ou vai fazer. Você. Ou a vontade que eu tenho de você, ou tive, ou vou ter. Você. Ou o loop que minha espera por você criou em meus pensamentos vazios. A lágrima prova que ainda sou tua; o suspiro preso entre os dedos prova que ainda consigo ser; o grito mudo prova que não quero mais ser. E se não for tua, não serei de mais ninguém.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Amputação voluntária

Back to Black - Amy Winehouse. Clique e ouça.

Depois de meses afastado, ele reapareceu na minha vida como quem não quer nada, mas eu tenho certeza de que agora, mais do que nunca, ele quer tudo e mais um pouco. Veio investigar meu presente, ressuscitar meu passado, atordoar meu futuro. Dos momentos que vivemos, ficaram somente as palavras que poderiam ter sido ditas e não foram. Das palavras que reinventamos, nenhuma deve ser novamente repetida. E das repetições absurdas que fizemos, ora, sabemos que insistir no mesmo erro é burrice. Observar suas feições de soslaio e sentir seu corpo tão próximo do meu faz com que minha memória reviva lembranças que eu jurava que já haviam sido apagadas. É como amputar um braço voluntariamente e, ainda assim, senti-lo pulsando ao lado do corpo, como uma continuação de vida inexistente ou como um pedaço eterno de meu eu-lírico fracassado.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Caixeiro viajante

Acabo de chegar. Vim lhe apresentar uma possibilidade de compra única. Trouxe aqui comigo essa oportunidade irrecusável de amar sem ter que esperar e de poder encontrar nas palavras uma cumplicidade sem igual. É tarde, eu sei, mas vim assim que soube que precisavam dos meus produtos por essas bandas. Não me pergunte quem solicitou minha presença, basta saber que aqui estou ao seu dispor. Escondo em minhas mangas alguns truques batidos, mas não sou mágico, muito menos palhaço. Cheguei agora e posso aguardar algum tempo até que você se decida. Não se esqueça de que eu ainda tenho muitos locais para visitar e meu regresso é iminente. Mesmo assim, eu espero por você. Só não me confunda com o Cupido, meus serviços custam um certo preço, podemos negociar a forma de pagamento, mas eu não vendo fiado.

* Foto: Waiting for the Moon Parade do Andrew Pearce

domingo, 4 de outubro de 2009

Tom Jobim

Inútil Paisagem - Tom Jobim & Dorival Caymmi. Clique e ouça.
Mas pra quê?
Pra quê tanto céu?
Pra quê tanto mar? Pra quê?
De que serve esta onda que quebra?
E o vento da tarde? De que serve a tarde?
Inútil paisagem.

Pode ser que não venhas mais.
Que não venhas nunca mais...

De que servem as flores
que nascem pelos caminhos?
Se meu caminho sozinho é nada...

Letra daqui.

sábado, 3 de outubro de 2009

Rodeio

Rodeo Clowns - Jack Johnson. Clique e ouça.

Aprendi, de um jeito ou de outro, que o que conta são os atos e não as palavras. O que as pessoas dizem de nada vale, você tem que reparar nas suas ações, no que elas realmente fazem. Eu ganhei um livro que não tem dedicatória, porque dedicatória não se pede. Temos que estar preparados para as decepções. Amar é como montar em um touro bravo no meio de um rodeio. Não importa quantos touros você montou, mas quantos segundos você conseguiu se equilibrar no lombo deles. Cair é inevitável, você precisa entrar na arena sabendo que você sempre vai cair. O que difere um amor do outro é a maneira como você se ergue do chão, foge da chifrada e limpa a poeira. Foi por causa do amor que ele se calou e assim permaneceu. Não houve nenhuma explicação, mas creio que sentirá a lacuna da ausência diária. O amor faz falta, mas ele também faz calar. Eu ganhei o silêncio de presente de despedida, porque, assim como a dedicatória, silêncio não se pede, muito menos se contesta.