A Folha em Branco

Eu já não sei escrever, não como antigamente. E isso é culpa do amor. Digamos que o amor é e é tanto que já não se sabe se existe. Porque quem ama ou que venha a amar, deixa teu verbo no intransitivo, pois não sairá ileso de lá. Dissídio ou fome de palavras vagabundas, dores de vida sem finalidade ou coerência. Porque quem escreve ou que venha a escrever, deixa teu verbo no infinitivo, pois não haverá consciência. Digamos que o amor é e é tanto que já achei graça no seu caminhar erradio. Porque agora que passou o verão, os cachos desceram para o pescoço e acariciaram a nuca, uma vez que o lápis beijou o chão. Já dizia um poeta não muito conhecido que, se você não tem tempo para ler, você também não tem tempo para escrever. Despeço-me, pois hoje eu só tenho tempo para amar.
Aquela certeza de já ter feito tudo o que estava no alcance de suas mãos e a incerteza de não saber se o que está fazendo é o correto faz a cabeça latejar. O grande receio que persegue as pessoas à noite sempre será estocado entre as mãos e a cabeça. Tudo isso deve ser deixado no travesseiro, peça fundamental para estoque de pensamentos inacabados, ele será aconchegante e macio quando necessário e insuportavelmente silencioso para guardar nossos talvezes, serás e todavias. Só existe um dia em que nada pode ser feito: o dia da nossa morte. Quando esse dia - do juízo - final chegar, não adianta tentar acertar as contas. We just need to let it go.
Nenhum dos dois sabe bem ao certo o que fazer com o silêncio que paulatinamente surgiu entre nós. De um dia para o outro, transformamo-nos em pais. Talvez possamos domá-lo como nossa cria e niná-lo nos braços como filhote nascido do meu próprio ventre. Darei meu colo como acalanto e meu seio como alimento. Temos um mundo inteiro para mostrar e, muitas vezes, vamos nos perder em nossos ensinamentos. Todavia, vamos continuar em frente e, quando nosso silêncio estiver crescido, quando ele se tornar mestre e nos rebaixar a aprendizes, seus últimos minutos de vida chegarão ao fim. Logo, estaremos nos perguntando o porquê de termos nos dedicado tanto tempo a algo tão efêmero, sem saber que a entrega não está no ato de trazê-lo para perto de si e, sim, em deixá-lo seguir em frente.
- Enquanto tu estiveres acordado, ainda posso te ter. - minto.
"Reclamava, fazia-lhe censuras, insultava-a, insistia nos males da soberba. Sua resposta, uma vez: 'O senhor não deixa de ter certa sabedoria: fala do que conhece.' Decidi propor-lhe casamento. Não tive boca para dizer-lhe as palavras, nem mesmo quando soube que estava de partida. Tive-lhe ódio, durante alguns anos. Emprenhava as mulheres e detestava os filhos que nasciam porque nenhum era seu. Com o tempo, o ódio foi passando, veio uma espécie de enlevo, talvez de gratidão. Acabei achando que Joana Carolina foi minha transcendência, meu quinhão de espanto numa vida tão pobre de mistério."Não me recordo muito bem ao certo, dentre tantas citações e leituras rápidas que fiz por livros online - fiz não, faço, eu sempre faço leituras rápidas para aguçar a inspiração -, no entanto, minha memória é traiçoeira. Resumindo, quero ler esse livro inteiro do Osman Lins, "Retábulo de Santa Joana Carolina". Acabou de entrar para a minha extensa, porém seleta, lista de próximas aquisições."Retábulo de Santa Joana Carolina" de Osman Lins.
Preste atenção, amor:
- Aqui é o começo da nossa própria perdição.

Um homem da aldeia de Neguá, no litoral da Colômbia, conseguiu subir ao céus. Quando voltou, contou. Disse que tinha contemplado, lá do alto, a vida humana. E disse que somos um mar de fogueirinhas.
"Certa noite, a Maga cravou-lhe os dentes, mordendo-lhe o ombro até sair sangue, pelo simples fato de ele já estar um pouco cansado, um pouco perdido, o que resultou num confuso pacto sem palavras. Para Oliveira era como se Maga esperasse a morte dele, algo nela que não era o seu eu desperto, uma forma obscura reclamando uma destruição, a lenta facada de baixo para cima que rasga as estrelas da noite e devolve o espaço às perguntas e aos terrores. Essa vez, e só essa vez, excitado como um matador mítico para quem matar é devolver o touro ao mar e o mar ao céu, maltratou a Maga numa longa noite da qual pouco falaram mais tarde, fez dela Pasífae, dobrou-a e usou-a como a uma adolescente, conheceu-a e exigiu-lhe as servidões da mais triste puta, magnificou-a em constelação, teve-a entre os braços cheirando a sangue, fez com que bebesse o sêmen que corre pela boca como um desafio ao Logos, chupou-lhe a sombra do ventre e do sexo, erguendo-a depois até o seu rosto, para untá-la de si mesma, à mulher, exasperou-a com pele e pêlo e baba e queixumes, esvaziou-a até o máximo da sua magnífica força, lançou-a contra um travesseiro e um lençol e a sentiu chorar de felicidade contra o seu rosto que um novo cigarro devolvia à noite do quarto e do hotel."* Comprei esse livro há mais de um mês, arrumei um bloco de post-it para anotar as referências do autor, mas ainda não comecei a lê-lo. Fico paquerando o livro, li suas abas, dedilhei suas páginas, abri e fechei pra sentir seu cheiro. Estou adiando o prazer como Tom Cruise em Vanilla Sky. Não quero devorá-lo, decifrá-lo e deixá-lo de lado. Quero que ele seja meu amante secreto para as melhores horas."O Jogo da Amarelinha" de Julio Cortázar.
Andira diz (00:11):
Comecei esse post em 2009 e ainda não consegui terminar. Não por não saber o que escrever, mas por me sentir repetitiva. Talvez ele nunca tenha um final verdadeiro. Esse ano veio para me mostrar que as coisas não são como deveriam ser. Nada está escrito em pedra, intuições não são definitivas e sonhos são mensagens abertas a interpretação. Sinto como se tivesse vivido décadas em um só ano, do tanto que eu vi, vivi, chorei, senti e sofri. Todavia, posso afirmar com convicção que eu aprendi. Penei, é claro, mas aprendi a lição. 2009 foi um ano de transições, 2010 será de realizações.


- Mentira.
Na maioria das vezes, você não tem escolha. Você acha que sabe o quer da vida, mas no final, é a vida que te escolhe. Aquele sujeito que você amou durante a noite prefere te esquecer durante a manhã. Cada pessoa deve escolher o que quer e não esperar um dia ser escolhida. São tantas as opções. Se você é escolhido, pode ser a qualquer hora e por qualquer um, como um bilhete premiado. A expectativa faz seu coração pulsar mais forte, ela te mantém vivo. Todavia, quando a decisão cai nas suas mãos, você hesita e gagueja, procura pelo melhor e, quase sempre, perde a oportunidade para um próximo. Você se atrapalha, sofre e procura desculpas desnecessárias. São tão poucas as opções. A verdade aparece estampada no lençol ao primeiro sinal de raios solares entre as frestas da janela. Quando a droga, ou a pessoa, ou a vida que você escolheu resolve te dar as costas e te deixar na cama sozinho, penando para descobrir o que fazer daqui pra frente, você pensa em começar de novo, pegar uma borracha e apagar os vestígios, os erros, os enganos. E mais uma vez você percebe que a vida escolheu isso pra você e não o contrário. Então você levanta, abre uma janela, olha para rua e diz em voz alta: esse será meu último cigarro.

But lovers always come
And lovers always go
An no one's really sure
Who's letting go today walking away
Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
Carlos Drummond de Andrade
As coisas mais bonitas são sempre aquelas ditas da boca pra fora. Difícil é esperar que aquilo dito se transforme em verdade absoluta. Não sei mais em quê acreditar, não sei mais nem se devo acreditar. Quem ama, espera? Espera para viver ou vive para esperar? Sei que as coisas tão mais lindas estão sempre onde você está. Onde você está? Onde quer que você esteja. Não tê-las é como enxergar somente a feiúra das pessoas e não poder fazer nada para mudá-la. É como querer abraçar um mundo sem ter braços e escolher ficar sem o mundo, simplesmente para não sofrer a dor de não poder abraçá-lo...


E agora ela vem assim, requebrando de mansinho em minha direção*, enquanto seus passos compridos de gazela faceira cessam na posição de lótus ascendente. Antes que seus olhos se perdessem fixos no teto, verga-se para trás e lança suas mãos em seu próprio contorno. Estremece o chão e continua intacta. Há quem pressinta o terremoto repartindo as paredes em rachaduras desiguais e injustas. Há quem queira investigar de onde vem o equilíbrio daquela mulher, quando, na realidade, deveria procurar abrigo imediato. Há quem peça para socorrer aquele corpo frágil com um abraço fraternal. Contudo, toda tentativa de contato é declinada. Todo esforço de consolo é ignorado. E agora ela fica assim, me quebrando de mansinho sem nenhuma precaução, enquanto minha casa perde os alicerces e desmorona ao seu redor. Tijolo por tijolo, tudo fica fora do lugar, menos a silhueta feminina que permanece incólume sob a luz azulada da lua crescente.
No te quiero sino porque te quiero
y de quererte a no quererte llego
y de esperarte cuando no te espero
pasa mi corazón del frío al fuego.
Te quiero sólo porque a ti te quiero,
te odio sin fin, y odiándote te ruego,
y la medida de mi amor viajero
es no verte y amarte como un ciego.
Tal vez consumirá la luz de Enero,
su rayo cruel, mi corazón entero,
robándome la llave del sosiego.
En esta historia sólo yo me muero
y moriré de amor porque te quiero,
porque te quiero, amor, a sangre y fuego.
Pablo Neruda
"Soneto LXVI" Cien sonetos de amor - Tarde (1959)
e Íncubo
Assim como o amor de verão, o de outono passa a cada três/quatro meses. Não fica nada por se fazer e não há nada que possa ser feito. Seu término é iminente. Deixa lacunas que se renovam a cada mudança de estação, e esperanças de que na próxima tudo seja diferente. Não foi feito para durar e, se fosse, perderia todo o significado de sua sazonalidade. Há de se conformar e aceitar o fato de que passou e ponto final. Lembre-se de que manter souvenir dessa época fará com que você se relembre da efemeridade do amor a cada instante de saudade, mas isso é um risco que vale a pena correr.
Acabo de chegar. Vim lhe apresentar uma possibilidade de compra única. Trouxe aqui comigo essa oportunidade irrecusável de amar sem ter que esperar e de poder encontrar nas palavras uma cumplicidade sem igual. É tarde, eu sei, mas vim assim que soube que precisavam dos meus produtos por essas bandas. Não me pergunte quem solicitou minha presença, basta saber que aqui estou ao seu dispor. Escondo em minhas mangas alguns truques batidos, mas não sou mágico, muito menos palhaço. Cheguei agora e posso aguardar algum tempo até que você se decida. Não se esqueça de que eu ainda tenho muitos locais para visitar e meu regresso é iminente. Mesmo assim, eu espero por você. Só não me confunda com o Cupido, meus serviços custam um certo preço, podemos negociar a forma de pagamento, mas eu não vendo fiado.
Mas pra quê?
Pra quê tanto céu?
Pra quê tanto mar? Pra quê?
De que serve esta onda que quebra?
E o vento da tarde? De que serve a tarde?
Inútil paisagem.
Pode ser que não venhas mais.
Que não venhas nunca mais...
De que servem as flores
que nascem pelos caminhos?
Se meu caminho sozinho é nada...
Letra daqui.